AGATHA CHRISTIE
A CASA TORTA






         Agatha Christie nasceu Agatha May Clarissa Miller, em Torquay,
na Gr-Bretanha, em 1890.

Durante a I Guerra Mundial, prestou servio voluntrio num hospital, primeiro
como enfermeira e depois como funcionria da farmcia e do dispensrio.

Esta experincia revelar-se-ia fundamental, no s para o conhecimento dos
venenos e preparados que figurariam em muitos dos seus livros,
mas tambm para a prpria concepo da sua carreira na escrita.

Com o seu segundo marido, o arquelogo Max Mallowan, Agatha viajaria um
pouco por todo o mundo, participando activamente nas suas escavaes
arqueolgicas, nunca abandonando contudo a escrita, nem deixando passar em
claro a magnfica fonte de conhecimentos e inspirao que estas representavam.

Autora de cerca de 300 obras (entre romances de mistrio, poesia, peas para rdio
e teatro, contos, documentrios, uma autobiografia e seis romances publicados
sob o pseudnimo de Mary Westmacott), viu o seu talento e o seu papel na

literatura e nas artes oficialmente reconhecidos em 1956, ano em que foi
distinguida com o ttulo de Commander the British Ernpire. Em 1971, a Rainha
Isabel II consagrou-a com o ttulo de Dome ofthe British Ernpire.

Deixando para trs um legado universal celebrado em mais de cem lnguas, a
Rainha do Crime, ou Duquesa da Morte (como ela preferia ser apelidada),
morreu em 12 de Janeiro de 1976.

Em 2000, a 31st Bouchercon World Mistery Convention galardoou Agatha Christie
com dois prmios: ela foi considerada a Melhor Autora de Livros Policiais
do Sculo XX e os livros protagonizados por Hercule Poirot
a Melhor Srie Policial do mesmo sculo.

A Casa Torta (Crooked House) teve a sua primeira edio em 1949, ano em que foi
publicado na Gr-Bretanha e nos EUA. Sendo um dos ttulos preferidos de Agatha
Christie, o seu final foi alvo de grande controvrsia j que os editores, descontentes
com a identidade do assassino, exerceram grande presso junto da autora. Agatha
no cedeu e manteve a trama original, dando  estampa um dos mais
surpreendentes finais de toda a sua obra.

OBRAS DE AGATHA CHRISTIE

TTULOS PUBLICADOS

1. O Assassinato de Roger Ackroyd

2. Crime no Vicariato

3. A Morte de Lorde Edgware

4. Enigma das Cartas Annimas

5. Morte na Praia

6. A Casa Torta

7. Encontro com a Morte

8. Anncio de um Crime

9. Crime no Expresso do Oriente

10. O Misterioso Caso de Styles

11. Crime na Mesopotmia

12. O Natal de Poirot

13. O Misterioso MR. Quin

14. Os Cinco Suspeitos

A Casa Torta

Traduo Maria Georgina Segurado

ASA
LITERATURA


Ttulo original
Crooked House

(c) 1949, Agatha Christie Mallowan

Direco grfica
Xavier Neves

Foto da capa
(c) Stone Images

Foto da autora
Bettmann/Corbis/AtlnticoPress

Composio
Maria da Graa Samagaio

Impresso
GRAFIASA

1 edio: Maro de 2002
2 edio: Abril de 2003

Depsito legal n 187822/02
 ISBN 972-41-2781-8

Reservados todos os direitos
ASA Editores, S.A.

SEDE
Av da Boavista, 3265 - sala 4.1
Telef.: 22 6166030
Fax: 22 6155346
 Apartado 1035 / 4101-001 PORTO

E-mail: edicoes@asa.pt
Internet: www.asa.pt

DELEGAO EM LISBOA
Horta dos Bacelos, Lote l
Telef.: 21 9533800/09/90/99
Fax: 21 9568051
2695-390 SANTA IRIA DE AZoIA  PORTUGAL

PRLOGO

Este livro  um dos meus favoritos. Adiei-o durante anos, pensando nele, trabalhando-o, dizendo para mim prpria: "Um dia, quando tiver muito tempo (quero mesmo
divertir-me)... comeo-o!". Devo dizer que, na produo de um autor, cinco livros so trabalho, e apenas um d verdadeiro prazer. A Casa Torta foi puro prazer.

Interroguei-me vrias vezes se as pessoas que lem um livro conseguem saber se ele deu muito trabalho ou prazer. Frequentemente, h algum que me diz: "Como deve
ter-se divertido a escrever isto e aquilo!". E isto a propsito de um livro que obstinadamente se recusava a "sair" como eu desejava, cujas personagens so pouco
consistentes, o enredo desnecessariamente retorcido e os dilogos muito formais - ou pelo menos eu assim o pensava. Mas talvez o autor no seja o melhor juiz do
seu prprio trabalho. Contudo, quase toda a gente gostou de A Casa Torta, e por isso justifica-se a minha prpria convico de que  um dos meus melhores livros.

No sei como  que cheguei  famlia Leonides - apareceu, e pronto. Depois, como uma torta, "cresceu". Sinto que eu prpria fui apenas a sua escriba.

CAPTULO UM

Encontrei a Sophia Leonides pela primeira vez no Egipto, por alturas do final da guerra. Ocupava ali um cargo administrativo relativamente elevado num departamento
do Ministrio dos Negcios Estrangeiros. Conheci-a primeiro profissionalmente, e no tardei a apreciar a eficincia que a guindara s funes que exercia, apesar
da sua juventude (contava na altura apenas vinte e dois anos).

Para alm de ser extremamente agradvel  vista, possua ideias arejadas e um sentido de humor simples que me encantaram bastante. Tornmo-nos amigos. Era uma pessoa
com quem se falava muito facilmente e ambos desfrutvamos muito dos nossos jantares e das poucas vezes que danmos.

Era tudo o que sabia; s quando fui enviado para o Oriente no final da guerra na Europa,  que me dei conta de algo mais - de que amava Sophia e queria casar-me
com ela.

Estvamos a jantar no Shepheards quando fiz essa descoberta. No me surgiu como uma surpresa, mas mais como o reconhecimento de um facto com o qual h muito estava
familiarizado. Olhei-a com outros olhos - mas vi o que h j muito tempo sabia. O cabelo negro e solto que lhe despontava orgulhosamente da testa, os olhos azuis
vivos, o queixo pequeno e quadrado de lutadora, o nariz afilado. Agradava-me o saia-casaco cinzento-claro de corte impecvel e a blusa branca leve. Apresentava-se
refrescantemente inglesa, e isso atraa-me imenso depois de trs anos sem ver a minha terra natal. Ningum, pensei, poderia ser mais inglesa - e pensava precisamente
nisto quando subitamente me interroguei se, na realidade, ela era, ou efectivamente poderia ser, to inglesa quanto parecia. Alguma vez a realidade alcana a perfeio
de uma representao teatral?

Apercebi-me de que, apesar do muito que tnhamos conversado e de o
termos feito sem qualquer reserva, discutindo ideias, as nossas preferncias e as nossas averses, os nossos amigos mais chegados e conhecidos, Sophia nunca mencionara
a sua provenincia ou a sua famlia. Sabia tudo a meu respeito (era, conforme referi j, boa ouvinte), mas eu no sabia nada sobre ela. Presumi que tivesse um passado
normal, mas nunca falara a seu respeito. E at este momento eu nunca me dera conta desse facto. A Sophia perguntou-me no que estava a pensar

- Em ti - respondi com sinceridade.

- Compreendo - disse ela. E parecia compreender mesmo.

- Podemos no voltar a encontrar-nos nos prximos anos - disse-lhe.
- No sei quando poderei regressar a Inglaterra. Mas assim que voltar, a primeira coisa que farei ser ir visitar-te e pedir-te em casamento.

Ouviu tudo sem pestanejar. Ficou ali sentada, a fumar, sem olhar para mim.

Por alguns instantes, receei que pudesse no ter compreendido.

- Ouve - disse-lhe. - A nica coisa que estou decidido a no fazer  pedir-te que cases comigo agora. No resultaria. Primeiro, porque podias recusar a minha proposta,
e nesse caso ficaria infeliz e provavelmente ligava-me a alguma mulher horrorosa s para recuperar a minha vaidade. E se no me rejeitasses, o que poderamos fazer?
Casar e separarmo-nos logo a seguir? Ficarmos noivos e resignarmo-nos a um longo perodo de espera? No suportaria exigir-te tanto. Podias conhecer outra pessoa
e sentir-te na obrigao de me seres "leal". Temos vivido numa estranha atmosfera febril de toca-a-despachar. Os casamentos e as relaes amorosas a celebrarem-se
e a desfazerem-se  nossa volta. Gostaria de te saber regressada a casa, livre e independente, para olhares  tua volta e analisares o novo mundo ps-guerra, e decidires
o que pretendes dele. O que existe entre ns dois, Sophia, ter de ser permanente. Qualquer outro tipo de casamento no me serve.

- Nem a mim - afirmou a Sophia.

- Por outro lado - retorqui -, penso ter o direito de te dar a conhecer o que... bem, o que sinto por ti.

- Mas sem a inconveniente expresso lrica? - murmurou a Sophia.

- Querida... no compreendes? Tenho tentado no dizer que te amo. Interrompeu-me.
- Compreendo, Charles. E gosto da tua maneira de fazer as coisas. E podes vir visitar-me quando voltares... se ainda o quiseres...

Coube-me a vez de a interromper.

- No existe a menor dvida a esse respeito.

- Existe sempre uma dvida a respeito de tudo, Charles. Pode existir sempre algum factor incalculvel que vem estragar os planos. Para comear, no sabes muito a
meu respeito, pois no?

- Nem sequer sei onde vives em Inglaterra.

- Vivo em Swinly Dean.

Acenei com a cabea ao ouvi-la mencionar o sobejamente conhecido subrbio de Londres que se gaba de possuir trs excelentes campos de golfe para o ricao da cidade.

- Numa casinha torta... - acrescentou numa sussurrante voz de devaneio.

Devo ter esboado uma expresso ligeiramente atnita, pois ela pareceu divertida e explicou, completando a citao. - E viveram todos juntos numa casinha torta.
Tal e qual como ns. No propriamente numa casinha. Mas efectivamente torta... das empenas s vigas!

- Pertences a uma famlia numerosa? Tens irmos?

- Um irmo, uma irm, uma me, um pai, um tio, uma tia por afinidade, um av, uma tia-av e uma av-madrasta.

- Santo Deus! - exclamei, ligeiramente alarmado. Ela riu-se.

- Claro que normalmente no vivemos todos juntos. A guerra e os bombardeamentos acabaram por nos reunir... mas no sei - franziu o sobrolho, reflectindo -, talvez
espiritualmente a famlia sempre tenha vivido junta sob o olhar e a proteco do meu av.  uma Personagem, o meu av. Tem mais de oitenta anos, cerca de um metro
e meio de altura, e todos os demais parecem bastante insignificantes ao p dele.

- Parece ser interessante - comentei.

- Ele  interessante.  um grego de Esmirna. Aristide Leonides.  podre de rico - acrescentou com um olhar malicioso.

- Algum ficar rico depois de isto acabar?

- O meu av ficar - garantiu a Sophia. - Com ele as tcticas de espoliar os ricos no resultariam. Espoliaria os espoliadores.
- Ser que vais gostar dele? - acrescentou.

- Tu gostas?

- Mais do que qualquer outra pessoa no mundo - respondeu a Sophia.

10

CAPTULO Dois

Passaram-se mais de dois anos at eu regressar a Inglaterra. No foram anos fceis. Escrevi  Sophia e ela respondeu-me com bastante frequncia. As suas cartas,
tal como as minhas, no eram cartas de amor. Falavam de ideias e pensamentos e comentrios sobre as tendncias da vida quotidiana. No entanto, eu sabia que pela
minha parte, e acreditava que tambm pela de Sophia, os nossos sentimentos cresciam e se fortaleciam.

Regressei a Inglaterra num dia pardacento de Setembro. As folhas nas rvores eram douradas com a luz do entardecer. O vento soprava em rajadas brincalhonas. Enviei
um telegrama a Sophia do aerdromo. Acabei de chegar. Jantas esta noite Marios nove horas Charles.

Duas horas depois encontrava-me sentado a ler o Times; e ao passar os olhos pela coluna de Nascimentos, Casamentos e bitos, o nome "Leonides" chamou-me a ateno:

A 19 de Setembro, em Three Gables, SwinlyDean, Aristide Leonides, amado esposo de Brenda Leonides faleceu aos oitenta e oito anos. Uma perda profundamente sentida.

Imediatamente a seguir, vinha outro anncio:

LEONIDES - Faleceu subitamente, na sua residncia de Three Gables, Swinfy Dean, Aristide Leonides. Profundamente chorado pelos seus filhos e netos dedicados. Flores
para a Igreja de St. Eldred, Swinfy Dean.

Achei os dois anncios muito curiosos. Parecia ter havido um trabalho

11
deficiente, resultando numa sobreposio. Mas a minha principal preocupao era a Sophia. Apressei-me a enviar um segundo telegrama:

Acabei de ver a notcia da morte do teu av. Lamento imenso. Diz-me quando te posso ver. Charles.

Recebi um telegrama da Sophia s seis horas em casa do meu pai. Dizia:

Estarei no Marios nove horas. Sophia.

A ideia de voltar a encontrar a Sophia deixou-me ao mesmo tempo nervoso e excitado. O tempo arrastava-se com uma lentido exasperante. Cheguei ao Marios com vinte
minutos de antecedncia. A Sophia atrasou-se apenas cinco.

 sempre um choque voltar a encontrar algum que no vimos muito tempo mas que esteve muito presente no nosso esprito durante esse mesmo perodo. Quando finalmente
a Sophia transps as portas giratrias, o nosso encontro pareceu absolutamente irreal. Vinha vestida de preto, e de uma forma algo curiosa, isso surpreendeu-me.
A maior parte das outras mulheres vestia de preto, mas convenci-me de que era manifestamente luto... e espantou-me que a Sophia fosse o tipo de pessoa que usasse
o preto, mesmo por um familiar chegado.

Tommos cocktails - depois fomos procurar a nossa mesa. Conversmos de forma bastante rpida e febril, perguntando por velhos amigos dos tempos do Cairo. Era uma
conversa artificial, mas permitiu-nos vencer o embarao inicial. Exprimi-lhe o meu pesar pela morte do av e a Sophia disse calmamente que fora "muito sbita". Depois
comemos novamente com as recordaes. Comecei a sentir, com alguma apreenso, que havia algum problema... alguma coisa, quero dizer, para alm do embarao natural
de nos tornarmos a encontrar. Algo estava errado, manifestamente errado no comportamento da prpria Sophia. Iria talvez anunciar-me que encontrara outro homem de
quem gostava mais? Que os seus sentimentos por mim no tinham passado de "um engano"?

De certa forma, tive a impresso de que no era isso... mas no sabia o que era. Entretanto, a nossa conversa artificial prosseguia.

Ento, repentinamente, quando o empregado colocou o caf na mesa e se retirou fazendo uma vnia, tudo se dissipou. Aqui estvamos a Sophia e eu, sentados juntos
como tantas vezes antes a uma pequena mesa num restaurante. Os anos da nossa separao podiam nunca ter ocorrido.

12
- Sophia! - exclamei.

E imediatamente ela replicou: - Charles! Respirei fundo de alvio.

- Graas a Deus que aquilo acabou - disse-lhe. - O que se estava a passar connosco?

- Provavelmente foi culpa minha. Estava a ser estpida.

- Mas agora est tudo bem?

- Sim, agora est tudo bem. Sorrimos um ao outro.

- Querida! - exclamei. E depois: - Quando  que queres casar comigo?

O sorriso dela esmoreceu. A tal coisa, fosse l o que fosse, estava de volta.

- No sei - respondeu ela. - No tenho a certeza de que possa casar contigo, Charles.

- Mas, Sophia! Por que no? Consideras-me um estranho? Necessitas de tempo para voltares a habituar-te a mim? Existe outra pessoa? No... calei-me. - Que tolo. No
 nada disso.

- No, no . - Abanou a cabea. Aguardei.

-  a morte do meu av - disse ento em voz baixa.

- A morte do teu av? Mas porqu? Que diferena pode isso fazer? No queres dizer... certamente no ests a pensar... trata-se de dinheiro? Ele no deixou nada?
Mas, minha querida, isso...

- No se trata de dinheiro. - Esboou um sorriso tmido. - Acho que estarias disposto a "receber-me com a roupa que trago no corpo", como diz o velho rifo. E o
av nunca perdeu um centavo na sua vida.

- Nesse caso, do que se trata?

- Apenas da sua morte... creio, Charles, que ele no morreu... naturalmente, sabes? Acho que pode ter sido... assassinado... Olhei-a fixamente.

- Mas... que ideia mais absurda. O que te leva a pensar semelhante coisa?

- No sou eu que penso. Para comear, o mdico desconfiou. No quis assinar a certido de bito. Vo proceder  autpsia.  evidente que suspeitam que algo est
errado.

13
No a contestei. A Sophia era suficientemente inteligente; quaisquer concluses que tivesse tirado eram fidedignas. Em vez disso, disse-lhe em tom srio:

- As desconfianas deles podem ser infundadas. Mas  parte isso, supondo que tm fundamento, como  que isso nos afecta, a ti e a mim?

- Em determinadas circunstncias, at poderia. Ests no Servio Diplomtico. Eles so muito exigentes em relao s mulheres. No... por favor no digas todas as
coisas que ests mortinho por dizer. s obrigado a diz-las... e acredito realmente que as pensas... e teoricamente at estou de acordo. Mas sou orgulhosa... terrivelmente
orgulhosa. Quero que o nosso casamento seja algo bom para todos, no quero que represente um sacrifcio por amor! E, como digo, pode vir a ser bom...

- Queres dizer que o mdico pode ter-se enganado?

- Mesmo que ele no se tenha enganado, no ter importncia... desde que tenha sido assassinado pela pessoa certa.

- O que queres dizer, Sophia?

- Foi uma afirmao monstruosa. Mas, afinal, por que no posso ser honesta?

Antecipou as minhas prximas palavras.

- No, Charles, no vou dizer mais nada. Provavelmente at j falei de mais. Mas fazia questo de vir encontrar-me contigo esta noite... para te ver e para te fazer
entender. No podemos decidir nada enquanto no ficar tudo esclarecido.

- Ao menos explica-me o que se passa. Ela abanou a cabea.

- No quero.

- Mas... Sophia...

- No, Charles. No quero que nos vejas da minha perspectiva. Quero que nos vejas de forma imparcial, do ponto de vista exterior.

- E como poderei faz-lo?

Olhou-me com um estranho brilho nos seus olhos azuis-vivos.

- Atravs do teu pai.

Contara  Sophia, no Cairo, que o meu pai era comissrio-adjunto da Scotland Yard. Ainda se mantinha nessas funes. Ante as palavras dela, senti um peso frio descer-me
pelo corpo.

14


- A situao est assim to feia?

- Creio que sim. Ests a ver um homem sentado sozinho a uma mesa junto  porta... um sujeito bastante bem-parecido com o aspecto imperturbvel de ex-militar?

- Sim.

- Estava na estao, em Swinly Dean, esta tarde quando apanhei o comboio.

- Queres dizer que ele te seguiu at aqui?

- Sim. Creio que todos ns estamos... como  que se diz?... sob vigilncia. De certa forma, sugeriram-nos que seria prefervel no sarmos de casa. Mas eu fazia
questo de te ver. - O seu pequeno queixo quadrado espetou-se em desafio. - Sa pela janela da casa de banho e desci pelo algeroz.

- Querida!

- Mas a polcia  muito eficiente. E claro que havia o telegrama que te enviei. Bem... no interessa, estamos aqui, juntos... Mas de hoje em diante temos de agir
separadamente.

Fez uma pausa e depois acrescentou:

- Infelizmente no h dvida... de que nos amamos.

- Dvida nenhuma - respondi. - E no digas infelizmente. Tu e eu sobrevivemos a uma guerra mundial, escapmos muitas vezes por um triz de uma morte sbita... e no
vejo motivo para a morte sbita de apenas um velho... a propsito, que idade tinha ele?

- Oitenta e sete.

- Claro. Vinha no Times. Na minha opinio ele morreu apenas de velhice, e qualquer clnico geral que se preze aceitaria o facto.

- Se tivesses conhecido o meu av - disse a Sophia -, surpreender-te-ia que ele morresse fosse do que fosse!

15

CAPTULO TRS

Eu sempre sentira algum interesse pelo trabalho do meu pai na polcia, mas nada me preparara para o momento em que viria a ter um interesse pessoal e directo nele.

Ainda no vira o Velho. Tinha sado quando cheguei, e aps tomar um banho, fazer a barba e mudar-me, partira ao encontro da Sophia. Quando regressei a casa, porm,
Glover informou-me de que ele se encontrava no escritrio.

Estava sentado  secretria, concentrado a analisar uma srie de papis. Deu um salto quando entrei.

- Charles! Ora, ora, h quanto tempo.

O nosso encontro, aps cinco anos de guerra, teria decepcionado um francs. Na realidade, toda a emoo do reencontro estava condensada naquela saudao. O Velho
e eu gostamos muito um do outro, e compreendemo-nos bastante bem.

- Tenho whisky - disse ele. - Quando bastar, diz. Desculpa no estar c quando chegaste. Estou enterrado em trabalho at s orelhas. Um caso dos diabos que se comea
a desvendar

Reclinei-me na cadeira e acendi um cigarro.

- Aristide Leonides? - perguntei.

O sobrolho franziu-se-lhe subitamente. Deitou-me um rpido olhar inquiridor. A sua voz era corts e acerada.

- O que te leva a afirmar isso, Charles?

- Ento estou certo?

- Como tiveste conhecimento disto?

- Recebi uma informao. O Velho ficou  espera.

- A minha informao - disse -, veio da prpria fonte.

16
- Vamos l, Charles, conta-me o que sabes.

- Acho que no vai gostar - avisei-o. - Conheci a Sophia Leonides no Cairo. Apaixonei-me por ela. Vou casar com ela. Encontrmo-nos esta noite. Jantou comigo.

- Jantou contigo? Em Londres? S gostava de saber como conseguiu faz-lo! A famlia foi avisada... oh, muito cortesmente, para no abandonar a casa.

- Precisamente. Ela desceu por um cano junto  janela da casa de banho.

Os lbios do Velho contraram-se por um momento num sorriso.

- Pelos vistos - comentou -, trata-se de uma jovem cheia de expedientes.

- Mas a sua fora policial  plenamente eficiente - contrapus. - Um belo tipo de aspecto militar seguiu-a at ao Marios. Devo figurar nos relatrios que recebes.
Um metro e oitenta, cabelo castanho, olhos castanhos, fato azul-escuro com risca fina, etc.

O Velho olhou-me com dureza.

- Isto ... srio? - indagou.

- Sim - respondi. -  srio, pai. Seguiu-se um momento de silncio.

- Importa-se? - perguntei.

- No me teria importado... h uma semana. Trata-se de uma famlia de boa posio... a rapariga ter dinheiro... e eu conheo-te. No perdes a cabea com facilidade.
Nas presentes condies...

- Sim, pai?

- Pode estar tudo certo, se...
- Se o qu?

- Se o autor foi a pessoa certa.

Era a segunda vez naquela noite que ouvia a mesma expresso. Comecei a ficar interessado.

- E quem  a pessoa certa? Deitou-me um olhar penetrante.

- At que ponto ests a par do assunto?

- No sei nada.

- Nada? - Pareceu surpreendido. - A rapariga no te contou?

17
- No. Disse-me que preferia que eu visse tudo... de uma perspectiva externa.

- Interrogo-me por que razo o teria afirmado...

- No  bastante bvio?

- No, Charles, No creio que seja.

Comeou a caminhar de um lado para o outro com ar carrancudo. Acendera um charuto e este apagara-se. Isso mostrou-me at que ponto ele estava preocupado.

- O que sabes sobre a famlia? - proferiu com rispidez.

- Que diabo! Sei que havia um velho e uma data de filhos e netos e parentes. No fixei bem as ramificaes. - Fiz uma pausa e depois prossegui.
-  melhor esclarecer-me, pai.

- Sim. - Sentou-se. - Ora muito bem - comearei pelo princpio... por Aristide Leonides. Veio para Inglaterra com vinte e quatro anos.

- Um grego de Esmirna.

- J sabes isso?

- Sim, mas  tudo o que sei.

A porta abriu-se e Glover entrou para anunciar a chegada do inspector-chefe Taverner.

- Foi encarregado do caso - disse o meu pai. -  melhor recebermo-lo. Ele tem andado a investigar a famlia. Sabe mais sobre eles do que eu.

Perguntei se a polcia local tinha contactado a Yard.

- Pertence  nossa jurisdio. Swinly Dean pertence  Grande Londres. Baixei a cabea quando o inspector-chefe Taverner entrou no escritrio.

Conhecia Taverner de longa data. Saudou-me calorosamente e congratulou-me pelo regresso so e salvo.

- Estou a pr Charles ao corrente - disse o Velho. - Corrija-me se errar, Taverner. Leonides chegou a Londres em 1884. Montou um pequeno restaurante no Soho. Deu
lucro. Abriu outro. No tardou a ser dono de sete ou oito. Eram todos lucrativos.

- Nunca cometeu quaisquer erros naquilo em que se meteu - acrescentou o inspector-chefe Taverner.

- Tinha faro para aquilo - acrescentou o meu pai. - No fim, estava por detrs da maioria dos restaurantes mais conhecidos de Londres. Depois lanou-se no negcio
de fornecimento de refeies em grande escala.

18
- Estava tambm por trs de muitos outros negcios - informou Taverner. - Venda de roupas em segunda mo, lojas de bijutaria, imensas coisas. Claro que sempre foi
pouco srio - acrescentou pensativamente.

- Est a afirmar que ele era um escroque? - perguntei. Taverner abanou a cabea.

- No, no nesse sentido. Habilidoso, sim... mas no um vigarista. Nunca transgrediu a lei. Mas era o tipo de pessoa que pensava em todas as formas de a contornar.
Mesmo durante a guerra, j velho, conseguiu ganhar um dinheiro dessa maneira. Nada do que fez, jamais foi ilegal, mas assim que iniciava algo era preciso legislar
sobre o assunto, se me fao entender. Nessa altura, contudo, j ele estava a dedicar-se a outra coisa.

- No parece uma personagem muito atraente - comentei.

- Curiosamente, no entanto, era atraente. Tinha personalidade, sabem. Sentia-se. Uma fraca figura. Apenas um gnomo... um sujeitinho feio... mas com magnetismo...
as mulheres apaixonavam-se por ele.

- Fez um casamento espantoso - disse o meu pai. - Casou com a filha de um fidalgo rural, um MFH.

Ergui as sobrancelhas. - Dinheiro? O Velho abanou a cabea.

- No, foi um casamento por amor. Ela conheceu-o quando tratava da festa de casamento de uma amiga... e apaixonou-se por ele. Os pais opuseram-se, mas ela estava
decidida a ficar com ele. Digo-vos, o homem tinha charme... havia algo de extico e dinmico nele que a atraa. Estava aborrecida de morte com os do seu meio.

- E foi um casamento feliz?

- Por estranho que parea, foi muito feliz. Claro que os amigos de ambos no se misturavam (nesse tempo o dinheiro no eliminava as distines de classe), mas isso
no parecia preocup-los. Dispensavam os amigos. Ele construiu uma casa bastante espalhafatosa em Swinly Dean e viveram l e tiveram oito filhos.

- Isto  efectivamente uma crnica familiar.

- O velho Leonides foi muito esperto ao escolher Swinly Dean. Comeava ento a estar na moda. O segundo e o terceiro campos de golfe ainda

Nota: - MFH - Sigla de Master of Fox hounds - Senhor dos Ces de Caa  Raposa
 (N. da T.)

19
no tinham sido construdos. Havia uma mistura de Antigos Habitantes que tinham muito orgulho nos seus jardins e que gostavam de Mrs. Leonides, e de homens ricos
da City' que queriam estar prximos de Leonides, por isso podiam escolher  vontade as suas amizades. Foram perfeitamente felizes, creio, at ela morrer de pneumonia
em 1905.

- Deixando-o com os oito filhos?

- Um morrera ainda beb. Dois dos filhos foram mortos na ltima guerra. Uma filha casou e foi para a Austrlia e morreu l. Uma filha solteira morreu num acidente
de viao. Outra morreu h um ano ou dois. Ainda restam dois filhos: o mais velho, Roger, que  casado mas no tem filhos, e Philip, que casou com uma actriz muito
conhecida e tem trs filhos. A tua Sophia, Eustace e Josephine.

- E eles vivem todos em... como se chama?... Three Gables?

- Sim. Os Roger Leonides foram bombardeados no incio da guerra. Philip e a sua famlia instalaram-se ali a partir de 1937. E h uma tia idosa, Miss de Haviland,
irm da primeira Mrs. Leonides. Sempre desprezou o cunhado, ao que parece, mas quando a irm faleceu achou ser sua obrigao aceitar o convite do cunhado para viver
com ele e olhar pelos filhos.

-  uma mulher muito ciosa das suas obrigaes - afirmou o inspector Taverner. - Mas no  daquelas que muda de opinio sobre as pessoas. Sempre reprovou Leonides
e os seus mtodos...

- Bem - comentei -, parece-me uma casa cheia. Quem acham que o matou?

Taverner abanou a cabea.

- Ainda  cedo - disse ele -, ainda  muito cedo para o dizer.

- Deixe-se disso, Taverner - insisti. - Aposto que acha que sabe quem foi. No estamos no tribunal, homem.

- No - respondeu Taverner melancolicamente. - E talvez nunca venhamos a estar.

- Quer dizer que ele pode no ter sido assassinado?

- Oh, l assassinado ele foi. Envenenado. Mas sabe como so estes casos de envenenamento.  muito difcil conseguir provas. Muito difcil mesmo. Todas as possibilidades
podem apontar numa direco...

-  precisamente a que pretendo chegar. Tem tudo registado na sua mente, no tem?

20
-  um caso de probabilidade muito forte.  uma daquelas coisas bvias. O esquema perfeito. Mas no sei, no sei mesmo.  complicado. Olhei para o Velho, pedindo
a sua interveno.

- Como sabes, Charles - disse ele lentamente -, nos casos de homicdio, o bvio  normalmente a soluo certa. O velho Leonides voltou a casar, h dez anos.

- Quando tinha setenta e sete anos?

- Sim. Casou com uma jovem de vinte e quatro.

Assobiei.

- Que tipo de jovem?

- Uma jovem que trabalhava num salo de ch. Uma rapariga perfeitamente respeitvel... bem-parecida mas do tipo plido e aptico.

- E ela  a probabilidade forte?

- Eu  que lhe pergunto, sir - disse Taverner. - Ela conta agora apenas trinta e quatro anos... e essa idade  perigosa. Ela gosta de viver confortavelmente. E existe
um jovem na casa. O professor particular dos netos. No foi  guerra... tinha um problema de corao, ou qualquer coisa assim. So muito ntimos.

Olhei-o pensativamente. Tratava-se, sem dvida, de um esquema velho e connhecido. A mistura, como j acontecera anteriormente. E a segunda Mrs.
Leonides era, como salientara o meu pai, muito respeitvel. Em nome da respeitabilidade muitos crimes haviam sido cometidos.

- O que lhe deram? - inquiri. - Arsnico?

- No. Ainda no recebemos o relatrio do analista, mas o mdico pensa que foi eserina.

- Isso  um pouco invulgar, no ? Sem dvida ser fcil encontrar o comprador.

- Infelizmente no. Ele tomava-a, sabe. Em gotas.

- Leonides sofria de diabetes - esclareceu o meu pai. - Tomava regularmente injeces de insulina. A insulina  vendida em pequenos frascos com
uma tampa de borracha. Introduz-se uma agulha hipodrmica na tampa de borracha para retirar o lquido.

Adivinhei o que se seguira.

- E no frasco no estava insulina, mas eserina?
- Precisamente.

21
- E quem lhe deu a injeco? - perguntei.

- A mulher.

Compreendia agora o que a Sophia quisera dizer com a "pessoa certa".
 - A famlia d-se bem com a segunda Mrs. Leonides? - indaguei.

- No. Acho que mal se falam.

Tudo se afigurava cada vez mais claro. No obstante, o inspector Taverner no se mostrava mesmo nada satisfeito.

- O que lhe desagrada nesta situao? - perguntei-lhe.

- Se foi ela, Mr. Charles, teria sido muito fcil substituir posteriormente o frasco com eserina por um de insulina genuna. Na verdade, se ela  culpada, no imagino
por que no o ter feito.

- Sim, seria o mais plausvel. Havia muita insulina l em casa?

- Oh, sim, frascos cheios e frascos vazios. E se ela o tivesse feito, nem o mdico se teria apercebido. Sabe-se pouco sobre o aspecto post mortem no envenenamento
com eserina. Mas assim o mdico resolveu verificar a insulina (no fosse tratar-se da dosagem errada ou algo do gnero) e claro, detectou logo que no se tratava
de insulina.

- O que quer dizer - observei pensativamente - que Mrs. Leonides ou  muito estpida... ou possivelmente muito esperta.

- Quer dizer...

- Que ela pode estar a jogar com a hiptese de a polcia chegar  concluso de que ningum seria to estpido como ela parece ter sido. Quais so as alternativas?
H outros... suspeitos?

O Velho respondeu em tom calmo:

- Praticamente qualquer um naquela casa o poderia ter feito. Havia sempre uma boa reserva de insulina, pelo menos para uma quinzena. Um dos frascos podia ter sido
aberto e o seu contedo substitudo, com a certeza de que acabaria por ser utilizado.

- E qualquer pessoa tinha acesso a eles?

- No estavam fechados. Eram guardados numa prateleira especial no armrio dos medicamentos, na casa de banho da parte da casa por ele ocupada. Qualquer um l podia
entrar e sair livremente.

- Algum motivo forte? O meu pai suspirou.

- Meu caro Charles. Aristide Leonides era imensamente rico.  certo

22
que doara j uma boa parte do dinheiro  famlia, mas pode suceder que algum quisesse mais.

- Mas aquele que mais o queria era a actual viva. O amigo dela tem posses?

- No.  pobre como Job.

Ento fez-se luz. Lembrei-me da citao da Sophia. E de repente recordei todo o verso da cano de embalar:

Havia um homem torto que seguia por uma estrada torta. Encontrou uma moeda torta ao lado de um degrau torto. Tinha um gato torto que apanhou um rato torto, E todos
viveram juntos numa casinha torta.

Virei-me para Taverner:

- Que impresso tem dela... de Mrs. Leonides? O que pensa dela? Ele respondeu devagar:

-  difcil dizer... muito difcil mesmo. No  uma pessoa fcil. Muito reservada... por isso no se sabe no que est a pensar. Mas gosta de viver confortavelmente,
disso tenho a certeza. Lembra-me, sabe, um gato, um gato grande ronronante e indolente... No que tenha algo contra os gatos. Os gatos no tm mal nenhum... Suspirou.

- O que queremos - disse ele -  obter provas.

Sim, pensei, todos queramos provas de que Mrs. Leonides envenenara o marido. A Sophia queria-o, e eu queria-o, e o inspector-chefe Taverner queria-o.

Depois a vida seria um mar de rosas!

Mas a Sophia no tinha a certeza, e eu no tinha a certeza, e tambm no me parecia que o inspector-chefe Taverner tivesse a certeza...

23

CAPTULO QUATRO

No dia seguinte fui at Three Gables com Taverner.

A minha posio era curiosa. Era, no mnimo, muito pouco convencional. Mas o Velho nunca fora uma pessoa excessivamente convencional.

Eu tinha um certo prestgio. Colaborara com os Servios Especiais da Yard no incio da guerra.

Claro que isto era completamente diferente... mas os meus feitos anteriores tinham-me conferido, por assim dizer, um certo prestgio oficial.

- Se alguma vez quisermos ver este caso deslindado, teremos de contar com um informador interno - disse o meu pai. - Temos de saber tudo sobre a gente daquela casa.
Temos de os conhecer de dentro... e no de fora. s o homem indicado para o conseguir.

Aquilo no me agradou. Atirei o cigarro para a grelha ao retorquir:

- Sou um espio da polcia?  isso? Tenho de sacar as informaes  Sophia, a mulher que amo e que tambm me ama e confia em mim... acho eu.

O Velho ficou irritado.

- Por amor de Deus - disse em tom brusco -, no me venhas com lugares-comuns. Para comear, no acreditas que a tua amiga assassinou o av, pois no?

- Claro que no. Que ideia mais absurda.

- Muito bem... ns tambm no acreditamos. Ela esteve fora alguns anos, e sempre manteve relaes perfeitamente amistosas com ele. Dispe de rendimentos muito generosos,
e na minha opinio ele teria ficado encantado com a notcia do noivado dela contigo; provavelmente ter-lhe-ia dado um bom dote de casamento. No suspeitamos dela.
Por que haveramos de suspeitar? Mas podes ter a certeza de uma coisa. Se no deslindarmos o caso, esta rapariga no casar contigo. Pelo que me contaste, tenho
quase a certeza disso. E atenta numa coisa,  o tipo de crime que pode nunca vir a ser

24
esclarecido. Podemos ter uma certeza razovel de que Mrs. Leonides e o amigo estavam de conluio... mas prov-lo ser uma outra questo. At ao momento, no temos
quaisquer provas para apresentar ao delegado do Ministrio Pblico. E a menos que consigamos provas concretas contra ela, pairar sempre uma dvida ameaadora. Entendes,
no entendes? Sim, entendia.

- Por que no lhe expes a situao? - disse ento o Velho calmamente.

- Ou seja... quer que pergunte  Sophia se eu... - detive-me. O Velho acenava vigorosamente com a cabea.

- Sim, sim. No te peo que te insinues sem avisares a rapariga das tuas intenes. V o que  que ela tem a dizer acerca disto.

E foi assim que, no dia seguinte, me dirigi com o inspector-chefe Taverner e o sargento-detective Lamb para Swinly Dean.

Pouco depois de termos passado o campo de golfe, virmos numa entrada onde imaginei que antes da guerra tinha havido uns imponentes portes de ferro. O patriotismo
ou a implacvel imposio militar haviam-nos levado. Subimos a longa lea sinuosa ladeada de rododendros, e fomos dar a uma rea coberta de gravilha na frontaria
da casa.

Era incrvel! Interroguei-me por que lhe chamariam Three Gables. Eleven Gables teria sido mais apropriado! O curioso era que tinha o aspecto estranho de estar distorcida...
e julguei saber porqu. Na verdade, fazia lembrar uma pequena casa, era uma pequena casa que aumentara desproporcionalmente de volume. Era como olhar para uma pequena
casa de campo atravs de uma lupa gigantesca. As traves enviesadas, o madeiramento, as empenas... era uma casinha torta que crescera como um cogumelo da noite para
o dia!

No entanto, apanhei a ideia. Era a ideia de algo ingls para um dono de restaurantes grego. Pretendia ser o lar de um ingls... construdo com a dimenso de um castelo!
Interroguei-me sobre o que teria pensado dele a primeira Mrs. Leonides. Calculei que no tivesse sido consultada nem visto
as plantas. O mais provvel era tratar-se de uma pequena surpresa do seu extico marido. Teria estremecido ou sorrido? Ao que parecia, tivera ali uma vida bastante
feliz.
 - Um pouco opressiva, no ? - comentou o inspector Taverner. - Claro que o velho senhor a acrescentou imenso, transformando-a em trs

25
casas separadas, por assim dizer, com cozinhas e tudo. L por dentro  tudo de primeira, como se fosse um hotel de luxo.

A Sophia surgiu  entrada. Vinha sem chapu e vestia uma blusa verde e uma saia de xadrez.

Estacou quando me viu.

- Tu? - exclamou.

- Tenho de falar contigo, Sophia - respondi. - Para onde podemos ir? Cheguei a pensar que fosse levantar objeces, mas depois voltou-se e disse: - Por aqui.

Atravessmos o relvado. Avistava-se dali o campo de golfe n 1 de Swinly Dean, mais alm a mancha de pinheiros numa colina, e para l dela a indefinio dos campos
envoltos em neblina.

A Sophia conduziu-me at ao jardim de pedra, agora um pouco negligenciado, onde havia um banco rstico de madeira bastante desconfortvel, e sentmo-nos.

- Ento? - perguntou ela.

A sua voz no era encorajadora.

Disse o que tinha a dizer... tudo.

Escutou-me com muita ateno. O seu rosto pouco deixou transparecer do que pensava, mas quando por fim terminei, suspirou. Foi um suspiro profundo.

- O teu pai - disse ela -,  um homem muito inteligente.

- O Velho tem as suas razes. Pessoalmente, acho que  uma pssima ideia, mas...

Interrompeu-me.

- Oh, no - disse ela. - No  nada uma pssima ideia.  a nica coisa que pode revelar-se de alguma utilidade. O teu pai, Charles, sabe exactamente o que me vai
no pensamento. Sabe-o melhor do que tu.

Com uma veemncia sbita, quase desesperada, levou uma mo crispada at  palma da outra.

- Tenho de saber a verdade. Tenho de saber.

- Por nossa causa? Mas, querida...

- No s por nossa causa, Charles. Preciso de saber para encontrar paz de esprito. Sabes, Charles, ontem  noite no te contei... mas a verdade  que... tenho medo.

26
- Medo?

- Sim... medo, medo, medo. A polcia pensa, o teu pai pensa, tu pensas, todos pensam... que foi a Brenda.

- As probabilidades...

- Oh, sim,  bastante provvel.  possvel. Mas quando afirmo "Provavelmente foi a Brenda", tenho conscincia de que acredito nisso apenas porque assim o desejo.
Porque, sabes, na realidade no penso que seja assim.

- No pensas assim? - inquiri, lentamente.

- No sei. Ouviste tudo numa perspectiva exterior, tal como eu pretendia. Agora vou mostrar-to visto de dentro. Pura e simplesmente, no acho que a Brenda seja o
tipo de pessoa... estou certa de que no o , que fizesse algo que pudesse envolv-la em qualquer perigo. Ela  muito cuidadosa com a sua pessoa.

- E este jovem? Laurence Brown?

- O Laurence  um perfeito azelha. No teria coragem.
- Ser?

- Bem, na verdade, no sabemos, pois no? Quero dizer, as pessoas podem surpreender-nos enormemente. Faz-se uma ideia delas, e pode estar completamente errada. Nem
sempre... mas por vezes. Seja como for, a Brenda - abanou a cabea -, ela agiu sempre to de acordo com o seu carcter.  o que designo por mulher tipo harm. Gosta
de ficar sentada a comer doces, de ter roupa e jias bonitas, e de ler romances cor-de-rosa e de ir ao cinema.  estranho dizer isto, se nos lembrarmos de que ele
tinha oitenta e sete anos, mas penso realmente que ela estava bastante entusiasmada com o av. Ele era um homem poderoso, sabes. Imagino que conseguisse fazer uma
mulher sentir-se... oh... quase como uma rainha, a favorita do sulto. Penso sempre pensei) que ele fazia a Brenda sentir-se uma pessoa excitante, romntica. Toda
a vida soube lidar com as mulheres, e isso  como uma arte... No se perde o jeito, por mais idade que se tenha. Alheei-me momentaneamente do problema de Brenda
e relembrei uma expresso da Sophia que me perturbara.

- Por que disseste - inquiri - que tinhas medo?

A Sophia estremeceu um pouco e tornou a comprimir as mos.
 - Porque  verdade - murmurou. -  muito importante, Charles, que consigas compreender isto. Somos uma famlia muito estranha, sabes...

27
Existe imensa crueldade em ns e... diferentes tipos de crueldade. Isso  que  perturbador. Os diferentes tipos.

Deve ter visto a incompreenso no meu rosto. Prosseguiu, falando energicamente.

- Vou tentar ser clara. O av, por exemplo. Uma vez, quando estava a falar-nos da sua infncia em Esmirna, mencionou, por acaso, que apunhalara dois homens. Tratara-se
de uma rixa... fora lanado um insulto imperdovel... no sei, mas era uma coisa que acontecera com bastante naturalidade. Na realidade, ele j se tinha praticamente
esquecido daquilo. Mas, de certa forma, foi uma coisa estranhssima de se ouvir, quase por acaso, em Inglaterra.

Acenei.

- Este  um dos tipos de crueldade - prosseguiu a Sophia -, e depois temos o caso da minha av. Mal me lembro dela, mas ouvi falar imenso a seu respeito. Penso que
poderia conter em si a crueldade que advm de no se ter qualquer imaginao. Todos aqueles antepassados que praticavam a caa  raposa... e os velhos Generais do
tipo "dem cabo deles". Cheia de probidade e arrogncia e sem o menor receio de assumir a responsabilidade em casos de vida e de morte.

- No estars a exagerar?

- Sim, talvez... mas tenho sempre imenso medo desse tipo.  cheio de probidade mas  cruel. E depois o caso da minha prpria me:  actriz,  amorosa, mas no possui
o menor sentido das propores.  uma daquelas pessoas egostas inconscientes que s vem as coisas na medida em que as afectam a elas. Isso s vezes  assustador,
sabes. E h a Clemency, a mulher do tio Roger.  cientista (est a fazer uma pesquisa importante) e tambm  cruel, de uma forma impessoal e fria. O tio Roger 
precisamente o oposto:  a pessoa mais bondosa e mais amorosa do mundo, mas tem um temperamento realmente terrvel. O sangue ferve-lhe com facilidade e depois quase
no se apercebe do que est a fazer. E o meu pai...

Fez uma longa pausa.

- O pai - disse ela, com lentido -,  quase controlado de mais. Nunca se sabe o que est a pensar. Provavelmente  uma autodefesa inconsciente

28
contra as orgias de emoo absoluta da minha me, mas s vezes... isso preocupa-me um pouco.

- Minha querida - intervim -, ests a preocupar-te desnecessariamente. No fim, isto resume-se a que talvez toda a gente seja capaz de cometer um homicdio.

- Suponho que seja verdade. At eu.

- Tu no!

- Oh, sim, Charles, no podes considerar-me uma excepo. Acho que era capaz de assassinar algum... - Ficou calada por uns instantes; depois acrescentou: - Mas
se assim fosse, teria de ser por algo que valesse realmente a pena!

Dei uma gargalhada. Foi inevitvel. E a Sophia sorriu.

- Talvez seja uma tola - disse ela -, mas preciso de descobrir a verdade sobre a morte do av. Temos de a descobrir. Se ao menos fosse a Brenda...

De repente senti muita pena de Brenda Leonides.

29

CAPTULO CINCO

Pelo carreiro, uma figura alta caminhava rapidamente em direco a ns. Trazia um chapu de feltro velho e pudo, uma saia lisa e um casaco de malha pesado.

- A tia Edith - anunciou a Sophia,

A figura parou uma ou duas vezes, debruando-se sobre os canteiros, e depois avanou para ns. Ergui-me.

- Este  o Charles Hayward, tia Edith. A minha tia, Miss de Haviland.

Edith de Haviland era uma mulher dos seus setenta anos. Tinha um cabelo volumoso, grisalho e desgrenhado, um rosto vincado e um olhar astuto e penetrante.

- Como est? - saudou. - Ouvi falar de si. Voltou do Oriente. Como passa o seu pai?

Bastante surpreendido, respondi que passava muito bem.

- Conheci-o quando ainda era rapaz - disse Miss de Haviland. - e conheci muito bem a me dele. O senhor  bastante parecido com ela. Veio ajudar-nos... ou o contrrio?

- Espero ajudar - respondi, bastante constrangido. Ela acenou com a cabea.

- Dava-nos jeito uma ajuda. A casa est cheia de polcias. Surgem em todo o lado. No gosto do gnero de alguns. Um rapaz que frequentou uma escola decente no deveria
ir para a polcia. Vi o filho de Moyra Kinoul outro dia a regular o trnsito em Marble Arch. J nada  como antes!

Virou-se para a Sophia.

- A Nannie precisa de ti, Sophia. O peixe.

- Que maada! - protestou a Sophia. - Vou telefonar a resolver o assunto.

30
Encaminhou-se apressadamente para casa. Miss de Haviland virou-se e caminhou lentamente na mesma direco.

- No sei o que faramos sem as amas - disse Miss de Haviland. Quase toda a gente tem uma velha ama. Mesmo as que um dia saram, voltam e lavam e passam a ferro
e cozinham e fazem o trabalho domstico. Fiis. Eu mesma escolhi esta, h anos.

Parou e arrancou com violncia um ramo de trepadeira.

- Que coisa horrvel, a corriola! No existe erva pior! Sufoca, emaranha-se... e no se consegue extermin-la com facilidade, desenvolve-se por baixo da terra.

Espezinhou maldosamente o tufo de folhas com o salto do sapato.

- Isto est complicado, Charles Hayward - comentou. Olhava na direco da casa. - O que pensa a polcia disto tudo? Suponho que no deva perguntar-lhe.  estranho
pensar que o Aristide foi envenenado. Alis, parece estranho pensar que est morto. Nunca gostei dele, nunca! Mas no me acostumo  ideia da sua morte... Faz com
que a casa parea to... vazia.

No comentei. Apesar das suas palavras secas, Edith de Haviland parecia em mar de recordaes.

- Estive a pensar esta manh... j vivo aqui h muito tempo. Mais de quarenta anos. Vim para c quando a minha irm morreu. Ele pediu-me que viesse. Sete filhos,
e o mais novo com apenas um ano... No podia deixar que fossem educados por um Zorba qualquer, no acha? Um casamento impossvel, claro. Sempre achei que a Mareia
devia estar... bem, enfeitiada. Um estrangeiro baixinho, feio e vulgar! Deu-me carta branca, honra lhe seja feita. Amas, preceptoras, colgios. E uma alimentao
adequada para crianas... nada daqueles pratos esquisitos de arroz picante que ele costumava comer.

- E esteve sempre aqui desde ento? - murmurei.

- Sim. De certa forma  estranho... acho que podia ter-me ido embora, quando as crianas cresceram e casaram... na verdade, acho que me afeioei ao jardim. E depois
havia o Philip. Quando um homem se casa com uma actriz, no pode esperar ter qualquer vida familiar. No sei por que  que as actrizes tm filhos. Assim que um beb
nasce, pem-se a andar e vo representar um repertrio para Edimburgo, ou outro stio o mais remoto possvel. O Philip fez a nica coisa sensata: mudou-se para aqui
com os seus livros.

- O que faz Philip Leonides?

31
- Escreve livros. No sei porqu. Ningum quer l-los. So todos sobre pormenores histricos obscuros. Nunca ouviu falar deles, pois no?

Confessei que no.

- Demasiado dinheiro, foi o que ele teve - sentenciou Miss de Haviland. - A maior parte das pessoas tem de se deixar de excentricidades e ganhar a vida.

- E os livros dele do dinheiro?

- Claro que no. Considera-se uma sumidade em certos perodos e tudo isso. Mas no precisa que lhe comprem os livros: o Aristide doou-lhe qualquer coisa como cem
mil libras... uma soma fantstica! Para no pagar imposto sucessrio! O Aristide tornou-os todos financeiramente independentes. O Roger administra a Associated Catering
- a Sophia tem uma renda bastante generosa. O dinheiro das crianas est aplicado num fundo.

- Ento ningum lucra particularmente com a sua morte? Deitou-me um olhar estranho.

- Lucra, sim. Todos recebem mais dinheiro. Mas provavelmente t-lo-iam recebido na mesma, se o pedissem.

- Faz alguma ideia de quem o envenenou, Miss de Haviland? Respondeu de forma caracterstica:

- No, na verdade, no fao. Perturbou-me muito. No  nada agradvel pensar que se tem uma espcie de Brgia  solta em casa. Creio que a polcia ir estar de olho
na pobre Brenda.

 - E acha que fazem bem?

- Se quer que lhe diga, no sei. Ela sempre me pareceu uma jovem invulgarmente estpida e simplria... bastante convencional. No  bem como imagino uma envenenadora.
Mas se uma mulher de vinte e quatro anos se casa com um homem com quase oitenta,  bastante bvio que est a casar com ele por dinheiro. Pela ordem natural das coisas,
poderia contar tornar-se uma viva rica muito em breve. Mas o Aristide era um velho invulgarmente rijo. A sua diabetes estava estacionria. Parecia que ia viver
at aos cem. Acho que ela se fartou de esperar...

- Nesse caso - disse, e detive-me.

- Nesse caso - concluiu Miss de Haviland energicamente -, ficar tudo mais ou menos bem. Claro que haver o incmodo da publicidade. Mas, afinal, ela no pertence
 famlia.

32
- No tem outras ideias? - sondei.

- Que outras ideias poderia ter?

Seria? Desconfiava que sob o seu velho chapu de feltro poderia passar-se mais alguma coisa do que eu sabia.

Por detrs da elocuo ousada, quase desgarrada, estava, assim o julgava, um crebro muito arguto a trabalhar. Apenas por um momento, at me interroguei se no fora
Miss de Haviland a envenenar Aristide Leonides...

A ideia no se me afigurou impossvel. Surgiu no meu subconsciente a maneira como esmagara a corriola no solo, com o salto do sapato, com uma espcie de mincia
vingativa.

Recordei a palavra que a Sophia usara. Crueldade.

Deitei um olhar furtivo a Edith de Haviland.

Com uma razo suficientemente forte... Mas, concretamente, o que seria para Edith de Haviland uma razo suficientemente forte? Para poder responder a isso, teria
de a conhecer melhor.

33

CAPTULO SEIS

A porta da frente estava aberta. Transpusemo-la e encontrmo-nos num trio surpreendentemente espaoso. Estava mobilado com sobriedade carvalho escuro bem polido
e lato reluzente. Ao fundo, onde seria de esperar uma escadaria, via-se uma parede branca apainelada com uma porta.

- A parte da casa ocupada pelo meu cunhado - explicou Miss de Haviland. - O rs-do-cho pertence ao Philip e  Magda.

Passmos por uma porta  esquerda que dava acesso a uma ampla sala de visitas. Tinha as paredes revestidas a azul-plido, a moblia coberta com pesado brocado e
em cada mesa e nas paredes estavam penduradas fotografias e quadros de actores, bailarinos, cenas de palco e desenhos. Pendurado por cima da lareira, um Degas com
bailarinas. Havia uma imensido de flores, enormes crisntemos castanhos e jarras grandes com cravos.

- Suponho - afirmou Miss de Haviland - que queira ver o Philip? Queria ver Philip? No fazia ideia. Tudo o que queria era ver a Sophia. E isso j eu fizera. Ela
aprovara vivamente o plano do Velho, mas agora retirara-se de cena e estava supostamente a telefonar por causa do peixe, no me tendo dado qualquer indicao sobre
o procedimento a adoptar. Deveria apresentar-me a Philip Leonides como um jovem ansioso por casar com a filha dele, como um amigo dela que resolvera aparecer (num
momento como aquele no apareceria de certeza!) ou como um colaborador da polcia?

Miss de Haviland no me deu tempo para pensar na sua pergunta. Na verdade, nem chegava a ser uma pergunta, mas uma afirmao. Miss de Haviland, pareceu-me, inclinava-se
mais para afirmar do que para perguntar.

- Vamos para a biblioteca - decidiu.

Conduziu-me da sala de visitas por um corredor at outra porta.

Era uma diviso grande, cheia de livros. Estes no se confinavam s

34
estantes que chegavam ao tecto. Estavam em cima de cadeiras e mesas e at no cho. E, no entanto, no davam a impresso de desarrumao.

A sala era fria. No tinha um certo cheiro que conscientemente esperara encontrar. Havia o cheiro a mofo dos livros antigos e apenas um pouco a cera de abelha. S
alguns segundos depois me apercebi do que faltava. Era o cheiro a tabaco. Philip Leonides no fumava.

Levantou-se da secretria quando entrmos - um homem alto, que andaria pelos cinquenta, um homem extraordinariamente bem-parecido. Todos me haviam falado com tanta
nfase na fealdade de Aristide Leonides, que por alguma razo estava  espera de que tambm o filho fosse feio. Certamente no me encontrava preparado para a perfeio
das suas feies

- o nariz fino, a linha correcta do maxilar, o cabelo louro salpicado de fios grisalhos que partiam de uma fronte bem moldada.

- Este  Charles Hayward, Philip - apresentou Edith de Haviland.

- Ah, como est?

No percebi se j ouvira falar de mim. A mo que me estendeu era fria. O seu rosto no revelava qualquer curiosidade. E aquilo punha-me nervoso. Ficou ali de p,
paciente e desinteressado.

- Onde esto aqueles polcias horrorosos? - inquiriu Miss de Haviland.

- J estiveram aqui?

- Creio que o inspector-chefe - consultou o carto em cima da secretria -, hum... - Taverner vem falar comigo daqui a pouco.

- E onde est ele agora?

- No fao ideia, tia Edith. L em cima, presumo.

- Com a Brenda?

- Realmente no sei.

Olhando para Philip Leonides, parecia quase impossvel que um crime Pudesse ter sido cometido perto de si.

- A Magda j se levantou?

- No sei. Ela no costuma levantar-se antes das onze.

-  mesmo dela - comentou Edith de Haviland.

O que parecia mesmo de Mrs. Philip Leonides era uma voz aguda que 'alava muito rapidamente e se aproximava depressa. A porta atrs de mim abriu-se de rompante e
uma mulher entrou. No sei como, conseguiu causar a impresso de que tinham entrado trs mulheres e no uma.

35
Fumava um cigarro numa longa boquilha e trazia vestido um nglig de cetim cor de pssego que segurava com uma mo. Como num quadro de Ti ciano, uma cascata de cabelo
caa-lhe pelas costas. O rosto apresentava aquele ar quase chocante de nudez que hoje tem uma mulher quando no esta maquilhada. Os seus olhos eram azuis e enormes,
e ela falava muito rpidamente, com uma voz rouca bastante atraente mas com uma dico perfeita.

- Querido, no suporto isto, simplesmente no suporto isto... s de pensar nas notcias... ainda no veio nos jornais, mas claro que vir, e simplesmente no consigo
decidir-me quanto  roupa que devo usar no inqurito... muito, muito discreta (mas preto, no, talvez prpura escuro) e simplesmente no encontro as amostras...
perdi a morada daquele homem horroroso que me vende os tecidos... sabes, a garagem algures prximo de Shaftesbury Avenue... e se fosse at l no carro, a polcia
seguir-me-ia e poderia fazer as perguntas mais desagradveis, no podia? O que lhes responderia, diz-me? Como ests calmo, Philip! Como podes estar to calmo? No
vs que agora podemos deixar esta casa horrorosa? Liberdade... liberdade! Oh, o pobre e velho Queridinho... claro que nunca o teramos deixado enquanto fosse vivo.
Era doido por ns, no era?, apesar de todos os sarilhos que aquela mulher l em cima tentou arranjar-nos. Tenho a certeza de que se nos tivssemos ido embora, deixando-o
com ela, ter-nos-ia excludo de tudo. Criatura horrvel! Afinal o pobre e velho Queridinho j ia a caminho dos noventa... nem todos os laos familiares do mundo
chegariam para fazer frente a uma mulher horrorosa, sempre vigilante. Sabes, Philip, acredito realmente que esta seria uma oportunidade maravilhosa para pr em cena
a pea sobre Edith Thompson. Este crime dar-nos-ia imensa publicidade antecipada. O Bildenstein disse que conseguiria arranjar o actor... aquela aborrecida pea
em verso sobre mineiros vai sair a qualquer instante...  um papel maravilhoso, maravilhoso. Bem sei que eles dizem que devo fazer sempre comdia por causa do meu
nariz, mas sabes que a Edith Thompson tem imenso de cmico... no creio que a autora se tenha dado conta disso... a comdia reala sempre o suspense. Sei exactamente
como represent-la - trivial, pateta, fingida at ao ltimo minuto e depois...

Estendeu um brao; o cigarro caiu da boquilha sobre o tampo da secretria de mogno polido de Philip e comeou a queim-la. Impassivelmentt' ele apanhou-o e deitou-o
para o cesto dos papis.

36
- E depois - murmurou Magda Leonides, arregalando subitamente os olhos, contraindo o rosto -, apenas terror...

O medo permaneceu estampado na cara dela por cerca de vinte segundos, depois o rosto descontraiu-se, enrugou-se, e era uma criana assustada prestes a desfazer-se
em lgrimas.

Subitamente toda a emoo se desvaneceu como se removida por uma esponja e, virando-se para mim, perguntou em tom pragmtico:

- No acha que seria a melhor maneira de representar a Edith Thompson?

Respondi-lhe que seria exactamente a maneira de representar a Edith Thompson. De momento lembrava-me apenas muito vagamente de quem era Edith Thompson, mas estava
ansioso por agradar  me da Sophia.

- Na verdade, era tal e qual Brenda, no era? - perguntou Magda. Sabes, nunca pensei nisso.  muito interessante. Devo referi-lo ao inspector?

O homem por detrs da secretria franziu ligeiramente o sobrolho.

- No creio que haja sequer necessidade de falar com ele, Magda advertiu. - Eu posso dizer-lhe tudo o que pretende saber.

- No falar com ele? - A voz dela subiu de tom. - Mas  evidente que tenho de falar com ele! Querido, querido, a tua falta de imaginao  terrvel! No te apercebes
da importncia dos pormenores. Ele vai querer saber exactamente como e quando tudo aconteceu, todos os pequenos indcios que cada um notou e sobre os quais se questionou
na altura...

- Me - interveio a Sophia ao entrar -, no vai contar um monte de mentiras ao inspector.

- -Sophia, minha querida...

- Eu sei que a me tem tudo preparado e que est a postos para oferecer uma magnfica interpretao. Mas est errada. Muito errada.

- Que disparate. No sabes...

- Sei. Vai ter de fazer uma interpretao muito diferente, querida. Submissa... falando muito pouco... contida... na defensiva... protegendo a famlia.

O rosto de Magda Leonides exibia a perplexidade ingnua de uma criana.

- Querida - respondeu ela -, achas realmente...

- Sim, acho. No pense mais nisso.

37
Quando comeou a ser visvel no rosto da me um pequeno sorriso de satisfao, Sophia acrescentou:

- Preparei-lhe chocolate. Est na sala de visitas.

- Oh, que bom, estou cheia de fome... Parou  porta.

- Nem calcula - disse, e no sei se as palavras se dirigiam a mim ou  estante por detrs da minha cabea - como  bom ter uma filha!

E saiu da sala como quem sai de cena.

- S Deus sabe - comentou Miss de Haviland - o que ela ir dizer  polcia!

- Vai sair-se bem - disse a Sophia.

- Ela pode dizer seja o que for.

- No se preocupe - tranquilizou-a a Sophia. - Ela representar de acordo com as orientaes do encenador. E o encenador sou eul

Saiu atrs da me, depois voltou-se para dizer:

- Est aqui o inspector-chefe para o ver, pai. No se importa que o Charles assista, pois no?

Julguei detectar um vago ar de desorientao no rosto de Philip Leonides. At podia ser! Mas a sua habitual indiferena foi-me bastante til.

- Oh, certamente - murmurou numa voz bastante vaga -, certamente.

O inspector-chefe Taverner entrou, slido, inspirando confiana e com um ar de desembarao eficiente e tranquilizador.

"Apenas um pouco de incmodo", pareciam sugerir os seus modos, "depois sairemos desta casa em definitivo... e ningum ficar mais satisfeito do que eu. Ns no queremos
andar por aqui a incomod-los, posso garantir-lhes..."

No sei como conseguiu transmitir o que fazia sem quaisquer palavras, apenas puxando uma cadeira at  secretria, mas resultou. Sentei-me discretamente, um pouco
afastado.

- Sim, inspector-chefe? - disse Philip.

- No precisa de mim, inspector-chefe? - interveio Miss de Haviland abruptamente.

- De momento, no, Miss de Haviland. Se fosse possvel, gostaria de trocar umas impresses consigo mais tarde...

38
- Com certeza. Estarei no andar de cima. Saiu, fechando a porta atrs de si.

- Sim, inspector-chefe? - repetiu Philip.

- Sei que  um cavalheiro muito ocupado e no o incomodarei mais do que o necessrio. Mas posso confidenciar-lhe que as nossas suspeitas se confirmaram. O seu pai
no morreu de morte natural. A sua morte resultou de uma dose excessiva de fisostigmina, mais vulgarmente conhecida por eserina.

Philip baixou a cabea. No evidenciava qualquer emoo em particular.

- No sei se este facto lhe sugere algo? - prosseguiu Taverner.

- O que deveria sugerir? Na minha opinio, o meu pai deve ter tomado o veneno inadvertidamente.

- Acha realmente isso, Mr. Leonides?

- Sim, parece-me perfeitamente possvel. Lembre-se de que ele tinha quase noventa anos, e via bastante mal.

- E por isso despejou o contedo do frasco das gotas no de insulina. Parece-lhe realmente uma sugesto credvel, Mr. Leonides?
 Philip no respondeu. O seu rosto estava ainda mais impassvel. Taverner prosseguiu:

- Encontrmos o frasco das gotas, vazio... no caixote do lixo, sem quaisquer impresses digitais. E isso  muito curioso. Normalmente existiriam impresses digitais.
Certamente do seu pai, possivelmente da mulher, ou do criado de quarto...

Philip Leonides ergueu o olhar.

- E ento o criado? - perguntou. - Sim, o Johnson?

- Est a sugerir que Johnson  o possvel criminoso? Certamente teve oportunidade. Mas quando chegamos ao mbil  diferente. O seu pai tinha Por hbito oferecer-lhe
um bnus todos os anos... e todos os anos o bnus aumentava. O seu pai explicou-lhe que isso substituiria a quantia que poderia ter-lhe deixado em testamento. Actualmente,
o bnus, aps sete anos de servio, alcanou j uma soma muito considervel e continua a subir.  bvio que Johnson teria todo o interesse em que o seu pai vivesse
o mais possvel. Alm disso, mantinham excelentes relaes, e as referncias anteriores de tohnson so as melhores possveis: ele  um criado muito dotado e um fiel
servidor. - Fez uma pausa. - No suspeitamos de Johnson.

39
Philip respondeu monocordicamente: - Compreendo.

- Talvez agora pudesse fazer-me, Mr. Leonides, uma descrio pormenorizada dos seus passos no dia da morte do seu pai?

- Com certeza, inspector-chefe. Estive aqui, nesta sala, todo o dia... exceptuando as refeies, evidentemente.

- Chegou a ver o seu pai?

- Dei-lhe os bons-dias aps o pequeno-almoo, como era meu hbito.

- Nesse caso, esteve a ss com ele?

- A minha... hum... madrasta estava tambm presente na sala.

- E ele pareceu-lhe como de costume?

Com um ligeiro tom de ironia, Philip retorquiu:

- No me pareceu que tivesse qualquer conhecimento prvio de que seria assassinado naquele dia.

- A parte da casa habitada pelo seu pai est completamente isolada desta rea?

- Sim, o nico acesso  a porta do trio.

- E essa porta mantm-se sempre trancada?

- No.

- Nunca?

- Nunca de tal tive conhecimento.

- Qualquer pessoa poderia passar livremente daquela parte da casa para esta?

- Certamente. S estava separada por uma questo de convenincia domstica.

- Como teve conhecimento da morte do seu pai?

- O meu irmo Roger, que ocupa a ala oeste do piso de cima, desceu a correr para me avisar de que o meu pai tivera subitamente uma convulso. Estava com dificuldade
em respirar e parecia muito doente.

- O que fez?

- Telefonei de imediato ao mdico, j que parecia que ningum se lembrara de o fazer. O mdico estava fora... mas deixei-lhe uma mensagem para que viesse o mais
depressa possvel. Depois fui l acima.

- E ento?

- O meu pai estava realmente muito mal. Morreu antes de o mdico chegar

40
No havia qualquer emoo na voz de Philip. Limitava-se a afirmar um facto.

- Onde estava o resto da sua famlia?

- A minha mulher estava em Londres. Regressou pouco depois. A Sophia estava tambm ausente, creio. Os dois mais novos, o Eustace e a Josephine, encontravam-se em
casa.

- Espero que no me leve a mal, Mr. Leonides, se lhe perguntar exactamente de que forma a morte do seu pai vem afectar a sua situao financeira.

- Compreendo perfeitamente que queira ficar a par de todos os factos. O meu pai tornou-nos independentes financeiramente h muitos anos. Nomeou o meu irmo Presidente
e principal accionista da Associated Catering, a sua maior empresa, e deixou a administrao integralmente nas mos dele. Entregou-me o que considerou uma quantia
equivalente (na realidade, creio que foram cento e cinquenta mil libras em obrigaes e ttulos de crdito diversos) para que eu pudesse usar o capital como entendesse.
Estabeleceu tambm quantias muito generosas para as minhas duas irms, entretanto j falecidas.

- Mas mesmo assim continuou a ser um homem muito rico?

- No, efectivamente reservara para si apenas um rendimento comparativamente modesto. Dizia que isso lhe rrdaria um novo interesse na vida. De ento para c - pela
primeira vez, um leve sorriso aflorou aos lbios de Philip -, tornou-se, como consequncia de empreendimentos vrios, um homem ainda mais rico do que antes.

- O seu irmo e o senhor vieram morar para aqui. No o fizeram por causa de dificuldades... financeiras?

- Certamente que no. Tratou-se de uma mera questo de convenincia. O meu pai disse-nos sempre que poderamos vir morar para esta casa. Por diversas razes domsticas,
foi-me conveniente faz-lo.

"Eu era tambm - acrescentou Philip, deliberadamente - extremamente afeioado ao meu pai. Vim para c com a minha famlia em 1937. No pago renda, mas pago a minha
proporo dos impostos.

- E o seu irmo?

- O meu irmo veio para c na sequncia dos bombardeamentos, quando a sua casa de Londres foi atingida em 1943.

41
- Agora diga-me, Mr. Leonides, faz alguma ideia das disposies testamentrias do seu pai?

- Uma ideia muito clara. Ele redigiu um novo testamento em 1946. O meu pai no era um homem dado a segredos. Possua um enorme sentido de famlia. Convocou uma reunio
na qual o seu advogado se encontrava tambm presente e que, a seu pedido, nos esclareceu sobre os termos do testamento. Calculo que conhea j esses termos. Mr.
Gaitskill t-lo- sem dvida informado. Em traos largos, deixou uma quantia de cem mil libras livres de impostos  minha madrasta, a que acresce o seu acordo pr-nupcial,
muito generoso. O montante lquido do seu patrimnio foi dividido em trs partes: uma para mim, uma para o meu irmo e uma terceira reservada para os trs netos
at atingirem a maioridade. Os bens so avultados, mas claro que o imposto sucessrio ser muito pesado.

- Alguns legados a criados ou instituies de caridade?

- No deixou quaisquer legados. Os ordenados dos criados eram aumentados anualmente se eles permanecessem ao seu servio.

- Desculpe a minha pergunta, Mr Leonides, mas no se encontra presentemente necessitado de dinheiro?

- Como sabe, inspector-chefe, o imposto sobre o rendimento  um pouco pesado, mas os meus rendimentos ultrapassam amplamente as minhas necessidades... e as de minha
mulher. Alm disso, o meu pai presenteava-nos frequentemente com ddivas muito generosas, e caso surgisse alguma emergncia, teria vindo prontamente em nosso auxlio.

"Posso asseverar-lhe, inspector-chefe - acrescentou Philip com frieza -, que no tinha qualquer razo de ordem financeira para desejar a morte do meu pai.

- Lamento muito, Mr. Leonides, se as minhas palavras o levaram a pensar que eu sugeria semelhante coisa. Mas temos de estar a par de todos os factos. Agora, receio
ter de lhe fazer algumas perguntas de natureza bastante delicada. Prendem-se com as relaes entre o seu pai e a esposa dele. Davam-se bem?

- Tanto quanto sei, perfeitamente.

- No havia discusses?

- No creio que as houvesse.

- Havia uma... enorme diferena de idades?

42
- Havia.

- Ainda que mal lhe pergunte... aprovava o segundo casamento do seu pai?

- Nunca foi solicitada a minha aprovao.

- Isso no  resposta, Mr. Leonides.

- J que insiste neste ponto, direi que considerava o casamento insensato.

- Discutiu com o seu pai a esse respeito?

- Quando tive conhecimento dele, era j um facto consumado.

- Nesse caso, constituiu um choque para si, hein?

Philip no respondeu.

- Gerou-se algum mal-estar sobre o assunto?

- O meu pai era perfeitamente livre de fazer o que lhe apetecesse.

- As suas relaes com Mrs. Leonides foram sempre amistosas?
 - Perfeitamente.

- Portanto, d-se bem com ela?

- Raramente nos vemos.

O inspector-chefe Taverner resolveu mudar de rumo.

- Pode dizer-me alguma coisa a respeito de Mr. Laurence Brown?

- Receio bem que no. Ele foi contratado pelo meu pai.

- Mas tinha por funo ensinar os seus filhos, Mr. Leonides.

- Certo. O meu filho sofria de paralisia infantil (felizmente um caso leve) e no foi considerado aconselhvel envi-lo para um colgio interno. O meu pai sugeriu
que ele e a minha filha mais nova, a Josephine, tivessem um professor particular; na altura a escolha era bastante limitada: uma vez que estvamos em guerra, o professor
particular em questo tinha de ser algum dado como inapto para o servio militar. As credenciais que esse jovem apresentou eram satisfatrias, o meu pai e a minha
tia (que sempre olhara pelo bem-estar das crianas) mostraram-se satisfeitos, e por isso aquiesci. Posso Acrescentar que no tenho nada a apontar aos seus mtodos
de ensino, que me parecem conscienciosos e adequados.

- Os aposentos dele situam-se na parte da casa do seu pai, e no aqui?

- Havia mais espao l em cima.

- Alguma vez se apercebeu... desculpe perguntar-lho... de quaisquer indcios de intimidade entre Laurence Brown e a sua madrasta?

43
- No tive oportunidade de observar nada dessa natureza.
 - Ouviu algum mexerico ou falatrio sobre o assunto?

- No dou ouvidos a mexericos ou falatrios, inspector-chefe.

- Muito respeitvel - comentou o inspector-chefe. - Por isso, no viu nada de mal, no ouviu nada de mal, e no estamos a falar de nada de mal?

- Se prefere pr a questo nesse p, inspector-chefe. O inspector Taverner levantou-se.

- Bem - disse -, muito obrigado, Mr. Leonides. Segui-o discretamente at fora da sala.

- Ufa! - exclamou Taverner -,  o que se pode chamar um bloco de gelo!

44

CAPTULO SETE

- E agora - disse Taverner -, vamos dar uma palavrinha a Mrs. Philip. Magda West,  o seu nome artstico.

- Ela  boa actriz? - inquiri. - Conheo-a de nome, e creio que j a vi em diversos espectculos, mas no me recordo de quando e onde.
 - Ela  uma daquelas actrizes "Quase Bem-Sucedidas" - afirmou Taverner. - Actuou uma ou duas vezes no West End, criou uma certa fama no teatro de repertrio (participa
imenso em peas de pequenos teatros intelectuais e em clubes particulares). A verdade, creio,  que teve a sorte de no ter de ganhar a vida com isso. Tem podido
escolher e ir onde lhe agrada e esporadicamente financiar um espectculo onde fazia questo de representar um determinado papel - normalmente o que menos se lhe
adequava. Como resultado, remeteu-se um pouco ao trabalho amador em vez do profissional. Ela  boa, diga-se, especialmente na comdia... mas os produtores no gostam
muito dela: dizem que  demasiado independente e que s arranja sarilhos... fomenta discusses e no lhe desagrada semear a discrdia. No sei at que ponto  verdade,
mas no goza de muita popularidade entre os colegas de palco.

A Sophia saiu da sala de estar.
- A minha me est aqui, inspector-chefe - disse. Segui Taverner at  enorme sala de visitas. Por um momento, tive dificuldade em reconhecer a mulher sentada no
sof de brocado.

O cabelo  Ticiano estava todo puxado para o alto da cabea num penteado eduardino, e ela envergava um saia-casaco cinzento-escuro de corte Magnfico e uma blusa
cor de malva delicadamente plissada que apertava no pescoo com um pequeno alfinete em forma de camafeu. Apercebi-me pela primeira vez do charme do seu nariz deliciosamente
arrebitado. Recordou-me

45
vagamente Athene Seyler... e era quase impossvel acreditar que se tratava da tempestuosa criatura no nglig cor de pssego.

- Inspector Taverner? - disse. - Queira entrar e sentar-se. Fuma?  um caso horrvel. Neste momento sinto simplesmente que no vou aguentar.

A sua voz era baixa e sem emoo, a voz de uma pessoa determinada a todo o custo a evidenciar autocontrolo. Prosseguiu:

- Diga-me, por favor, em que posso ser-lhe til.

- Muito obrigado, Mrs. Leonides. Onde se encontrava na altura da tragdia?

- Suponho que regressava de Londres. Almoara nesse dia no Ivy com uma pessoa amiga. A seguir tnhamos ido a um desfile de moda. Tommos uma bebida com outros amigos
no Berkeley. S ento vim para casa. Quando aqui cheguei, estava tudo na maior agitao. Ao que parece o meu sogro sentira-se mal de repente. Estava... morto. -
A sua voz tremeu apenas um pouco.

- Gostava do seu sogro?

- Era-lhe devotada...

A voz dela subiu de tom. A Sophia endireitou, muito ligeiramente, o ngulo do quadro de Degas. A voz de Magda voltou ao anterior tom contido.

- Gostava muito dele - afirmou em voz tranquila. - Gostvamos todos. Ele era... muito bom para ns.

- Dava-se bem com Mrs. Leonides?

- Raramente vamos a Brenda.

- E por que razo?

- Bem, no tnhamos muito em comum. Pobre Brenda. Por vezes, a vida deve ter sido dura para ela.

A Sophia voltou a compor o Degas.

- A srio? De que forma?

- Ah, no sei. - Magda abanou a cabea, com um pequeno sorriso triste.

- Mrs. Leonides era feliz com o marido?

- Oh, acho que sim.

- No havia discusses?

Novamente um ligeiro sorriso ao abanar a cabea.

- Na realidade, no sei, inspector. A parte da casa que habitavam est bastante afastada.

46
- Ela e Mr. Laurence eram muito amigos, no eram?

Magda Leonides empertigou-se. Deitou um olhar reprovador a Tavernet

- No creio - respondeu com dignidade - que deva fazer-me esse tipo de perguntas. A Brenda era amiga de toda a gente. Na verdade, ela  um tipo de pessoa muito amvel.

- Gosta de Mr. Laurence Brown?

-  muito discreto. Bastante simptico, mas mal se d pela sua presena. Na verdade tenho-o visto muito pouco.

- O seu ensino  satisfatrio?

- Presumo que sim. Na realidade, no sei. O Philip parece bastante satisfeito.

Taverner resolveu usar uma tctica de choque.

- Lamento ter de lhe perguntar isto, mas, na sua opinio, existia algo de natureza amorosa entre Mr. Brown e Mrs. Brenda Leonides?

Magda ergueu-se. Via-se que era uma grande dame.

- Nunca vi quaisquer indcios de algo dessa natureza - afirmou. No creio, inspector, que essa seja uma pergunta que devesse fazer-me. Ela era a mulher do meu sogro.

Quase aplaudi.

O inspector-chefe ergueu-se tambm.

- Ser mais uma pergunta para os criados? - sugeriu. Magda no respondeu.

- Obrigado, Mrs. Leonides - disse o inspector e saiu.

- Foi maravilhosa, querida - disse calorosamente a Sophia  me. Magda ajeitou cuidadosamente o caracol por detrs da orelha direita e

olhou-se ao espelho.

- Si-im - respondeu ela -, penso que representei como devia ser. A Sophia trocou um olhar comigo.

- No seria melhor - sugeriu -, acompanhares o inspector?

- Ouve, Sophia, qual achas que...

Calei-me. No podia perguntar directamente, na presena da me da Sophia, qual devia ser o meu papel. Magda Leonides no demonstrara at ali

Nota: - grande dame. - Em francs no original: grande senhora. (N. da T.)

47
qualquer interesse na minha presena, excepto como o til destinatrio de uma ltima deixa sobre filhas. Eu podia ser tanto um reprter, como o noivo da filha ou
um absurdo sequaz da fora policial, at um cangalheiro... para Magda Leonides, todos eles seriam englobados no ttulo genrico de "assistncia".

Mrs. Leonides olhou para os ps.

- Estes sapatos no combinam. So frvolos - afirmou com desagrado. Obedecendo ao gesto imperioso da cabea da Sophia, apressei-me a seguir Taverner Alcancei-o no
hall, prestes a transpor a porta para a escadaria

- Vou falar com o irmo mais velho - explicou-me. Expus-lhe o meu problema sem mais hesitaes.

- Oia l, Taverner, qual  realmente o meu papel no meio disto tudo? Mostrou-se surpreendido.

- Qual  o seu papel?

- Sim, o que fao aqui, nesta casa? Se me perguntarem, o que respondo?

- Ah, estou a ver. - Reflectiu por um momento. Depois sorriu. - Algum lhe perguntou j?

- Bem... no.

- Ento por que no deixa estar como est? Nunca explicar.  um excelente lema. Especialmente numa casa perturbada como esta. Esto todos demasiado absorvidos pelas
suas prprias preocupaes e receios para fazerem perguntas. Aceit-lo-o tal como  desde que parea seguro de si mesmo.  um grande erro dizer alguma coisa quando
no  necessrio. Hum, agora vamos passar por esta porta e subir as escadas. Nada fechado. Espero que tenha percebido que estas perguntas que estou a fazer so todas
absurdas! No interessa nada quem estava em casa e quem no estava, ou onde se encontrava naquele dia em particular...

- Nesse caso, por que razo...

Ele prosseguiu: - Porque pelo menos me d a oportunidade de olhar para eles, de os avaliar e ouvir o que tm a dizer, e esperar que, por mero acaso, algum me d
uma indicao til. - Ficou um momento em silncio e depois murmurou: - Aposto que Mrs. Magda Leonides era capaz de me dar uma mo-cheia delas, se quisesse.

- E seria de confiana? - inquiri.

48
- Oh, no - respondeu Taverner -, no seria de confiana. Mas podia abrir as portas para uma possvel linha de investigao. Todos nesta casa tiveram os meios e
a oportunidade. O que quero  um motivo.

No cimo das escadas, uma porta barrava o corredor  direita. Tinha um batente de lato e o inspector Taverner deu-lhe o uso que se impunha.

Foi aberta repentinamente por um homem que devia estar junto dela no interior. Era um homem gigantesco e desajeitado, com ombros muito largos, cabelo negro crespo
e um rosto extraordinariamente feio mas ao mesmo tempo bastante agradvel. Observou-nos e depois desviou o olhar rapidamente, daquela maneira furtiva e embaraada
que as pessoas tmidas mas honestas com frequncia adoptam.

- Ah, sim - disse ele. - Faam o favor de entrar. Ia neste momento... mas no tem importncia. Vamos para a sala de estar. Vou chamar a Clemency... oh, ests a,
querida.  o inspector-chefe Taverner. Ele... h a cigarros? Esperem s um pouco, se no se importam. - Foi contra um biombo, pediu-lhe desculpa com atrapalhao,
e saiu.

Parecia que um zango abandonara finalmente a sala, deixando um silncio notrio atrs de si.

Mrs. Roger Leonides estava de p junto  janela. Intrigou-me desde logo a sua personalidade e a atmosfera da sala onde nos encontrvamos.

As paredes estavam pintadas de branco - eram realmente brancas, e no cor de marfim ou creme-claro, que  o que normalmente se diz quando se fala de "branco" em
decorao de interiores. No havia nelas quadros,  excepo de um por cima da lareira, uma fantasia geomtrica com tringulos em cinzento-escuro e azul-petrleo.
Quase no existia mobilirio - apenas Peas utilitrias, trs ou quatro cadeiras, uma mesa com tampo de vidro, uma pequena estante. No havia ornamentos. Havia,
sim, luz, espao e ar. No tinha nada a ver com a sala de estar do andar de baixo, toda cheia de brocados e flores. E Mrs. Roger Leonides no podia ser mais distinta
de Mrs. Philip Leonides. Enquanto Magda Leonides dava a impresso de poder ser, e quantas vezes era, pelo menos meia dzia de mulheres diferentes, tinha a Certeza
de que Clemency Leonides nunca conseguiria ser seno ela prpria. Era uma mulher de personalidade forte e definida.

Andaria pelos cinquenta, calculo; o cabelo era grisalho, muito curto num

49
corte quase masculino, mas emoldurava-lhe to bem a cabea pequena e bem feita que perdia toda a fealdade que sempre associei quele corte em particular. Possua
um rosto inteligente e sensvel, com olhos cinzentos-claros de uma intensidade peculiar e perscrutadora. Trazia um vestido de l vermelho-escuro que realava a sua
elegncia.

Apercebi-me logo de que era uma mulher bastante inquietante... creio que por me ter parecido que ela vivia segundo uns padres que no seriam os de uma mulher vulgar.
Compreendi logo por que razo a Sophia usara a palavra crueldade em relao a ela. A sala era fria e tremi um pouco.

Clemency Leonides disse numa voz calma e corts:

- Sente-se, por favor, inspector-chefe. J tem mais alguma informao?

- A morte foi provocada por eserina, Mrs. Leonides.

- Ento tratou-se de assassnio - observou ela, pensativamente. No poderia ter havido um acidente qualquer, ou poderia?

- No, Mrs. Leonides.

- Por favor, seja gentil com o meu marido, inspector-chefe. Isto vai afect-lo muito. Ele adorava o pai e sente tudo com muita intensidade.  uma pessoa emotiva.

- Dava-se bem com o seu sogro, Mrs. Leonides?

- Sim, bastante bem. - Em voz baixa, acrescentou: - No gostava muito dele.

- E por que motivo?

- Discordava dos seus objectivos na vida... e dos mtodos que usava para os atingir.

- E Mrs. Brenda Leonides?

- A Brenda? Raramente a via.

- Considera possvel que houvesse algo entre ela e Mr. Laurence Brown?

- Refere-se... a uma relao amorosa? No creio. Mas tambm no saberia nada a esse respeito.

A sua voz evidenciava o mais completo desinteresse. Roger Leonides regressou num alvoroo, trazendo de volta o efeito de zango.

- Fiquei retido - informou. - Telefone. Bem, inspector, ento? H novidades? O que provocou a morte do meu pai?

50
- A morte deveu-se a envenenamento por eserina.

- Sim? Meu Deus! Nesse caso, foi aquela mulher! No podia esperar! Ele tirou-a praticamente da sarjeta e foi esta a paga. Assassinou-o a sangue-frio! Meu Deus, s
de pensar fico com o sangue a ferver.

- H alguma razo em particular que o leve a pensar isso? - inquiriu Taverner.

Roger caminhava de um lado para o outro, arrepelando os cabelos com ambas as mos.

- Razo? Ora, quem mais poderia ser? Nunca confiei nela... nunca gostei dela! Nenhum de ns gostava dela. O Philip e eu ficmos muito chocados quando o pai chegou
um dia a casa e nos disse o que fizera! Com aquela idade! Foi uma loucura... uma loucura. O meu pai era um homem extraordinrio, inspector. Intelectualmente, possua
a juventude e o vigor de um homem de quarenta. Tudo o que tenho no mundo a ele o devo... ele nunca me faltou. Quando penso nisso... vejo que fui eu que falhei em
relao a ele.

Deixou-se cair pesadamente numa cadeira. A mulher abeirou-se dele serenamente.

- Ento, Roger, j chega. No te martirizes.

- Eu sei, querida... eu sei - pegou-lhe na mo. - Mas como posso manter a calma... como posso deixar de sentir...

- Mas devemos todos manter a calma, Roger. O inspector-chefe Taverner precisa da nossa colaborao.

-  verdade, Mrs. Leonides.

- Sabe o que me apetecia fazer? - gritou Roger. - Estrangular aquela mulher com as minhas prprias mos. Privar aquele velhinho de mais alguns anos de vida! Se eu
a apanhasse aqui... - Levantou-se de um pulo. Tremia de raiva. Estendeu as mos, convulsivamente. - Sim, torcia-lhe o pescoo, torcia-lhe o pescoo...

- Roger! - interveio Clemency com rispidez. Ele fitou-a, confuso.

- Desculpa, minha querida. - Virou-se para ns. - Peo desculpa. Deixei-me levar pelos sentimentos. Queiram... perdoar-me...

Saiu novamente da sala.

- No fundo, sabem, ele seria incapaz de fazer mal a uma mosca - comentou Clemency Leonides com um sorriso muito fraco.

51
Taverner aceitou esta observao com cortesia.

Depois passou s chamadas perguntas de rotina.

Clemency Leonides respondeu concisa e rigorosamente.

Roger Leonides estivera em Londres no dia da morte do pai, em Box House, a sede da Associated Catering. Regressara ao princpio da tarde e passara algum tempo com
o pai, como era seu hbito. Ela prpria estivera, como de costume, no Instituto Lambert, em Gower Street, onde trabalhava. Regressara a casa pouco antes das seis.

- Viu o seu sogro?

- No. A ltima vez que o vi foi na vspera. Tommos caf com ele aps o jantar.

- Mas no o viu no dia em que morreu?

- No. Na realidade, fui at  parte da casa dele porque o Roger pensou que deixara l ficar o cachimbo... um cachimbo muito valioso, mas por sinal deixara-o em
cima da mesa do trio, e por isso no precisei de incomodar o velhote. Ele costumava fazer uma sesta por volta das seis.

- Quando  que teve conhecimento da indisposio dele?

- A Brenda apareceu esbaforida. Pouco passava das seis e meia.

Eu sabia que estas perguntas eram irrelevantes, mas apercebia-me da perspiccia com que o inspector Taverner procurava sondar a mulher que lhes dava resposta. Fez-lhe
algumas perguntas sobre a natureza do seu trabalho em Londres. Ela respondeu que se prendia com os efeitos da radiao na desintegrao atmica.

- Trabalha na bomba atmica, no  assim?

- O trabalho em si nada tem de destrutivo. O Instituto est a levar a cabo experincias sobre os efeitos teraputicos.

Quando Taverner se ps em p, exprimiu o desejo de conhecer aquela parte da casa. Ela pareceu um pouco surpreendida, mas predisps-se desde logo a mostrar-lha. O
quarto com duas camas gmeas e colchas brancas e a simplicidade do toucador lembrou-me de novo um hospital ou uma cela monstica. A casa de banho era tambm de uma
simplicidade austera, sem quaisquer acessrios de luxo especiais nem profuso de cosmticos. A cozinha era singela, estava impecavelmente limpa e bem equipada com
aparelhos de natureza prtica destinados a poupar trabalho. Depois chegmos a

52
uma porta que Clemency abriu. - Este  o cantinho especial do meu marido - disse.

- Entrem, entrem - convidou Roger.

Respirei ligeiramente de alvio. Havia algo na austeridade imaculada do resto da casa que me deprimia. Esta sala era intensamente pessoal. Havia uma secretria grande
coberta de papis desordenados, cachimbos velhos e cinza de tabaco. Havia poltronas grandes e muito usadas. O cho estava coberto por carpetes persas. Penduradas
nas paredes viam-se fotografias de grupos, um pouco esbatidas. Grupos do colgio, grupos de crquete, grupos militares. Aguarelas com esboos de desertos e minaretes
e de barcos  vela e motivos martimos e sis-postos. De certa forma, era uma sala agradvel, a sala de um homem adorvel, simptico e socivel.

Desajeitadamente, Roger servia bebidas de um licoreiro, afastando livros e papis de uma das cadeiras.

- Isto est uma confuso. Andava a fazer arrumaes. A deitar fora papis velhos. Quando chegar, diga. - O inspector declinou a bebida. Eu aceitei. - Desculpar-me-o
o que se passou h pouco - prosseguiu Roger. Trouxe-me o copo com a bebida, virando a cabea para falar com Taverner nesse entretanto. - Deixei-me levar pelos sentimentos.

Olhou  sua volta com ar quase culpado, mas Clemency Leonides no nos acompanhara at  sala.

- Ela  to maravilhosa - disse ele. - Isto , a minha mulher. Nesta fase difcil tem sido esplndida... esplndida! Nem imaginam como admiro aquela mulher. E passou
momentos to difceis... momentos horrveis. Gostaria de vos falar sobre isso. Isto , antes de nos casarmos. O primeiro marido dela era um sujeito excelente...
mesmo excelente, mas muito delicado... na verdade, tuberculoso. Estava a proceder a uma pesquisa muito importante sobre cristalografia, creio. Mal paga e muito cansativa,
mas ele no quis desistir. Ela foi sua escrava, praticamente sustentou-o, sabendo o tempo todo que ele estava a morrer. E nunca se queixou... nunca daquela boca
saiu um murmrio de tristeza. Disse sempre que era feliz. Depois ele morreu, e ela ficou muito transtornada. Finalmente acedeu a casar comigo. Fiquei to contente
por poder dar-lhe algum descanso, alguma felicidade; tentei convenc-la a deixar de trabalhar, mas claro que ela se sentia na obrigao, por estarmos em guerra,

53
e ainda parece sentir que tem de continuar Mas tem sido uma mulher maravilhosa... a mulher mais maravilhosa que um homem alguma vez teve Meu Deus, como tive sorte!
Faria tudo por ela.

Taverner fez um comentrio apropriado. Depois enveredou uma vez mais pelas habituais perguntas de rotina. Quando soubera pela primeira vez, que o pai se sentira
mal?

- A Brenda correra a chamar-me. O meu pai no estava a passar bem., disse que ele tivera uma espcie de convulso.

"Eu tinha estado sentado ao p do velhote cerca de meia hora antes. Nessa altura estava perfeitamente bem. Corri para l. Tinha o rosto violceo e respirava com
dificuldade. Desci a chamar o Philip. Ele telefonou ao mdico. Eu... ns no podamos fazer nada. Claro que nem por um instante imaginei que fosse resultar numa
brincadeira destas. Brincadeira? Eu disse brincadeira! Meu Deus, que palavra fui usar.

Com alguma dificuldade, Taverner e eu conseguimos libertar-nos da atmosfera emocional do escritrio de Roger Leonides e encontrmo-nos do lado de fora da porta,
mais uma vez ao cimo das escadas.

- Ufa! - exclamou Taverner. - Que contraste com o outro irmo. As salas so algo muito curioso. - Acrescentou de forma bastante inconsequente. - Dizem-nos muito
sobre as pessoas que as ocupam.

Concordei e ele prosseguiu:

- Curiosa tambm a maneira como as pessoas escolhem com quem se vo casar, no ?

No percebi muito bem se estava a referir-se a Clemency e Roger ou a Philip e Magda. As suas palavras tanto se aplicavam a uns como aos outros. No entanto, parecia-me
que ambos os casamentos poderiam ser classificados de felizes. O de Roger e Clemency era-o, sem dvida.

- No o consideraria um envenenador, pois no? - inquiriu Taverner.
- No  primeira vista, isso no. Claro que nunca se sabe. Agora, ela faz mais o gnero. Uma mulher sem remorsos. Talvez tenha um pouco de louca.

Tornei a concordar. - Mas no est a pensar - disse eu - que ela fosse capaz de assassinar algum s porque discordava dos seus objectivos e do seu modo de vida.
Talvez, se ela odiasse realmente o velho... mas algum comete um crime apenas por simples dio?

54
- Contam-se pelos dedos da mo - respondeu Taverner. - Pessoalnente, nunca se me deparou nenhum. No, acho que correremos muito menos riscos se nos cingirmos a Mrs.
Brenda. Mas s Deus sabe se alguma vez conseguiremos uma prova qualquer.

55

CAPTULO OITO

Uma criada de sala abriu-nos a porta da ala oposta. Parecia assustada, mas mostrou-se ligeiramente desdenhosa quando viu Taverner.

- Quer ver a senhora?

- Sim, por favor.

Acompanhou-nos a uma sala de estar grande e saiu.

As suas dimenses eram as mesmas da sala de estar no rs-do-cho. Tinha cretones coloridos, muito vistosos, e cortinados de seda listados. Por cima da lareira estava
um retrato a leo que me prendeu o olhar - no s por causa da mo de mestre que o pintara, mas tambm devido ao impressionante rosto do sujeito.

Era o retrato de um velhinho com olhos escuros e penetrantes. Usava na cabea um barrete justo de veludo preto e a cabea afundava-se-lhe nos ombros, mas a vitalidade
e a fora do homem irradiavam da tela. Os olhos cintilantes pareciam prender os meus.

- Eis ele - anunciou o inspector-chefe Taverner, atropelando a gramtica. - Pintado por Augustus John. Tem personalidade, no tem?

- Sim - respondi, e achei inapropriado o monosslabo. Compreendia agora o sentido das palavras de Edith de Haviland ao dizer

que a casa parecia muito vazia sem ele. Estava perante o Homenzinho Torto Original que construra a Casinha Torta - e sem ele a Casinha Torta perdera todo o seu
significado.

- Aquela ali  a primeira mulher dele, pintada por Sargent - disse, Taverner.

Examinei o quadro na parede entre as janelas. Continha uma certa crueldade,  semelhana de muitos dos quadros de Sargent. O comprimento da cara era exagerado, pensei,
com uma ligeira sugesto equdea, mas a qualidade

56
incontestvel. Era um retrato de uma Lady tipicamente inglesa da Fidalguia Rural (no da Alta Sociedade). Bem-parecida, mas um pouco sem vida. Uma esposa nada adequada
para o despotazinho poderoso que sorria por cima da lareira.

A porta abriu-se e o sargento Lamb entrou.

- Fiz o que pude junto da criadagem, sir - anunciou. - No apurei nada.

Taverner suspirou.

O sargento Lamb sacou do seu livro de apontamentos e retirou-se para um extremo da sala, onde se sentou discretamente.

A porta abriu-se de novo e a segunda mulher de Aristide Leonides entrou na sala.

Vinha de luto - um luto muito dispendioso e muito pesado. Envolvia-a do pescoo at aos pulsos. Movia-se com facilidade e indolncia, e sem dvida o preto ficava-lhe
bem. O seu rosto era razoavelmente bonito, e o seu cabelo castanho estava arranjado num penteado um pouco elaborado de mais. Tinha o rosto bem empoado e pusera batom
e muge, mas via-se que estivera a chorar. Usava uma fiada de prolas muito grossas e um grande anel de esmeralda numa mo e um enorme rubi na outra.

Apercebi-me de algo mais nela. Parecia assustada.

- Bom dia, Mrs. Leonides - saudou Taverner com naturalidade. - Lamento ter de voltar a incomod-la.

- Acho que  inevitvel - respondeu ela com voz apagada.

- Compreende, no  verdade, Mrs. Leonides, que, se desejar, tem todo
o direito  presena do seu advogado?

Perguntei a mim prprio se ela entenderia realmente o significado daquelas palavras. Ao que parecia, no.

- No gosto de Mr. Gaitskill. - limitou-se a comentar com enfado. No o quero.

- Podia ter o seu prprio advogado, Mrs. Leonides.

-  necessrio? No gosto de advogados. Confundem-me.

- S a si cabe decidir - disse Taverner, sorrindo automaticamente. Podemos ento prosseguir?

57
O sargento Lamb molhou a ponta do lpis. Brenda Leonides sentou-se num sof, em frente de Taverner.

- J descobriu alguma coisa? - perguntou.
 Reparei que os dedos dela torciam e destorciam nervosamente uma prega da gaze do vestido.

- Podemos afirmar agora com certeza que o seu marido morreu envenenado com eserina.

- Quer dizer que foram aquelas gotas que o mataram?

- Parece quase certo que quando deu aquela ltima injeco a Mr. Leonides, foi eserina que lhe injectou, e no insulina.

- Mas eu no o sabia. No tive nada a ver com isso. A srio que no, inspector.

- Ento algum deve ter substitudo deliberadamente a insulina pelas gotas.

- Mas que malvadeza!

- Sim, Mrs. Leonides.

- Acha... que algum o fez de propsito? Ou por engano? No poderia ter sido uma... uma brincadeira, ou poderia?

- No cremos que se tratasse de uma brincadeira, Mrs. Leonides - disse Taverner com impassividade.

- Deve ter sido um dos criados. Taverner no respondeu.

- S pode. No vejo quem mais pudesse ter sido.

- Tem a certeza? Pense bem, Mrs. Leonides. No faz a menor ideia? No ter havido alguma m vontade? Alguma discusso? Algum ressentimento?

Ela continuava a fit-lo com um forte olhar provocador.

- No fao a menor ideia - disse.

- Referiu que naquela tarde fora ao cinema?

- Sim, cheguei a casa s seis e meia; estava na hora da insulina... eu., eu... dei-lhe a injeco como sempre fao e depois ele... ele ficou muito esquisito. Entrei
em pnico, fui a correr procurar Roger... j antes lhe tinha contado isto tudo. Quantas vezes vou ter de o repetir? - A sua voz tornou-se histrica.

- Lamento. Mrs. Leonides. Posso falar agora com Mr. Brown?

58
- Com o Laurence? Porqu? Ele nada sabe sobre o assunto.

- Mesmo assim, gostaria de falar com ele.

Ela fitou-o com desconfiana.
 - O Eustace est a ter uma aula de Latim com ele na sala de estudo. Quer que ele venha at aqui?
 - No... ns iremos ter com ele.
 Taverner saiu rapidamente da sala. O sargento e eu seguimo-la.
- O senhor alarmou-a - comentou o sargento Lamb.

Taverner soltou um resmungo. Tomou a dianteira por um curto lano de escadas e atravessou um corredor at a uma sala grande com vista para o jardim. Ali, um homem
de cabelo louro dos seus trinta anos e um rapaz bonito e moreno de dezasseis estavam sentados a uma mesa.

Levantaram as cabeas quando entrmos. O irmo da Sophia, o Eustace, olhou-me; Laurence Brown fitava, aterrorizado, o inspector-chefe Taverner.

Nunca antes vira um homem to paralisado pelo medo. Ps-se em p, depois sentou-se novamente. Falou numa voz que era quase de falsete:

- Oh... hum... bom dia, inspector.

- Bom dia. - Taverner foi seco. - Posso falar consigo?

- Sim, com certeza. Tenho imenso prazer. Pelo menos... O Eustace levantou-se.

- Quer que saia, inspector-chefe? - Apesar de agradvel, a sua voz tinha um leve tom arrogante.

- Ns... ns continuaremos os nossos estudos mais tarde - respondeu o professor.

O Eustace encaminhou-se negligentemente para a porta. Seguia num passo bastante rgido. No momento em que transpunha a porta, e o seu olhar se cruzou com o meu,
passou o indicador pela garganta e esboou um sorriso. Depois fechou a porta atrs de si.

- Muito bem, Mr. Brown - comeou Taverner. - A anlise  muito conclusiva. A morte de Mr. Leonides foi provocada por eserina.

- Eu... o senhor quer dizer... que Mr. Leonides foi realmente envenenado? Eu tinha esperanas...

- Foi envenenado - limitou-se Taverner a dizer. - Algum substituiu a insulina pelas gotas de eserina.

59
- No posso acreditar...  incrvel.

- A pergunta , quem tinha um motivo?

- Ningum. Ningum mesmo! - A voz do jovem subiu de tom, agitada.

- No gostaria, talvez, da presena do seu advogado? - indagou Taverner.

- No tenho advogado. No quero um. No tenho nada a esconder, nada...

- E est ciente de que tudo o que disser ser anotado?

- Estou inocente... assevero-lhe que estou inocente.

- Nem eu sugeri outra coisa. - Taverner fez uma pausa. - Mrs. Leoni des era consideravelmente mais jovem do que o marido, no era?

- Acho... acho que sim... isto , bem, sim.

- Deve ter-se sentido demasiado sozinha, s vezes, no? Laurence Brown no respondeu. Passou a lngua pelos lbios secos.

- E deve ter sido agradvel para ela dispor de um companheiro mais ou menos da sua idade a viver aqui.

- Eu... no, de maneira nenhuma... quero dizer... no sei.

- Parece-me perfeitamente natural que tivesse nascido uma ligao entre os dois.

O jovem protestou com veemncia.

- No! No! Nada disso! Sei o que est a pensar, mas no foi assim! Mrs. Leonides era sempre muito amvel comigo e eu tive o maior... o maior respeito por ela...
mas nada mais... nada mais, garanto-lhe.  monstruoso sugerir algo dessa natureza! Monstruoso! Eu no mataria ningum... nem trocaria frascos... nem nada do gnero.
Sou muito sensvel e muito nervoso. Eu... a prpria ideia de matar  um pesadelo para mim... eles compreenderam isso perfeitamente no tribunal... tenho objeces
religiosas a matar. Trabalhei antes num hospital a alimentar fornalhas... um trabalho muito pesado, no pude continuar... mas deixaram-me aceitar um trabalho educativo.
Dei o meu melhor aqui, com o Eustace e a Josephine... uma criana muito inteligente, mas difcil. E todos tm sido muito amveis comigo... Mr. Leonides e Mrs. Leonides
e Miss de Haviland. E agora acontece esta coisa horrvel... E o senhor suspeita que eu... eu... matei!

60
O inspector Taverner olhou-o lentamente com um interesse perscrutador.

- Eu no disse isso - observou.

- Mas  o que pensa! Eu sei que pensa assim! Todos pensam assim! Eles olham para mim. Eu... eu no posso continuar a conversar consigo. No estou bem.

Saiu apressadamente da sala. Taverner virou lentamente a cabea para me olhar.

- Ento, o que pensa dele?

- Est morto de medo.

- Sim, bem sei, mas  um assassino?

- Se quer saber a minha opinio - interveio o sargento Lamb -, ele nunca teria tido coragem.

- No digo que fosse agredir algum na cabea, ou dar um tiro concordou o inspector-chefe. - Mas neste crime em particular o que h a fazer? Apenas trocar dois frascos...
Apenas ajudar um homem muito velho a deixar este mundo de uma forma comparativamente indolor.

- Praticamente eutansia - concluiu o sargento.

- E depois, talvez aps um intervalo decente, o casamento com uma mulher que herda cem mil libras livres de impostos, que dispe j de uma quantia sensivelmente
do mesmo valor e alm disso tem prolas e rubis e esmeraldas do tamanho de ovos de no-sei-qu!

 - Ah, bom - Taverner suspirou. - Isso no passa de teoria e conjectura!  certo que consegui assust-lo, mas isso no prova nada. Pode estar apavorado, mesmo sendo
inocente. E, de qualquer forma, duvido que ele fosse realmente o autor. O mais provvel  ter sido a mulher... mas, nesse caso, por que no se desfez do frasco de
insulina, ou o lavou? - Dirigiu-se ao Sargento: - No obteve informaes junto dos criados sobre quaisquer acontecimentos?

- A criada de sala diz que eram amveis um com o outro.
 - De que forma?

- A maneira como ele a olha quando lhe serve o caf.

Isso no teria qualquer utilidade em tribunal! De certeza que no h mais nada?

61
- No que algum tenha visto.

- Aposto que teriam visto, se houvesse algo que ver. Sabe, comeo a acreditar que no h realmente nada entre eles. - Olhou-me. - V falar com ela. Gostaria de saber
a impresso que tem dela.

Meio relutante, l fui; no entanto, estava interessado.

62
CAPTULO NOVE

Encontrei Brenda Leonides sentada exactamente onde a deixara. Deitou-me um olhar penetrante quando entrei.

- Onde est o inspector Taverner? Vai voltar?

- Por agora, no.

- Quem  o senhor?

Finalmente, tinha-me sido feita a pergunta por que esperara toda a manh.

Respondi-lhe com relativa sinceridade.

- Estou ligado  polcia, mas sou tambm um amigo da famlia.

- A famlia! Uns animais! Odeio-os a todos. Olhou-me. Parecia taciturna, assustada e furiosa.

- Trataram-me sempre mal... sempre. Desde o princpio. Por que no podia casar com o seu rico pai? Que lhes interessava isso a eles? Tinham todos montes de dinheiro.
Foi ele que lhes deu. No teriam tido inteligncia para o ganharem pessoalmente!

Prosseguiu:

- Por que no pode um homem voltar a casar... mesmo que seja um pouco velho? E ele no era nada velho... no por dentro. Eu gostava muito dele. Eu gostava dele.
- Fitou-me em ar de desafio.

- Compreendo - disse-lhe. - Compreendo.

- Calculo que no acredite... mas  verdade. Estava farta dos homens. Queria ter um lar... queria algum que se preocupasse comigo e me dissesse coisas bonitas.
O Aristide dizia-me coisas doces... e conseguia fazer-me rir... e era inteligente. Arranjava sempre maneiras habilidosas de contornar todos aqueles regulamentos
absurdos. Era muito, muito inteligente. No estou satisfeita com a sua morte, pelo contrrio, estou triste.

63
Recostou-se no sof. Tinha a boca bastante grande; frisava dos lados num estranho sorriso indolente.

- Tenho sido feliz aqui. Sentia-me segura. Frequentava todos aqueles costureiros chiques... os que conhecia das revistas. Eu era to boa como qualquer outra. E o
Aristide oferecia-me coisas belas. - Estendeu uma mo, olhando para o rubi.

Por um momento apenas, vi a mo e o brao como a garra estendida de um gato, e a sua voz soou-me como um ronronar. Continuava a sorrir de si para si.

- Que mal tem isso? - perguntou. - Eu era boa para ele. Fazia-o feliz.
- Inclinou-se para a frente. - Sabe como o conheci?

Sem esperar pela resposta, prosseguiu:

- Foi no Cay Shamrock. Ele pedira ovos mexidos numa torrada e quando eu lhos levei, ia a chorar. "Sente-se aqui", disse ele, "e conte-me o que se passa". "Oh, no
posso", respondi-lhe. "Seria despedida se fizesse semelhante coisa." "No seria, no", respondeu ele, "sou o dono disto". Ento olhei para ele. Era um homenzinho
to esquisito, pensei de incio... mas tinha uma espcie de poder. Contei-lhe tudo. Calculo que j saiba o resto por eles, dando a entender que no presto, mas 
mentira. Fui educada com muito cuidado. Tnhamos uma loja... uma loja de categoria... bordados artsticos. Nunca fui o tipo de rapariga que tem um monte de namorados
ou que se faz fcil. Mas o Terry era diferente. Era Irlands... e ia para o ultramar... Nunca escreveu nem nada... como fui tola! Foi o que aconteceu, sabe. Arranjei
um sarilho... como acontece s criadas...

No seu snobismo, a voz dela era de desdm.

- Mas o Aristide foi maravilhoso. Disse que tudo se resolveria. Disse que se sentia muito s. Casaramos logo, disse ele. Foi como um sonho. E depois fiquei a saber
que ele era o grande Mr. Leonides. Possua montes de lojas e restaurantes e clubes nocturnos. Parecia um conto de fadas, no parecia?

- Um certo tipo de conto de fadas.

- Casmos numa pequena capela na City... e depois fomos para o estrangeiro.

Fitou-me com um olhar distante.

- Afinal no houve criana nenhuma. Foi tudo um erro. Sorriu, o sorriso de esguelha, torto.

64
- Jurei a mim mesma que seria uma excelente esposa para ele, e fui. Mandava fazer todo o tipo de comida que ele preferia, e usava as cores de que ele gostava e fiz
todos os possveis para lhe agradar. E ele era feliz. Mas nunca nos livrmos daquela famlia dele. Sempre de roda dele e a sugar-lhe as algibeiras. A velha Miss
de Haviland... acho que devia ter ido embora quando ele se casou. Disse-lho. Mas o Aristide respondeu: "Ela j c est h tanto tempo! Agora  a sua casa". A verdade
 que ele gostava de os ter todos  volta e aos ps. Eram desagradveis comigo, mas ele parecia nunca se aperceber ou importar muito com isso. O Roger detesta-me...
j conhece o Roger? Sempre me detestou. Tem cimes. E o Philip, sempre to empertigado que nem me fala. E agora esto a tentar insinuar que eu o assassinei... e
no fui eu... no fui eu! - Inclinou-se para mim. - Por favor, acredite, no fui eu!

Achei-a muito pattica. A maneira desdenhosa com que a famlia Leonides falara dela, a prontido em acreditar que fora ela a autora do crime agora, neste momento,
tudo se afigurava um comportamento profundamente desumano. Estava sozinha, indefesa, acossada.

- E se no fui eu, pensam que foi o Laurence - prosseguiu.

- O que tem Laurence? - inquiri.

- Tenho imensa pena do Laurence.  frgil e no pde ir  guerra. No foi por ser cobarde.  porque  sensvel. Procurei anim-lo e faz-lo sentir-se feliz. Tem
de ensinar aquelas crianas horrveis. O Eustace est sempre a troar dele, e a Josephine... bem, j viu a Josephine. Sabe como ela .

Disse-lhe que ainda no conhecera a Josephine. -- s vezes penso que aquela criana no  boa da cabea. Tem uns modos furtivos horrveis, e um aspecto estranho...
s vezes at me d arrepios. No queria falar de Josephine. Voltei a Laurence Brown.

- Quem  ele? - perguntei. - De onde vem?

Formulara a pergunta de uma forma um pouco grosseira. Ela corou.

- No  ningum em particular.  como eu... Que hipteses temos contra eles todos?

- No acha que est a ser um pouco exagerada?

- No, no acho. Eles gostam de insinuar que foi o Laurence... ou ento eles tm aquele polcia do lado deles. Que hipteses me restam?
 - No deve martirizar-se - aconselhei-a.

65
- Por que no poderia ter sido um deles a mat-lo? Ou algum de fora?

Ou um dos criados?

- Existe uma certa falta de motivo.

- Oh, motivo. Que motivo tinha eu? Ou o Laurence? Senti-me bastante constrangido quando disse:

- Eles podem pensar, suponho, que a senhora e... hum... o Laurence... esto apaixonados um pelo outro... que queriam casar.

Empertigou-se.

- Que sugesto to cruel! E no  verdade! Nunca entre ns se trocaram palavras nesse sentido. S tive pena dele e tentei anim-lo. Somos amigos,  tudo. Acredita
em mim, no acredita?

Eu acreditava nela. Ou seja, acreditava que ela e Laurence eram, conforme me asseverara, apenas amigos. Mas acreditava tambm que, possivelmente sem que ela mesma
o soubesse, estava realmente apaixonada pelo jovem.

E foi com essa ideia em mente que desci as escadas em busca da Sophia, Quando me preparava para entrar na sala de estar, a Sophia espreitou por uma porta ao fundo
do corredor.

- Ol - disse ela. - Estou a ajudar a Nannie com o almoo. Ter-me-ia reunido a ela, mas saiu para o corredor, fechou a porta atrs de si e, dando-me o brao, conduziu-me
at  sala de estar, que se encontrava vazia.

- Ento - perguntou -, sempre falaste com a Brenda? Que impresso tens dela?

- Sinceramente - respondi -, senti pena dela.
 A Sophia pareceu divertida.

- Compreendo - referiu. - Estou a ver que ela te apanhou. Senti-me ligeiramente irritado.

- A questo  - referi - que consigo entender a perspectiva dela. Aparentemente, tu no consegues.

- A perspectiva dela do qu?

- Sinceramente, Sophia, algum membro da famlia foi gentil com ela, o" sequer minimamente decente com ela, desde que para c veio?

- No, no fomos gentis com ela. Por que haveramos de o ser?

- Quanto mais no seja, por simples bondade crist.

66
- Tanto moralismo nas tuas palavras, Charles. A Brenda deve ter representado muito bem.

- Sinceramente, Sophia, pareces... no sei o que te deu.

- S estou a ser honesta e franca. Dizes que consegues entender a verso da Brenda. Agora ouve a minha. Desagradam-me as rapariguinhas que inventam uma histria
comovente e se casam com um velho muito rico com base nela. Estou no perfeito direito de no gostar desse tipo de pessoa, e nada me obriga a fingir o contrrio.
E se visses as coisas a frio, tu tambm no irias gostar dessa menina.

- Foi uma histria preparada? - indaguei.

- Sobre o beb? No sei. Pessoalmente, acho que sim.

- E ficaste melindrada por o teu av se ter deixado enganar por ela?

- Oh, o av no se deixou enganar. - A Sophia deu uma gargalhada. O av nunca se deixava enganar por ningum. Ele queria a Brenda. Queria desempenhar o papel de
Cophetua perante a sua criada-mendiga. Ele sabia exactamente o que estava a fazer e resultou maravilhosamente de acordo com o plano. Do ponto de vista do av, o
casamento foi um sucesso absoluto... como todas as suas outras aces.

- E contratar Laurence Brown como professor particular tambm foi outro dos sucessos do teu av? - perguntei, com ironia.

A Sophia franziu o sobrolho.

- Se queres saber, no sei se no ter sido. Ele queria que a Brenda se sentisse feliz e se divertisse.  capaz de ter pensado que as jias e as roupas no bastavam.
Pode ter achado que ela queria um ligeiro romance na sua vida. Pode ter calculado que algum como o Laurence Brown, algum realmente inspido, se percebes aonde
quero chegar, dava mesmo para isso.- Uma bela amizade nobre impregnada de melancolia que impedisse a Brenda de uma verdadeira relao amorosa com algum de fora.
No rejeitaria a hiptese de o av ter preparado algo nesses moldes. Ele era um velho diabo, sabes.

- E muito capaz - observei.

- Claro que ele no podia ter visto que redundaria em crime... E  por isso - disse a Sophia falando com toda a veemncia - que, por mais que queira, no acredito
que fosse ela a autora. Se tivesse planeado assassin-lo ou se ela e o Laurence o houvessem planeado juntos), o av teria sabido. Penso que isto te parecer um pouco
rebuscado...

67
- Devo confessar que sim - respondi.

- Mas tambm no conheceste o av. Ele nunca seria conivente com o seu prprio assassnio! Portanto, a tens! S encontras dificuldades pela frente.

- Ela est assustada, Sophia - disse. - Ela est muito assustada.

- Por causa do inspector-chefe Taverner e companhia? Sim, devo dizer que so bastante assustadores. Calculo que o Laurence esteja histrico, no?

- Praticamente. A meu ver, deu uma imagem deplorvel de si mesmo. No entendo o que uma mulher pode ver num homem como aquele.

- No mesmo, Charles? Na realidade, o Laurence  imensamente atraente.

- Um fracote como aquele - disse com incredulidade.

- Por que ser que os homens acham sempre que um homem das cavernas tem forosamente de ser o nico tipo de pessoa capaz de atrair o sexo oposto? O Laurence  atraente,
sim... mas no estava  espera de que te apercebesses disso. - Fitou-me. - A Brenda fisgou-te bem, no haja dvida.

- No sejas ridcula. Ela nem sequer  bem-parecida. E certamente no...

- Tentou seduzir-te? No, apenas te fez sentir pena dela. Ela no  realmente bela, e nem sequer um pouco inteligente... mas possui uma caracterstica marcante.
Pode causar problemas. E isso j sucedeu, entre ti e mim.

- Sophia! - exclamei, horrorizado. A Sophia dirigiu-se para a porta.

- Esquece, Charles. Tenho de ir tratar do almoo.

- Eu dou uma ajuda.

- No, deixa-te estar. A Nannie ficar atrapalhada se tiver "um cavalheiro na cozinha".

- Sophia - chamei quando ela ia a sair.

- Sim, o que ?

- Apenas um problema domstico. Por que no existem quaisquer criados aqui, e l em cima nos abriu a porta uma figura de avental e coifa?

- O av tinha uma cozinheira, uma criada interna, uma criada de sala e um criado de quarto. Ele gostava de ter criados. Pagava uma fortuna, claro. Ele tinha-os.
A Clemency e o Roger tm apenas uma mulher a dias que vem fazer as limpezas. No gostam de criados... ou melhor, a Clemency  que no gosta.

68
Se o Roger no fizesse uma boa refeio todos os dias na City, morreria defome. Para a Clemency, a ideia de uma refeio  alface, tomates e cenoura crua. s vezes
temos criados, e depois a me tem um dos seus acessos temperamentais e eles vo-se embora, e por uns tempos temos empregadas a dias e depois volta tudo  normalidade.
Presentemente estamos no perodo das empregadas a dias. A Nannie est com carcter permanente e d conta das emergncias. Agora j sabes.

A Sophia saiu. Deixei-me cair num dos cadeires de brocado e dediquei-me  especulao.

L em cima, ouvira a verso de Brenda. Acabara de escutar a da Sophia. Compreendi perfeitamente a justia do ponto de vista da Sophia - o que se poderia designar
o ponto de vista da famlia Leonides. No viam com bons olhos a presena de uma estranha e que obtivera o acesso aos seus domnios pelo que consideravam serem meios
ignbeis. Estavam no seu perfeito direito. Como dissera a Sophia: visto a frio...

Mas havia o lado humano da questo - o lado que eu via e eles no. Eles eram, toda a vida tinham sido, ricos e bem instalados na vida. No faziam ideia das tentaes
dos desfavorecidos. Brenda Leonides quisera riqueza, e coisas bonitas e segurana - e um lar. Reivindicara-o, e em troca fizera o seu marido idoso feliz. Sentia
pena dela. Certamente, enquanto conversara com ela, sentira pena dela... Ainda sentiria agora a mesma pena?

Dois lados da questo - ngulos de viso diferentes - qual era o ngulo certo... o ngulo certo...

Dormira muito pouco na noite anterior. Levantara-me cedo para acompanhar Taverner. Agora, na atmosfera acolhedora e fragrante da sala de estar de Magda Leonides,
o meu corpo relaxou no abrao almofadado do cadeiro e as plpebras cerraram-se...

Reflectindo sobre Brenda, sobre a Sophia, sobre um retrato de um velho, os meus pensamentos deslizaram para um agradvel torpor

Adormeci...

69

CAPTULO DEZ

Recuperei a conscincia to gradualmente que a princpio no me apercebi de que adormecera.

O cheiro das flores entranhara-se no meu nariz. Diante de mim uma mancha branca redonda parecia flutuar no espao. S passados alguns segundos me apercebi de que
olhava para um rosto humano - um rosto suspenso no ar a cerca de trinta ou sessenta centmetros de mim.  medida que as minhas faculdades regressaram, a minha viso
tornou-se mais precisa. O rosto no perdera a sua sugesto demonaca - era redondo, com a testa saliente, cabelo penteado para trs e olhos negros pequenos, brilhantes
como contas. Mas estava manifestamente preso a um corpo - um corpo pequeno e franzino. Olhava-me com muito interesse.

- Ol - disse ele.

- Ol - respondi, piscando os olhos.

- Souajosephine.

J o deduzira. A irm da Sophia, a Josephine, teria, pelos meus clculos, cerca de onze ou doze anos. Era uma criana fantasticamente feia, com uma semelhana muito
ntida com o av. Afigurava-se-me possvel que possusse tambm a inteligncia dele.

-  o namorado da Sophia - afirmou a Josephine. Admiti a correco deste comentrio.

- Mas veio com o inspector-chefe Taverner. Por que veio com o inspector-chefe Taverner?

-  meu amigo.

-  mesmo? No gosto dele. No lhe contarei nenhumas coisas.

- Que tipo de coisas?

- As coisas que sei. Sei imensas coisas. Gosto de saber coisas.

70
Sentou-se no brao do cadeiro e continuou a observar minuciosamente o meu rosto. Comecei a sentir-me muito pouco  vontade.
 - O av foi assassinado. Sabia?
 -Sim - disse-lhe. - Sabia.
 - Foi envenenado. Com e-se-ri-na. - Pronunciou a palavra com muito cuidado. -  interessante, no ?

 - Suponho que sim.

- O Eustace e eu estamos muito interessados. Gostamos de histrias de detectives. Eu sempre quis ser detective. Agora estou a s-lo. Estou a reunir pistas.

Era, efectivamente, uma criana bastante macabra.

Voltou  carga. '-

- O homem que veio com o inspector-chefe Taverner tambm  detective, no ? Vem nos livros que se podem distinguir sempre os detectives  paisana pelas botas. Mas
este detective calava sapatos de camura.

- Outros tempos, outros costumes - respondi-lhe.

A Josephine interpretou esta observao de acordo com as suas prprias ideias.

- Sim - disse ela -, espero que agora v haver imensas mudanas. Iremos morar numa casa em Londres, no Embankment. H muito tempo que a me queria ir para l. Vai
ficar muito satisfeita. Acho que o pai no se importar se levar tambm os livros. Antes no podia dar-se a esse luxo. Perdeu um dinheiro por causa dejezebel.

- Jezebel? - inquiri.

- Sim, no a viu?

- Oh, era uma pea? No, no vi. Estive fora.

- No esteve em cena muito tempo. Na verdade, foi um fiasco horrvel. Acho que a me no tem o tipo para fazer dejezebel, no lhe parece?

Ponderei as minhas impresses a respeito de Magda. Nem de nglig cor de pssego nem de fato saia-casaco ela conseguia transmitir qualquer sugesto de Jezebel, mas
estava na disposio de acreditar que havia outras Magdas que eu ainda no vira.

- Talvez no - respondi com cautela.

- O av disse sempre que seria um fiasco. Disse que nunca poria um Centavo numa daquelas peas histricas religiosas. Disse que nunca seria um

71
xito de bilheteira. Mas a me estava tremendamente interessada. Eu tam bem no gostei nada daquilo. No tinha nada a ver com a histria da Bblia Quero dizer, a
Jezebel no era m como na Bblia. Era toda patriota realmente bastante simptica. E isso tornava-a aborrecida. Mas o fim estava certo. Atiraram-na de uma janela
abaixo. S que os ces no a vieram comer. Acho que foi uma pena, no acha? A parte em que os ces a devoram  a que eu gosto mais. A me diz que no pode haver
ces no palco, mas no vejo porqu. Podiam usar ces amestrados. - Citou com satisfao: - E comeram-na toda excepto as palmas das mos. Por que  que no lhe comeram
as palmas das mos?

- No fao a menor ideia - confessei.

- Nunca imaginei que os ces fossem to esquisitos? Os nossos no so. Comem absolutamente tudo.

A Josephine ficou a meditar uns momentos neste mistrio bblico.

- Lamento que a pea tenha sido um fracasso - declarei.

- Sim. A me ficou terrivelmente abatida. As crticas foram simplesmente devastadoras. Quando as leu, desfez-se em lgrimas e chorou o dia inteiro e atirou o tabuleiro
do pequeno-almoo  Gladys e a Gladys despediu-se. Foi muito giro.

- Estou a ver que gostas de drama, Josephine - observei.

- Fizeram uma autpsia ao av - disse a Josephine. - Para descobrirem do que morrera. Um P.M., como lhe chamam, mas  muito confuso, no acha? Porque PM. significa
tambm primeiro-ministro. E corresponde tambm s horas depois do meio-dia - acrescentou, j noutra linha de pensamento.

- Tens pena que o teu av tenha morrido? - inquiri.

- Nem por isso. No gostava muito dele. No me deixou aprender ballet

- Querias aprender ballet?

- Sim, e a me queria que eu aprendesse e o pai no se importava, mas o av disse que eu no teria jeito.

Deslizou do brao da cadeira, descalou os sapatos e tentou pr-se naquilo que tecnicamente designam, creio, em pontas.

- Claro que so precisos os sapatos apropriados - explicou ela -, e mesmo assim s vezes ficamos com abcessos horrveis nas pontas dos dedos. Voltou a calar-se.

72
- Gosta desta casa? - perguntou com naturalidade.

- No sei muito bem - respondi.

- Suponho que agora vo vend-la. A menos que a Brenda fique a viver nela. E suponho que o tio Roger e a tia Clemency j no queiram ir-se embora.

- Eles queriam ir-se embora? - Fiz a pergunta com uma pontinha de interesse.

- Sim. Iam na tera-feira para qualquer stio no estrangeiro. Iam de avio. A tia Clemency comprou uma daquelas malas novas leves.

- No sabia que eles iam para o estrangeiro - comentei.

- No - disse a Josephine. - Ningum sabia. Era segredo. Eles s iam contar depois de partirem. Iam deixar uma carta ao av.

"Mas no presa na alfineteira - acrescentou. - Isso s vem nos livros muito antigos e as mulheres fazem-no quando abandonam os maridos. Mas agora seria um disparate
porque j ningum usa alfineteiras.

- Claro que no. Josephine, sabes por que razo o teu tio Roger se ia... embora?

Deitou-me um astuto olhar de esguelha.

- Acho que sim. Estava relacionado com o escritrio do tio Roger em Londres. Acho... mas no tenho a certeza... que ele tinha desviado qualquer coisa.

- O que te leva a pensar isso?

A Josephine aproximou-se mais e respirou pesadamente na minha cara.

- No dia em que o av foi envenenado, o tio Roger esteve fechado com ele no quarto por muito tempo. Fartaram-se de conversar. E o tio Roger dizia que nunca prestara
para nada, e que deixara o av mal... e no era tanto pelo dinheiro... era a sensao de no ser digno de confiana. Estava num estado lastimvel.

Fitei a Josephine com um misto de sentimentos.

- Josephine - censurei-a -, nunca te disseram que  feio escutar s Portas?

A Josephine confirmou-o acenando vigorosamente com a cabea.

- Claro que disseram. Mas se queremos saber as coisas, temos de o fazer. Aposto que o inspector-chefe Taverner tambm o faz, no acha?

Considerei o assunto. A Josephine prosseguiu, com veemncia.

- E, pelo menos, se ele no o faz, o outro, o dos sapatos de camura,

73
f-lo com certeza. E espreitam nas gavetas das pessoas e lem todas as suas cartas, e descobrem todos os seus segredos. S que so estpidos! No sabem onde procurar!

A Josephine falou com uma superioridade fria. Fui suficientemente estpido e deixei que a ilao me escapasse. A desagradvel criana prosseguiu:

- O Eustace e eu sabemos montes de coisas... mas eu sei mais do que ele. E no lhe vou contar. Ele diz que as mulheres nunca podero ser grandes detectives. Mas
eu digo que podem. Vou apontar tudo num caderninho e depois, quando a polcia estiver completamente  nora, aparecerei diante deles e direi: "Eu posso dizer-lhes
quem foi".

- Costumas ler muitos romances policiais, Josephine?

- Montes deles.

- Suponho que achas que sabes quem matou o teu av?

- Bem, penso que sim... mas terei de descobrir mais umas pistas. - Fez uma pausa e acrescentou: - O inspector-chefe Taverner pensa que foi a Brenda, no pensa? Ou
a Brenda e o Laurence juntos, porque esto apaixonados um pelo outro.

- No devias dizer essas coisas, Josephine!

- Por que no? Eles esto apaixonados um pelo outro.

- No podes avaliar.

- Posso, sim. Eles escrevem cartas um ao outro. Cartas de amor.

- Josephine! Como  que sabes isso?

- Porque as li. Umas cartas horrivelmente lamechas. Mas o Laurence  um lamechas. Teve medo de ir para a guerra. Foi trabalhar nas caves e enchia caldeiras. Quando
as bombas voadoras caam aqui, ele costumava ficar verde... realmente verde. O Eustace e eu ramo-nos imenso.

No sei o que eu teria feito a seguir, pois nesse momento um carro parou l fora. Num pice, a Josephine j se encontrava  janela, com o seu nariz arrebitado colado
ao vidro.

- Quem ? - perguntei.

-  Mr. Gaitskill, o advogado do av. Deve vir por causa do testamento. Respirando excitadamente, saiu a correr da sala, sem dvida para retomar as suas actividades
detectivescas.

Magda Leonides entrou na sala, e, para surpresa minha, veio direita a mim e agarrou-me nas mos.

74
- Meu querido - disse ela -, graas a Deus que ainda aqui est.  preciso um homem desesperadamente.

Largou as minhas mos, encaminhou-se para uma cadeira de espaldar, alterou um pouco a sua posio e viu-se a um espelho; depois, pegando numa pequena caixa Battersea
lacada que estava em cima de uma mesa, ficou a abri-la e a fech-la, distraidamente.

Era uma pose atraente.

A Sophia espreitou pela porta e anunciou num murmrio admonitrio:
- Gaitskill!

- Eu sei - afirmou Magda.

Uns instantes depois, a Sophia entrou na sala acompanhada de um homem baixo e idoso, e Magda pousou a caixa lacada e avanou ao encontro dele.

- Bom dia, Mrs. Philip. Ia l acima. Parece existir qualquer confuso com o testamento. O seu marido escreveu-me dando a impresso de que o testamento estaria em
meu poder. Segundo me informou o prprio Mr. Leonides, encontrava-se no cofre-forte dele. Suponho que a senhora no saiba nada a esse respeito?

- Sobre o testamento do Queridinho? - Magda arregalou os olhos, espantada. - No, claro que no. No me diga que aquela mulher malvada l em cima o destruiu?

- Ento, Mrs. Philip - agitou um dedo admonitrio diante dela -, nada de conjecturas absurdas. Trata-se apenas de saber onde o seu sogro o teria guardado.

- Mas ele enviou-lho... com toda a certeza... depois de o assinar. Pelo menos foi o que nos disse.

- Tanto quanto sei, a polcia passou em revista os documentos particulares de Mr. Leonides - afirmou Mr. Gaitskill. - Vou dar uma palavrinha ao inspector-chefe Taverner.

Saiu da sala.

- Querida - exclamou Magda. - Ela destruiu-o. Sei que estou certa.

- Que disparate, me, ela no faria semelhante estupidez.

- No seria estupidez nenhuma. Se no houver testamento, ela ficar com tudo.

- Chiu... Gaitskill vem a de novo.

75
O advogado tornou a entrar na sala. Vinha acompanhado do inspector-chefe Taverner, e Philip surgiu atrs deles.

- Segundo me informou Mr. Leonides - dizia Gaitskill -, ele prprio colocara o testamento no banco por uma questo de segurana.

Taverner abanou a cabea.

- Estive em contacto com o banco. No se encontram l quaisquer documentos pertencentes a Mr. Leonides para alm de alguns ttulos de crdito que lhe guardavam.

Philip interveio:

- Ser que o Roger... ou a Tia Edith... Sophia, talvez pudesses pedir- lhes que chegassem aqui.

Mas Roger Leonides, convocado juntamente com os outros para a reunio, no pde ser til.

- Mas  um disparate... um perfeito disparate - declarou. - O pai assinou o testamento e disse claramente que ia envi-lo pelo correio a Mr Gaitskill no dia seguinte.

- Se a memria me no falha - disse Mr. Gaitskill, recostando-se e semicerrando os olhos -, foi no dia 24 de Novembro do ano passado que elaborei uma minuta de acordo
com as instrues de Mr Leonides. Ele aprovou-a, devolveu-ma e a seu tempo enviei-lhe o testamento para assinatura. Decorrida uma semana, atrevi-me a recordar que
ainda no recebera o testamento devidamente assinado e atestado, e perguntei-lhe se desejava proceder a alguma alterao. Ele respondeu que estava plenamente satisfeito,
e acrescentou que depois de assinar o testamento o enviara para o banco.

- Exactamente - interveio Roger, avidamente. - Foi por alturas do final de Novembro do ano passado... lembras-te, Philip? O pai reuniu-nos a todos uma noite e leu-nos
o testamento.

Taverner virou-se para Philip Leonides.

- Tambm se recorda disto, Mr. Leonides?

- Sim - disse Philip.

- Fez lembrar a pea "A Herana Voysey" - afirmou Magda. Suspirou, satisfeita. - Acho que existe sempre algo de muito dramtico num testamento.

- Miss Sophia?

76
- Sim - respondeu Sophia. - Recordo-me perfeitamente.
- E o que dispunha esse testamento? - inquiriu Taverner.
 Mr. Gaitskill preparava-se para explicar com a sua habitual preciso, mas Roger Leonides antecipou-se-lhe.

- Era um testamento perfeitamente simples. A Electra e o Joyce tinham falecido e a sua parte dos legados havia revertido para o pai. O filho do Joyce, o William,
morrera em combate, na Birmnia, e o dinheiro que deixou foi para o pai dele. O Philip e eu e as crianas ramos os nicos descendentes que existiam. O pai explicou-nos.
Deixava cinquenta mil libras livres de direitos  tia Edith, cem mil libras livres de direitos  Brenda juntamente com esta casa, ou ento, se preferisse, uma casa
que lhe agradasse em Londres e que seria adquirida para ela. O remanescente seria dividido em trs partes, uma para mim, outra para o Philip e a terceira dividida
entre a Sophia, o Eustace e a Josephine, sendo a dos dois ltimos guardada at atingirem a maioridade. Creio que era basicamente isto, no era, Mr. Gaitskill?

- So, efectivamente (em termos genricos) as disposies do documento que elaborei - concordou Mr. Gaitskill, manifestando um ligeiro azedume por no ter podido
ser ele a falar.

- O pai leu-nos tudo isso - afirmou Roger. - Perguntou se gostaramos de fazer algum comentrio. Claro que todos concordmos.

- A Brenda fez um comentrio - interveio Miss de Haviland.

- Sim - confirmou Magda com gosto. - Disse que no suportava ouvir o seu querido Aristide a falar de morte. Provocava-lhe "arrepios", disse ela. E que depois de
ele morrer no queria nenhum daquele dinheiro horrvel!

- Bem - referiu Miss de Haviland -, isso foi um protesto convencional, tpico da classe dela.

Era uma observao cruel e mordaz. Apercebi-me subitamente do quanto Edith de Haviland detestava Brenda.

- Uma distribuio muito justa e razovel dos seus bens - considerou Mr. Gaitskill.

- E depois de o ler, o que sucedeu? - perguntou o inspector Taverner.

- Depois de o ler - disse Roger -, assinou-o. Taverner inclinou-se para a frente.

-- Em que momento e de que maneira o assinou?

77
Roger olhou em volta para a mulher, pedindo auxlio. Clemency falou, em resposta quele olhar. O resto da famlia pareceu satisfeita por ser ela a faz-lo.

- Pretende saber exactamente o que aconteceu?

- Se fizer o favor, Mrs. Roger.

- O meu sogro colocou o testamento em cima da secretria e pediu a um de ns... creio que ao Roger, que tocasse a campainha. O Roger assim fz. Quando o Johnson
acorreu ao toque, o meu sogro disse-lhe que fosse buscar a Janel Wolmer, a criada de sala. Quando se encontravam ambos presentes, assinou o testamento e pediu-lhes
que apusessem os seus nomes debaixo da assinatura dele.

- O procedimento correcto - afirmou Mr. Gaitskill. - Um testamento tem de ser assinado pelo testador na presena de duas testemunhas, que tm de apor as suas assinaturas
no mesmo momento e lugar.

- E depois? - indagou Taverner.

- O meu sogro agradeceu-lhes, e eles saram. O meu sogro pegou no testamento, colocou-o num envelope comprido e mencionou que o enviaria a Mr. Gaitskill no dia seguinte.

- Nesse caso, todos os aqui presentes confirmam - disse o inspector Taverner, olhando  sua volta - a veracidade do relato sobre o sucedido?

Seguiram-se murmrios de concordncia.

- Disse que o testamento estava em cima da secretria. A que distncia se encontravam dessa mesma secretria?

- No muito perto. Cinco ou seis metros, talvez, seria o mais prximo.

- Quando Mr Leonides vos leu o testamento, estava sentado  secretria?

- Sim.

- E ele levantou-se ou abandonou a secretria aps a leitura do testamento e antes de o assinar?

- No.

- Os criados teriam podido ler o testamento quando o assinaram?

- No - declarou Clemency. - O meu sogro colocara uma folha de papel sobre a parte superior do documento.

- Muito convenientemente - disse Philip. - O contedo do testamento no dizia respeito aos criados.

78
- Estou a ver - pronunciou-se Taverner. - Ou melhor... no estou a ver. Com um movimento brusco, exibiu um envelope comprido e inclinou-se para a frente a fim de
o entregar ao advogado.

- D-lhe uma vista de olhos - pediu. - E diga-me o que .
Mr. Gaitskill retirou do envelope um documento dobrado. Olhou-o com ntido espanto, dando-lhe voltas e mais voltas nas mos.

- Isto - disse ele -  assaz surpreendente. No percebo nada. Onde se encontrava, se posso perguntar?

- No cofre, entre outros papis de Mr. Leonides.

- Mas do que se trata? - inquiriu Roger. - A que se deve o espanto?

- Este  o testamento que preparei para o seu pai assinar, Roger... mas... no consigo compreender, depois de tudo o que afirmaram... no est assinado.

- O qu? Bem, presumo que seja apenas uma minuta.

- No - contraps o advogado. - Mr. Leonides devolveu-me a minuta doriginal. S ento elaborei o testamento... este testamento - bateu-lhe com o dedo -, e enviei-lho
para ele assinar. De acordo com as vossas declaraes, ele assinou o testamento na frente de todos... e duas testemunhas apuseram tambm as suas assinaturas... e,
no entanto, este testamento no se encontra assinado.

- Mas isso  impossvel! - exclamou Philip Leonides, falando com mais animao do que at ento ouvira da boca dele.

- Como  que o seu pai estava da vista? - perguntou Taverner.

- Sofria de glaucoma. Usava lentes fortes, claro, para ler.

- E, nessa noite, ele tinha os culos postos?

- Com certeza. S tirou os culos depois de ter assinado. Penso no estar equivocado.

- Exactamente - corroborou Clemency.

- E ningum... esto todos seguros disso... se aproximou da secretria antes da assinatura do testamento?

- Estava aqui a pensar - interveio Magda, cerrando um pouco os olhos. - Se ao menos fosse possvel visualizar tudo novamente.

- Ningum se aproximou da secretria. - disse a Sophia. - E o av esteve sentado o tempo todo.

79
- A secretria encontrava-se na sua actual posio? No estava prxima de uma porta, ou uma janela, ou qualquer reposteiro?

- Estava onde est agora.

- Estou a tentar ver se podia ter sido efectuada uma troca qualquer -- aventou Taverner. - Alguma troca deve ter havido. Mr. Leonides ficou com a impresso de que
estava a assinar o documento que acabara de ler em voz alta.

- As assinaturas poderiam ter sido apagadas? - sugeriu Roger.

- No, Mr Leonides. No sem deixar marcas de rasura. Existe uma outra hiptese. A de que este no seja o documento enviado por Mr. Gaitskill a Mr. Leonides e que
ele assinou perante vs.

- Pelo contrrio - afirmou Mr. Gaitskill. - Juraria que se trata do documento original. Tem uma pequena falha no papel (no canto superior esquerdo) que se assemelha,
com um pouco de fantasia, a um avio. Na altura reparei nela.

Os familiares entreolharam-se, atnitos.

- Um conjunto de circunstncias extremamente curioso - comentou Mr. Gaitskill. - Sem precedentes em toda a minha carreira.

- Tudo isto  impossvel! - exclamou Roger. - Estvamos todos presentes. Era impossvel acontecer!

Miss de Haviland deu uma tossidela seca.

- De que serve desperdiar o flego a dizer que algo que aconteceu no podia ter acontecido - fez notar. - Qual  a nossa posio agora? Eis o que gostaria de saber.

Gaitskill tornou-se logo no advogado cauteloso.

- A posio ter de ser examinada com muito cuidado - anunciou. Claro que este documento revoga quaisquer vontades anteriormente manifestadas. H um grande nmero
de testemunhas que viu Mr. Leonides assinar o que certamente julgava ser este testamento na sua perfeita boa-Hum. Muito interessante.  realmente um problema jurdico.

Taverner consultou o relgio.

- Receio - disse ele - ter estado a atrasar o vosso almoo.

- No quer ficar e almoar connosco, inspector-chefe? - perguntou Philip.

80
- Obrigado, Mr. Leonides, mas j combinei um encontro com o Dr. Gray em Swinly Dean.

Philip virou-se para o advogado.

- Almoa connosco, Gaitskill?

- Obrigado, Philip.

Todos se levantaram. Discretamente, fui-me aproximando da Sophia.

- Vou-me embora ou fico? - murmurei. Fez lembrar, ridiculamente, o ttulo de uma cano vitoriana.

-  melhor ires - disse a Sophia.

Esgueirei-me da sala, no encalo de Taverner. A Josephine baloiava-se para trs e para diante numa porta que conduzia s traseiras. Parecia estar extremamente divertida
com alguma coisa.

- Os polcias so estpidos - observou ela.
 A Sophia saiu da sala de estar.

- O que tens estado a fazer, Josephine?
- A ajudar a Nannie.

- Aposto que estiveste a escutar  porta.

A Josephine fez-lhe uma careta e retirou-se.

- Aquela mida - disse a Sophia -  um verdadeiro problema.

81

CAPTULO ONZE

Cheguei ao gabinete do comissrio-adjunto na Yard e encontrei Taverner a concluir o relato do que aparentemente fora um rosrio de desgraas.

- E a tem - dizia ele -, virei-os a todos do avesso... e o que consegui?... Nada de nada! Nenhum motivo. Nenhum deles em dificuldades financeiras. E tudo o que
temos contra a mulher e o seu amiguinho  que ele lhe fazia olhinhos de carneiro mal morto quando ela lhe servia o caf!

- Acalme-se, Taverner - disse-lhe. - Eu tive mais sorte do que voc.

- Ai teve? No me diga? Bem, Mr. Charles, o que foi que o senhor apurou? Sentei-me, acendi um cigarro, reclinei-me e comecei a desbobinar.

- Roger Leonides e a mulher tencionavam ir para o estrangeiro na prxima tera-feira. Roger e o pai tiveram um encontro tumultuado no dia em que o velho morreu.
O velho Leonides descobrira que algo estava errado, e Roger assumira a culpa.

Taverner ficou com o rosto congestionado.

- Mas como diabo sacou isso tudo? - quis saber. - Se foi pelos criados...

- No foi pelos criados, no. Soube-o - disse-lhe - por um agente de investigao privado.

- Que quer dizer com isso?

- E devo dizer-lhe que, de acordo com os cnones dos melhores romances policiais, ele, ou melhor, ela (ou talvez deva dizer aquilo) derrotou por completo a polcia!

"Penso tambm - prossegui - que o meu detective particular tem mais algumas coisas na manga.

Taverner abriu a boca e voltou a fech-la. Queria fazer tantas perguntas em simultneo que teve dificuldade em saber por onde comear. - Roger! - exclamou. - Sempre
me saiu um finrio, hein?

82
Senti uma ligeira relutncia em desabafar. Gostara de Roger Leonides. Recordando o seu escritrio confortvel e acolhedor, e o charme simptico da pessoa em si,
no me agradava soltar os ces da justia atrs dele. Era possvel, claro, que todas as informaes da Josephine no fossem de confiana, mas na realidade no me
parecia que assim fosse.

- Portanto, foi a mida que lhe contou? - inquiriu Taverner. - Ela parece estar a par de tudo o que se passa naquela casa.

- As crianas normalmente esto - respondeu o meu pai com secura. A ser verdadeira esta informao vinha alterar toda a situao. Se Roger, como confidenciara a
Josephine, "desviara" fundos da Associated Catering, e se o velho descobrira, poderia ter sido vital silenci-lo e abandonar Inglaterra antes que a verdade viesse
 tona. Possivelmente, Roger tornara-se um potencial candidato a uma aco judicial.

Acordou-se que seria efectuada sem demora uma investigao minuciosa  Associated Catering.

- Se isso acontecer - comentou o meu pai -, vai ser catastrfico.  uma grande empresa. Esto em causa milhes.

- Se est realmente com dificuldades financeiras, temos o que queremos - disse Taverner. - O pai chama Roger. Roger no aguenta e confessa. Brenda Leonides fora
ao cinema. Basta Roger sair do quarto do pai, ir  casa de banho, despejar o frasco da insulina e substitu-la pela soluo errada de eserina e j est. Ou pode
ter sido a mulher a faz-lo. Deslocou-se  outra ala aps chegar a casa naquele dia... diz que foi buscar um cachimbo que Roger l deixara. Mas podia perfeitamente
ter ido buscar a substncia antes de Brenda chegar a casa e lhe dar a injeco. Teria sangue-frio suficiente para o fazer.

Anu. - Sim, consigo imagin-la como a verdadeira autora do crime.  suficientemente fria para qualquer coisa! E, na verdade, no creio que Roger Leonides pensasse
em veneno como meio... aquela troca da insulina tem Qualquer coisa de feminino.

- H imensos homens capazes de envenenar - comentou o meu pai com secura.

- Oh, eu sei, sir - retorquiu Taverner. - Se sei! - acrescentou com emoo.

- Mesmo assim, no diria que Roger faz o tipo.

83
- O Pritchard - recordou-lhe o Velho - era uma pessoa encantadora.

- Digamos que agiram em conjunto.

- Com a tnica em Lady Macbeth - disse o meu pai, depois de Taverner sair -  assim que a vs, Charles?

Visualizei a figura leve e graciosa de p junto  janela naquela sala austera.

- No propriamente - respondi. - Lady Macbeth era essencialmente uma mulher gananciosa. No creio que Clemency Leonides o seja. No creio que queira ou ligue a bens
materiais.

- Mas poderia ligar, desesperadamente,  segurana do marido?

- Isso sim. E seria sem dvida... bem, cruel. Diferentes tipos de crueldade... Fora o que a Sophia dissera. Levantei o olhar e vi que o Velho me observava.

- O que te vai na cabea, Charles? Mas na altura no lhe disse.

Fui convocado no dia seguinte e encontrei Taverner e o meu pai juntos. Taverner parecia satisfeito consigo mesmo e ligeiramente excitado.

- A Associated Catering est nas lonas - disse o meu pai.

- Pode afundar-se a qualquer momento - confirmou Taverner

- Reparei que ontem  noite as aces desceram muito - referi. - Mas parecem ter recuperado esta manh.

- Temos de avanar com muita cautela - disse Taverner. - Nada de perguntas directas. Nada que cause pnico... ou que assuste o nosso cavalheiro fugitivo. Mas temos
algumas fontes de informao privadas e as notcias so bastante concretas. A Associated Catering est  beira da falncia. No tem como honrar os seus compromissos.
A verdade parece ser que foi muito mal administrada durante anos.

- Por Roger Leonides?

- Sim. Ele tinha poderes absolutos, sabe.

- E serviu-se do dinheiro...

- No - contraps Taverner. - No creio que o tenha feito. Sem mais rodeios, ele pode ser um assassino, mas no pensamos que seja um vigarista. Muito sinceramente,
ele foi apenas... tolo. No parece possuir qualquer tipo

84
de discernimento. Expandiu-se quando se devia ter refreado... hesitou e retraiu-se quando se devia ter expandido. Delegou poderes nas pessoas menos aconselhadas.
 um sujeito muito crdulo, e confiou nas pessoas erradas. De cada vez e em cada ocasio, tomou a deciso errada.

- H pessoas assim - comentou o meu pai. - E no so propriamente estpidas. No sabem ajuizar os outros,  tudo. E mostram-se entusisticas na alt'tura errada.
- Um homem como esse no devia sequer estar  frente de negcios observou Taverner.
- Provavelmente no estaria - referiu o meu pai -, no se desse o caso de ser filho de Aristide Leonides.

- Aquela empresa estava em franca expanso quando o velho lha passou. Devia ter sido uma mina de ouro! Era s ficar sentado e deixar correr.

- No - o meu pai abanou a cabea. - Nada corre sozinho. H sempre decises a tomar: um funcionrio despedido aqui... um funcionrio nomeado ali... pequenas questes
de poltica. E no caso de Roger Leonides, a resposta parece ter sido sempre a errada.

-  verdade - referiu Taverner. - Ele  um sujeito leal, isso . Conservou os inteis mais terrveis... s porque tinha considerao por eles... ou porque j l
trabalhavam h muito tempo. E depois, s vezes tinha umas ideias malucas e inexequveis e insistia em aplic-las, no obstante os enormes custos envolvidos.

- Mas nada de criminoso? - insistiu o meu pai.

- No, nada de criminoso.

- Nesse caso, porqu o assassnio? - inquiri.

- Ele pode ter sido tolo e no vigarista - disse Taverner. - Mas o resultado foi o mesmo... ou quase o mesmo. A nica coisa que podia salvar a Associated Catering
da falncia era uma injeco verdadeiramente colossal de capital at  prxima... - (consultou uma agenda) - at  prxima quarta-feira, o mais tardar

- Uma quantia como a que iria herdar, ou julgava ter herdado, nos termos do testamento do pai?

- Precisamente.

- Mas ele no conseguiria arranjar essa quantia em dinheiro.

- No. Mas obteria um crdito. Vem a dar no mesmo.

85
O Velho aquiesceu.

- No teria sido mais simples ir procurar o velho Leonides e pedir-lhe ajuda? - sugeriu.

- Creio que o fez - disse Taverner. - Creio que foi o que a mida escutou. Imagino que o velho se tenha recusado terminantemente a desperdiar bom dinheiro num mau
negcio. S podia ser.

Achei que Taverner estava certo naquele ponto. Aristide Leonides recusara-se a financiar a pea de Magda - dissera que no seria um xito de bilheteira. O desenrolar
dos acontecimentos acabou por mostrar que tinha razo. Era um homem generoso para com a famlia, mas no era pessoa para esbanjar dinheiro em empreendimentos no
lucrativos. E a Associated Catering atingia os milhares, ou provavelmente centenas de milhares. Recusara-se terminantemente, e a nica forma de Roger evitar a runa
financeira era com a morte do pai.

Sim, existia sem dvida ali um motivo.

O meu pai olhou para o relgio.

- Pedi-lhe que viesse at c - anunciou. - Deve estar a chegar a qualquer instante.

- Roger?

- Sim.

- No queres vir at  minha sala, disse a aranha  mosca? - murmurei. Taverner olhou para mim com ar chocado.

- Respeitaremos todos os procedimentos legais - disse com severidade.

A cena estava preparada, o estengrafo sentado. A campainha tocou, e alguns minutos depois Roger Leonides entrou na sala.

Chegou cheio de ansiedade - ou melhor, atabalhoadamente - e tropeou numa cadeira. Fez-me lembrar, tal como anteriormente, um grande co amistoso. Ao mesmo tempo,
decidi de uma vez por todas, que no fora ele quem levara a efeito o processo de transferncia da eserina para o frasco da insulina. T-lo-ia partido, entornado,
ou feito falhar de alguma forma a operao. No, decidi que havia ali a mo de Clemency, muito embora Roger estivesse a par do acto.

As palavras saam-lhe em catadupa.

86
- Queria falar comigo? Descobriu alguma coisa? Ol, Charles. No o tinha visto. Ainda bem que pde vir. Mas, por favor, diga-me, Sir Arthur...

! Que fulano simptico... que fulano realmente simptico. Mas imensos assassinos so fulanos simpticos: assim o afirmaram depois os seus amigos surpreendidos. Sentindo-me
como Judas, saudei-o com um sorriso.

O meu pai foi fria e deliberadamente formal. As palavras da praxe foram proferidas. Depoimento... anotado... sem compulso... advogado...

Roger Leonides ignorou-as a todas com a mesma impacincia ansiosa que o caracterizava.

Vi o ligeiro sorriso sardnico no rosto do inspector-chefe Taverner, e por ele adivinhei-lhe os pensamentos.

"Sempre seguros de si mesmos, estes fulanos. Incapazes de cometer um erro. So espertos por de mais!"

Sentei-me discretamente num canto e escutei.

- Pedi-lhe que viesse at aqui, Mr. Leonides - explicou o meu pai -, no para lhe fornecer novas informaes, mas para lhe pedir algumas informaes... informaes
essas que o senhor anteriormente nos ocultou.

Roger Leonides mostrou-se surpreendido.

- Ocultei? Mas eu contei-lhes tudo... absolutamente tudo!

- No creio. Teve uma conversa com o falecido na tarde da sua morte?

- Sim, sim, tomei ch com ele. Eu disse-lhe.

- Disse-nos isso, sim, mas o que no nos revelou foi o teor dessa conversa.

- Bem... falmos... apenas.

- Sobre o qu?

- Sobre acontecimentos dirios, a casa, Sophia...

- E quanto  Associated Catering? Fizeram-lhe alguma meno?

No meu ntimo, esperara at ali que a Josephine tivesse inventado toda a histria; mas se assim fora, essa esperana desvaneceu-se rapidamente.

A expresso de Roger alterou-se. Mudou subitamente de um estado de pacincia para algo que podia reconhecer-se como prximo do desespero.

- Oh, meu Deus! - exclamou. Deixou-se cair numa cadeira e cobriu o rosto com as mos.

Taverner sorriu como um gato satisfeito.

- Admite, Mr. Leonides, que no foi sincero connosco?

87
- Como  que conseguiram saber disso? Julguei que ningum sabia.., no vejo como  que algum poderia saber.

- Temos meios de descobrir essas coisas, Mr. Leonides. - Seguiu-se uma pausa majestosa. - Penso que achar prefervel contar-nos a verdade.

- Sim, sim, claro. Contar-vos-ei. O que pretendem saber?

-  verdade que a Associated Catering est  beira da falncia?

- Sim. Presentemente no  possvel protelar mais. A rotura pode acontecer a qualquer instante. Se ao menos o meu pai tivesse morrido sem o saber. Sinto-me to envergonhado...
to desacreditado...

- Existe a possibilidade de um processo-crime? Roger endireitou-se bruscamente.

- No, efectivamente, no. Ser a falncia... mas uma falncia honrosa. Os credores recebero vinte xelins por cada libra se eu vender os meus bens mveis, e assim
farei. No, se sinto vergonha  por ter falhado perante o meu pai. Ele confiou em mim. Ele entregou-me a sua maior empresa... a sua empresa preferida. Nunca se intrometeu,
nunca me pediu satisfaes. Apenas confiou em mim... E eu decepcionei-o.

O meu pai interveio com secura:

- Afirma que no existe a possibilidade de um processo-crime? Nesse caso, porque planeara com a sua esposa ir para o estrangeiro sem falar com ningum das suas intenes?

- Tambm sabe isso?
 - Sim, Mr. Leonides.

- Mas no entende? - Inclinou-se para a frente, impaciente. - No conseguia confront-lo com a verdade. Daria a impresso, sabe, de que estaria a pedir-lhe dinheiro.
Como se quisesse que ele me tornasse a por de p. Ele, ele gostava muito de mim. Teria querido ajudar. Mas no podia... no podia continuar... voltaria a deitar
tudo a perder... no presto. No tenho jeito. No sou como o meu pai. Sempre o soube. Tentei. Mas  escusado. Tenho sido to infeliz... Deus! no imaginam como tenho
sido infeliz! A tentar desenvenci lhar-me, esperando poder equilibrar as contas, esperando que o velhote nunca viesse a ter que saber. E depois aconteceu... no
havia mais esperana de evitar a falncia. A Clemency, a minha mulher, compreendeu, concordou comigo. Concebemos este plano. No dizer nada a ningum. Ir embora,
e, depois deixar o escndalo rebentar. Eu deixaria uma carta ao meu pai, a

88
contar-lhe tudo... a falar-lhe da vergonha que sentia e pedindo-lhe que me perdoasse. Ele foi sempre to bom para mim... nem imagina! Mas ento seria tarde de mais
para ele fazer algo. E era isso que eu pretendia. No ter de lhe pedir... ou sequer parecer que estava a pedir-lhe ajuda. Comear de novo sozinho noutro lugar. Viver
com simplicidade, humildemente. Cultivar produtos. Caf... fruta. Satisfazer apenas as necessidades bsicas da vida... seria duro para a Clemency, mas ela afianou-me
que no se importava. Ela  maravilhosa... absolutamente maravilhosa.

- Compreendo. - Havia secura na voz do meu pai. - E o que o levou a mudar de ideias?

- Mudar de ideias?

- Sim. O que o fez ir falar com o seu pai e pedir-lhe auxlio financeiro?
 Roger fitou-o.

- Mas no o fiz!
 - Ora, ora, Mr. Leonides.

- Percebeu tudo mal. Eu no o procurei. Ele  que me mandou chamar. No sei como, constara-lhe, na City. Acho que foi um boato. Mas ele sabia sempre tudo. Algum
lhe contara. Confrontou-me com a situao. Depois, claro, no aguentei... Contei-lhe tudo. Disse-lhe que no era tanto o dinheiro... mas a sensao de o desiludir
depois de ele ter confiado em mim. Roger engoliu em seco, convulsivamente.

- O querido velhote - disse ele. - No imagina como ele era bom para mim. Nunca me censurou. S benevolncia. Expliquei-lhe que no queria ajuda, que preferia passar
sem ela... que queria ir-me embora conforme planeara. Mas ele no me deu ouvidos. Insistiu em salvar a empresa... em pr a Associated Catering novamente de p.

Taverner interveio bruscamente:

- Est a pedir-nos que acreditemos que o seu pai tencionava auxili-lo financeiramente?

- E tencionava mesmo. Ele escreveu aos seus corretores, dando-lhes instrues.

Creio que viu a incredulidade estampada nos rostos dos dois homens. Corou.

- Olhem - entusiasmou-se -, ainda tenho a carta. Ia expedi-la. Mas

89
evidentemente, depois, com... com o choque e a confuso, esqueci-me. Sou capaz de a ter para aqui no meu bolso.

Puxou da carteira e comeou a procurar. Por fim, encontrou o que queria. Era um envelope dobrado, j com selo. Debruando-me, pude ver que estava endereado a Messrs.
Greatorcx e Hanbury.

- Leiam-na os senhores mesmos - disse ele -, se no acreditam em mim.

O meu pai abriu a carta. Taverner deu a volta e veio colocar-se por trs dele. No vi a carta ento, mas sim mais tarde. Instrua Messrs Greatorex e Hanbury no sentido
de realizarem determinados investimentos, e pedia que um membro da firma fosse enviado no dia seguinte para receber certas instrues respeitantes aos assuntos da
Associated Catering. Uma parte era incompreensvel para mim, mas o seu propsito suficientemente claro. Aristide Leonides preparava-se para reerguer a Associated
Catering.

- Vou passar-lhe um recibo disto, Mr. Leonides - disse Taverner. Roger pegou no recibo.

-  tudo? - disse ao levantar-se. - Entendem agora como tudo se passou, no  verdade?

- Mr. Leonides entregou-lhe esta carta - disse Taverner - e depois o senhor deixou-o? O que fez seguidamente?

- Voltei a correr para a minha parte da casa. A minha mulher acabara de chegar. Informei-a das intenes do meu pai. Como ele fora maravilhoso! Eu... na verdade,
eu mal sabia o que fazia.

- E o seu pai sentiu-se mal... passado quanto tempo?

- Deixe-me ver... meia hora, talvez, ou uma hora. A Brenda entrou esbaforida. Estava apavorada. Disse que ele estava esquisito. Eu... eu acompanhei-a logo. Mas j
lhe contei tudo isto antes.

- Durante a sua anterior visita, chegou a ir  casa de banho contgua ao quarto do seu pai?

- No creio. No... no, tenho a certeza que no. Ora, no est certamente a pensar que eu...

O meu pai ps cobro  sbita indignao. Levantou-se e apertaram as mos.

- Muito obrigado, M r. Leonides - disse ele. - Foi-nos muito til. Mas devia ter-nos contado tudo isto antes.

90
A porta fechou-se atrs de Roger. Levantei-me e fui dar uma vista de olhos  carta que se encontrava em cima da secretria do meu pai.

- Podia tratar-se de uma falsificao - sugeriu Taverner, esperanado.

- Pois podia - retorquiu o meu pai -, mas no creio que seja. Acho que temos de encarar os factos tal como so. O velho Leonides preparava-se para tirar o filho
desta alhada. Podia ter sido feito de forma mais eficiente por ele vivo do que por Roger aps a sua morte... especialmente agora que se sabe que no existe testamento
e que, consequentemente, a parte que caberia por herana a Roger est em causa. Isto implica atrasos... e dificuldades. No p em que as coisas esto, a falncia
pode ocorrer a qualquer momento. No, Taverner, Roger Leonides e a mulher no tinham motivo para eliminar o velho. Pelo contrrio...

Parou e repetiu ponderadamente como se lhe tivesse ocorrido um... pensamento sbito: - Pelo contrrio...

- Em que est a pensar, sir? - inquiriu Taverner. O Velho respondeu com lentido:

- Se Aristide Leonides tivesse vivido apenas mais vinte e quatro horas, Roger salvar-se-ia. Mas no viveu vinte e quatro horas. Morreu de forma sbita e dramtica
passado pouco mais de uma hora.

- Hum - fez Taverner. - Acha que algum da casa queria que Roger fosse  falncia? Algum com interesses financeiros opostos? No parece provvel.

- Qual  a situao em relao ao testamento? - perguntou o meu pai.
- Quem  que vai receber o dinheiro do velho Leonides?

Taverner soltou um suspiro exasperado.

- Sabe como so os advogados. No se lhes consegue arrancar uma resposta concreta. Existe um testamento anterior. Feito quando ele se casou com a segunda Mrs. Leonides.
Que lhe deixa a mesma quantia, consideravelmente menos a Miss de Haviland, e o restante a dividir por Philip e Roger. Seria de pensar que, se este testamento no
se encontra assinado, ento o antigo prevaleceria, mas parece que a questo no  to simples assim. Em Primeiro lugar, a feitura do novo testamento anulou o anterior
e existem testemunhas da sua assinatura, e a "inteno do testador". Parece que vai ter que se atirar a moeda ao ar, no caso de se concluir que ele morreu intestado.
Nesse caso, a viva aparentemente receber o bolo, ou uma renda vitalcia.

91
- Portanto, se o testamento desapareceu, Brenda Leonides  a pessoa que mais provavelmente lucrar com isso?

- Sim. Se houve alguma trapaa,  bastante provvel que ela se encontre por trs dela. E  bvio que houve trapaa, mas diabos me levem se estou a ver como foi.

Eu tambm no estava a ver. Devamos estar todos completamente estpidos. Mas estvamos a v-la, logicamente, s que do ngulo errado.

92

CAPTULO DOZE

Fez-se um breve silncio depois de Taverner sair.

Ento perguntei:
 - Pai, como so os assassinos?

O Velho olhou-me pensativamente. Compreendemo-nos to bem que ele soube exactamente o que me ia na cabea quando formulei a pergunta. E respondeu-me com muita seriedade.

- Sim - disse ele. - Isso agora  importante... muito importante, para ti... Desta vez o crime tocou-te de perto. No podes continuar a olhar para ele de fora.

Eu sempre manifestara interesse, de uma forma um pouco amadora, por alguns dos "casos" mais espectaculares que tinham passado pelo CID, mas, como afirmara o meu
pai, interessara-me do exterior - espreitando, por assim dizer, da montra. Mas agora, como se apercebera a Sophia muito mais rapidamente do que eu, o crime tornara-se
um factor dominante na minha vida.

O Velho prosseguiu:

- No sei se sou a pessoa certa para responder. Podia apresentar-te uns psiquiatras maadores que colaboram connosco. Tm o perfil traado. Ou, ento, Taverner podia
fornecer-te todas as informaes internas. Mas presumo que queiras ouvir o que eu, como resultado da minha experincia com criminosos, penso sobre o assunto.

-  exactamente o que pretendo - respondi, grato.

O meu pai descreveu um crculo com o dedo sobre o tampo da secretria.

Nota: - CID - Sigla correspondente a Criminal Investigation Department - Departamento de Investigado Criminal. (N. da T.)

93
- Como so os assassinos? Alguns deles - estampou-se-lhe no rosto um leve sorriso melanclico -, foram uns tipos profundamente encantadores.

Acho que o fitei um pouco perplexo.

- Oh, sim, foram - confirmou ele. - Tipos simpticos, vulgares como tu e eu ou como aquele sujeito que acaba de sair daqui... Roger Leonides. Sabes, o assassnio
 um crime amador. Refiro-me, claro, ao tipo de assassnio que tens em mente, no as coisas degangsters. Com frequncia, ficamos com a impresso de que estes tipos
simpticos e vulgares foram dominados pelo crime quase acidentalmente. Viram-se numa situao crtica, ou quiseram algo desesperadamente, dinheiro ou uma mulher...
e mataram para o conseguir. O travo que funciona para a maior parte de ns no resulta para eles. Sabes, uma criana traduz o desejo em aco sem compuno. Uma
criana irrita-se com o seu gatinho e diz: "Vou matar-te", e bate-lhe na cabea com um martelo... e depois fica desolada porque o gatinho no volta  vida! Imensos
midos tentam tirar um beb de um carrinho e "afog-lo", porque lhes rouba as atenes... ou interfere nos seus prazeres. Muito cedo, atingem uma fase em que sabem
que isso est "errado", isto , que sero castigados. Mais tarde, sentem que est errado. Mas desconfio que algumas pessoas permanecem moralmente imaturas. Continuam
cientes de que o assassnio est errado, mas no o sentem. No creio, pela minha experincia, que qualquer assassino sinta realmente remorsos... E isso , talvez,
a marca de Caim. Os assassinos so postos  margem, so "diferentes"; matar est errado mas no para eles... para eles,  necessrio... a vtima estava a "pedi-lo",
foi "a nica soluo".

- Acha - perguntei -, que se algum odiasse o velho Leonides, o tivesse odiado, digamos, por muito, muito tempo, isso constituiria uma razo?

- dio puro? Diria que  muito pouco provvel. - O meu pai olhava-me com curiosidade. - Quando falas de dio, presumo que te referes a uma averso levada ao extremo.
Um dio movido por cime  diferente... esse provm do afecto e da frustrao. Constance Kenr, toda a gente o dizia, gostava muito do irmo beb que matou. Mas,
supe-se, queria a ateno e o amor que lhe eram concedidos a ele. Acho que as pessoas muitas vezes matam mais aqueles que amam do que aqueles que odeiam. Possivelmente
porque s as pessoas que amamos podem realmente tornar-nos a vida insuportvel

94
"Mas isto no te adianta muito, pois no? - prosseguiu. - O que queres, se bem te entendo,  alguma prova, algum sinal universal que possa ajudar-te a distinguir
um assassino numa famlia de pessoas aparentemente normais e afveis.

- Sim,  isso.

- Existir um denominador comum? Duvido. Sabes... - fez uma pausa no seu pensamento - se existe, inclinar-me-ia a afirmar que  a vaidade.

- A vaidade?

- Sim. Nunca conheci um assassino que no fosse vaidoso... Em nove de dez casos,  a vaidade que os trai. Podem recear ser descobertos, mas no conseguem deixar
de se dar ares e de se gabar, e normalmente esto convencidos de que foram demasiado inteligentes para serem apanhados. E h um outro aspecto - acrescentou -, um
assassino quer falar.

- Falar?

- Sim. Sabes, o facto de ter cometido um crime coloca-o numa posio de enorme solido. Gostaria de contar a algum a sua proeza... e no pode faz-lo, nunca. E
isso ainda o leva a desejar mais faz-lo. E assim... se conseguir falar sobre a maneira como o perpetrou, pelo menos sempre pode falar do crime em si... discuti-lo,
avanar teorias... rev-lo.

"Se eu fosse a ti, Charles, atentaria nesse aspecto. Volta l, mistura-te com todos eles, e leva-os a falar. Claro que no ser tarefa fcil. Culpados ou inocentes,
gostaro de falar com um estranho, porque podem dizer-te coisas que no diriam uns aos outros. Mas  possvel, creio, que consigas detectar alguma diferena. Na
verdade, uma pessoa que tem algo a esconder no pode sequer dar-se ao luxo de falar. Durante a guerra, os fulanos dos Servios Secretos, sabiam isso. Se fosses capturado,
eras nome, patente e nmero, mas nada mais. As pessoas que tentam dar informaes falsas quase sempre cometem um deslize. Pe aquela famlia a falar, Charles, e
fica atento a qualquer descuido ou deslize em relao a eles prprios.

Contei-lhe ento que a Sophia falara da crueldade da famlia - dos diferentes tipos de crueldade. Mostrou-se interessado.

- Sim - disse ele. - A tua jovem ps o dedo na ferida. A maior parte das famlias tem um defeito, um ponto fraco. A maior parte das pessoas consegue fazer frente
a uma fraqueza: mas j no a duas de natureza diferente.  Uma coisa interessante, a hereditariedade. V a crueldade dos de Haviland,

95
e o que poderamos chamar a falta de escrpulos dos Leonides... os de Haviland esto bem porque tm escrpulos, e os Leonides esto bem porque, apesar de no terem
escrpulos, so bondosos; mas se um descendente herdasse ambos os traos... ests a ver aonde quero chegar? No vira a questo por aquele prisma.

- Mas no ds cabo da cabea com a hereditariedade - disse o meu pai. -  um assunto por de mais traioeiro e complicado. No, meu rapaz, vai at l e deixa que
eles falem contigo. Numa coisa a tua Sophia tem razo. Nada a no ser a verdade poder fazer bem a ela ou a ti. Tens de saber. Quando eu ia a sair da sala, acrescentou:

- E cuidado com a mida.

- A Josephine? Refere-se a no lhe dar a conhecer o que pretendo?

- No, no me referia a isso. Referia-me... a olhares por ela. No queremos que lhe acontea nada.

Fitei-o.

- Ento, Charles. H um assassino com sangue-frio algures naquela casa. A Josephine parece saber muito do que por l se passa.

- Vimos que ela sabia tudo sobre Roger... mesmo que tenha tirado a concluso precipitada de que era um vigarista. O relato que fez do que ouviu pareceu-me bastante
rigoroso.

- Sim, sim. No h melhor prova do que o testemunho das crianas. Eu confiaria sempre nelas. No vale em tribunal, claro. As crianas no suportam que lhes faam
perguntas directas. Murmuram, ou pem um ar idiota e dizem que no sabem. A melhor altura  quando se exibem. Era o que a criana estava a fazer contigo. A exibir-se.
Obters mais informaes dela por essa via. No lhe faas perguntas. Finge que pensas que ela no sabe nada. Vais ver que resulta.

"Mas toma conta dela - acrescentou. - Pode saber um pouco de mais para a segurana de algum.

96

CAPTULO TREZE

Fui at  Casa Torta (como lhe chamava mentalmente) com um ligeiro sentimento de culpa. Apesar de ter reproduzido a Taverner as confidncias da josephine sobre Roger,
no dissera nada a respeito da sua afirmao de que Brenda e Laurence Brown trocavam cartas de amor.

Desculpei-me a mim prprio fingindo tratar-se de uma mera fantasia, e que no existiam razes para acreditar que fosse verdade. Mas, na realidade, sentia uma estranha
relutncia em acumular mais provas contra Brenda Leonides. Ficara afectado pelo pathos da sua posio naquela casa - rodeada de uma famlia hostil solidamente unida
contra ela. Se essas cartas existissem, certamente Taverner e os seus esbirros as encontrariam. No me agradava ser o agente da incidncia de novas suspeitas sobre
uma mulher numa posio difcil. Alm disso, ela garantira-me que no existia nada dessa natureza entre ela e Laurence, e sentia-me mais inclinado a acreditar nela
do que naquele gnomo malicioso da Josephine. No fora a prpria Brenda que afirmara que ela "no era muito boa da cabea"?

Suprimi uma certeza desconfortvel de que ajosephine era muito boa da cabea. Recordei a inteligncia nos seus olhos negros pequenos e brilhantes.

Telefonara  Sophia e perguntara-lhe se podia ir at l de novo.

- Por favor, vem, Charles.

- Como vo as coisas por a?

- No sei. Bem. Eles continuam a revistar a casa. O que ser que Procuram?

- No fao ideia.

- Estamos todos a ficar muito nervosos. Vem o mais depressa que Puderes. Se no falar com algum dou em doida.

Respondi que iria imediatamente.

Quando cheguei  entrada principal, no havia ningum  vista. Paguei o

97
txi e fiquei a v-lo afastar-se. No sabia se havia de tocar  campainha ou entrar A porta da casa estava aberta.

Enquanto me encontrava ali, hesitante, ouvi um som ligeiro atrs de mim. Virei a cabea bruscamente. A Josephine, com o rosto parcialmente oculto por uma ma muito
grande, estava  entrada da sebe de teixo a olhar para mim.

Quando voltei a cabea, ela virou-se de costas.

- Ol, Josephine.

No respondeu, desaparecendo por detrs da sebe. Atravessei o caminho e segui-a. Estava sentada num banco rstico desconfortvel junto ao lago dos peixes dourados,
baloiando as pernas e mordendo a ma. Por cima do vermelho do fruto, os olhos dela fitavam-me, sombrios, e com o que no pude deixar de sentir ser hostilidade.

- Voltei, Josephine - disse-lhe.

Era um comeo fraco, mas achei o silncio e o olhar fixo da Josephine bastante enervantes.

Com um excelente sentido estratgico, ela continuava sem responder

- A ma  boa? - perguntei.

Desta vez, Josephine condescendeu. A sua resposta consistiu numa s palavra.

- Farinhenta.

- Que pena - respondi. - No gosto de mas farinhentas.

- Ningum gosta - retorquiu Josephine em tom escarninho.

- Por que no respondeste quando te cumprimentei?

- No me apeteceu.

- Por que no?

A Josephine afastou a ma do rosto para ajudar na clareza da sua acusao.

- Foi bisbilhotar para a polcia - disse ela.

- Oh! - Fui apanhado de surpresa. - Referes-te... a...

- Ao tio Roger.

- Mas no teve mal, Josephine - asseverei-lhe. - Pelo contrrio. Eles sabem que ele no fez nada de errado... quero dizer, ele no desviou dinheiro nem nada do gnero.

A Josephine deitou-me um olhar exasperado.

98
-  muito estpido.

- Desculpa.

- No estava preocupada com o tio Roger. S que no  assim que um detective trabalha. No sabe que nunca se diz  polcia seno mesmo no fim?

- Oh, entendo - respondi. - Desculpa, Josephine. Peo imensa desculpa.

- Bem pode pedir. Confiei em si. - Acrescentou em tom de censura. Pedi-lhe desculpa pela terceira vez. A Josephine pareceu um pouco apaziguada. Deu mais duas dentadas
na ma.

- Mas a polcia acabaria por vir a descobrir tudo isto - disse-lhe. Tu... eu... no podamos ter mantido segredo.

- Por causa de ele ir  falncia?

Como sempre, a Josephine estava bem informada.

- Suponho que ser inevitvel.

- Vo falar sobre isso esta noite - disse ela. - O pai e a me e o tio Roger e a tia Edith. A tia Edith dava-lhe dinheiro dela... s que ainda no o recebeu... mas
acho que o pai no. Diz que se o Roger se meteu num assado, a culpa  toda dele, e que no vale a pena deitar dinheiro  rua, e a me nem quer ouvir falar em dar-lhe
dinheiro porque quer que o pai invista na Edith Thompson. Sabe a histria da Edith Thompson? Era casada, mas no gostava do marido. Estava apaixonada por um jovem
chamado Bywaters que saiu de um navio e ele veio por uma rua diferente depois do teatro e apunhalou-o nas costas.

Fiquei mais uma vez maravilhado com a dimenso e a perfeio do conhecimento da Josephine; e tambm com o sentido dramtico com que, apenas ligeiramente ensombrado
por pronomes confusos, apresentara-todos os factos relevantes o mais resumidamente possvel.

- Soa bem - afirmou a Josephine -, mas no creio que a pea v ser assim. Ser outra vez como Jezebel. - Suspirou. - Quem me dera saber por
que  que os ces no lhe comeram as palmas das mos.

- Josephine - sondei. - Disseste que tinhas quase a certeza de quem era o assassino?

-E da?

- Quem foi?

Deitou-me um olhar de desdm.

99
- Entendido - disse. - Ainda no chegmos ao ltimo captulo. Nem se eu prometer que no conto ao inspector Taverner?

- S preciso de mais algumas pistas - disse a Josephine.

"Seja como for - acrescentou, deitando o caroo da ma para o lago dos peixes -, no lhe contaria. Se fosse algum, era o Watson. Engoli este insulto.

- Est bem - acedi. - Serei o Watson. Mas at o Watson dispunha de alguns dados.

- Alguns qu?

- Factos. E depois ele fez as dedues erradas a partir deles. No te divertirias imenso a ver-me fazer as dedues erradas?

Por um momento, a Josephine sentiu-se tentada. Depois sacudiu a cabea.

- No - disse ela, e acrescentou: - Seja como for, no gosto muito de Sherlock Holmes.  horrivelmente antiquado. Deslocam-se em carruagens puxadas por cavalos.

- E as tais cartas? - indaguei.

- Que cartas?

- As cartas que disseste que Laurence Brown e Brenda escreviam um ao outro.

- Inventei isso - respondeu a Josephine.

- No acredito.

- Inventei, pois. Invento coisas muitas vezes.  divertido. Olhei-a atentamente. Ela retribuiu.

- Ouve, Josephine. Conheo uma pessoa no Museu Britnico que sabe imenso sobre a Bblia. Se eu conseguir que me explique por que  que os ces no comeram as palmas
das mos de Jezebel, contas-me sobre essas cartas?

Desta vez, a Josephine hesitou realmente.

Algures, no muito longe dali, um ramo partiu-se com um estalido seco.

- No, no conto - afirmou terminantemente.

Aceitei a derrota. Tardiamente, recordei o conselho do meu pai.

- Bem - disse -, tambm isto  apenas um jogo. Claro que no sabes realmente nada.

Os olhos da Josephine dardejaram, mas no mordeu o isco. Levantei-me. - Tenho de ir - anunciei - procurar a Sophia. Vem da!

- Vou ficar por aqui - respondeu a Josephine.

100
- No vais, no - contrapus. - Vens comigo.

Sem qualquer cerimnia, dei-lhe um saco, fazendo-a levantar-se. Pareceu surpreendida e inclinada a resistir, mas cedeu relativamente de boa vontade - em parte,
sem dvida, porque queria observar as reaces da famlia  minha presena.

No sabia explicar naquele momento por que estava to ansioso por que ela me acompanhasse. S me apercebi no momento em que transpusemos a porta principal.

Fora por causa do estalido sbito do ramo.

101

CAPTULO CATORZE


Chegou at ns um murmrio de vozes vindo da grande sala de estar. Hesitei mas no entrei. Passei pelo corredor e, movido por algum impulso, abri uma porta. O corredor
do outro lado estava s escuras, mas subitamente abriu-se uma porta, revelando uma grande cozinha iluminada.  porta encontrava-se uma velha - uma velha bastante
corpulenta. Trazia um avental branco muito limpo atado  sua cintura larga, e assim que a vi soube que estava tudo bem.  a sensao que uma Nannie boa consegue
sempre dar-nos. Tenho trinta e cinco anos, mas senti-me tranquilo como um rapazinho de quatro.

Tanto quanto sabia, Nannie nunca me vira, mas disse desde logo:

-  Mr. Charles, no ? Venha at  cozinha que eu preparo-lhe uma chvena de ch.

Era uma cozinha grande, acolhedora. Sentei-me junto  mesa central e Nannie trouxe-me uma chvena de ch e dois pezinhos doces num prato. Mais do que nunca, senti
que voltara ao quarto de brincar Estava tudo bem
- e os terrores do escuro e do desconhecido j no me atormentavam.

- Miss Sophia vai ficar satisfeita por ter vindo - disse Nannie. - Ela tem andado muito excitada. Esto todos muito excitados - acrescentou em tom de reprovao.

Espreitei por cima do ombro.

- Onde est a Josephine? Ela vinha comigo. Nannie deu um estalido desaprovador com a lngua.

- A escutar atrs das portas e a tomar notas naquele caderninho estpido que leva para todo o lado - comentou. - Devia ter ido para um colgio e ter crianas da
idade dela com quem brincar. J o disse a Miss Edith e ela concorda... mas o senhor achou que era melhor ela estar aqui em casa

- Ele devia gostar muito dela - observei.

102
- Gostava, sir. Ele gostava deles todos.

Mostrei-me ligeiramente surpreendido, e interroguei-me por que razo o afecto de Philip pela sua prole era referido to nitidamente no passado. Nannie reparou na
minha expresso.

- Quando falei no senhor, era ao velho Mr. Leonides que me referia disse, corando um pouco.

Antes que pudesse responder, a porta abriu-se de rompante e a Sophia entrou.

- Oh, Charles - disse ela, e depois rapidamente: - Oh, Nannie, estou to satisfeita por ele ter vindo.

- Eu sei que sim, meu amor.

Nannie reuniu uma srie de tachos e panelas e afastou-se com eles at  copa. Fechou a porta atrs de si.

Levantei-me da mesa e abeirei-me da Sophia. Abracei-a e cingia-a a mim.

- Querida - sussurrei. - Ests a tremer. O que ?

- Estou assustada, Charles - respondeu. - Estou assustada.

- Amo-te - disse-lhe. - Se pudesse levar-te comigo... Ela afastou-se e sacudiu a cabea.

- No, isso  impossvel. Temos de resolver esta situao. Mas sabes, Charles, no me agrada. No me agrada a sensao de que algum... algum nesta casa... algum
que vejo e com quem falo todos os dias seja um envenenador insensvel e calculista...

E eu no soube o que responder-lhe. Uma pessoa como a Sophia no se Pode tranquilizar dizendo algo fcil e sem sentido. Ela suspirou: - Se ao menos se soubesse...

- Isso deve ser mesmo o pior - concordei.

- Sabes o que realmente me apavora? - murmurou. -  que podemos nunca vir a saber...

Conseguia facilmente visualizar o pesadelo que seria... E parecia-me altamente provvel que pudesse nunca vir a descobrir-se quem matara o velho Leonides.

Mas tambm me fez lembrar uma pergunta que quisera fazer  Sophia sobre um aspecto que despertara o meu interesse.

103
- Diz-me, Sophia - pedi-lhe. - Quantas pessoas nesta casa sabiam do frasco de eserina... isto : a) que o teu av o tinha, e: b) que era venenosa e que a dose seria
fatal?

- Estou a ver aonde queres chegar, Charles. Mas no resultar. Sabes, era do conhecimento de todos.

- Bem, sim, vagamente, suponho, mas especificamente...

- Ns sabamos especificamente. Estvamos todos um dia com o'av a tomar caf aps o almoo. Ele gostava de ter toda a famlia  sua volta, sabes. E estava a ter
muitos problemas com a vista. E a Brenda trouxe a eserina e colocou uma gota em cada olho, e a Josephine, que faz sempre perguntas sobre tudo, quis saber: "Por que
 que est escrito no frasco Colrio - no ingerir?". E o av sorriu e disse: "Se a Brenda se enganasse e um dia injectasse o colrio em vez da insulina... acho
que arfaria muito, e ficaria com o rosto azul e depois morreria, porque, sabes, o meu corao j no  muito forte". E a Josephine s disse: "Ah", e o av prosseguiu:
"Por isso temos de estar atentos para que a Brenda no me d uma injeco de eserina em vez de insulina, no temos?". - A Sophia fez uma pausa e depois acrescentou:
Estvamos todos a ouvir. Percebes? Escutmos todos!

Percebera, sim. J imaginara vagamente que apenas algum conhecimento especializado teria sido necessrio. Mas agora era ntido que o velho Leonides fornecera efectivamente
o plano para o seu prprio assassnio. O criminoso no tivera de engendrar um esquema ou um plano, ou conceber fosse o que fosse. A prpria vtima apresentara um
mtodo simples e fcil de provocar a sua morte.

Respirei fundo. - Sim,  bastante horrvel, no ? - disse a Sophia, captando o meu pensamento.

- Sabes, Sophia - disse devagar. - S h uma coisa que me impressiona.

-Sim?

-  que ests certa,  que no pode ter sido Brenda. Ela no pode t-lo feito exactamente dessa maneira... porque todos ouviram... porque todos se lembrariam.

- Olha que no sei. Em certas coisas ela  muito estpida, sabes.

- No a esse ponto - contrapus. - No, no pode ter sido Brenda.

104
A Sophia afastou-se de mim.

- No queres que seja Brenda, pois no? - perguntou.

E o que poderia eu dizer? No podia (no, no podia) dizer sem mais rodeios: "Sim, espero que seja Brenda".

E por que no? Bastava a sensao de que Brenda estava sozinha de um lado e a animosidade em bloco da poderosa famlia Leonides reunida contra ela do outro. Cavalheirismo?
Sensibilidade aos mais fracos? Aos indefesos? Recordei-a sentada no sof, de luto carregado e dispendioso, o desespero na voz... o medo no olhar.

Nannie voltou bastante oportunamente da copa. No sei se se teria apercebido de uma certa tenso entre mim e a Sophia.

- A falar de assassinos e essas coisas - disse em tom de reprovao.
- Esqueam,  o que vos digo. Deixem isso para a polcia.  o desagradvel trabalho deles e no o vosso.

- Oh, Nannie... no percebe que algum nesta casa  um assassino...

- Que disparate, Miss Sophia, no tenho pacincia para a ouvir. A porta da frente no est sempre aberta... todas as portas abertas, nada fechado... a pedir que
os ladres entrem?

- Mas no pode ter sido um ladro, no roubaram nada. E depois, por que entraria um ladro e envenenaria algum?

- Eu no disse que foi um ladro, Miss Sophia. S disse que todas as portas estavam abertas. Algum podia ter entrado. Se quer saber, acho que foram os comunistas.

Nannie acenou com a cabea, com ar de satisfao.

- Por que diabo quereriam os comunistas matar o pobre av?

- Bem, as pessoas dizem que eles esto por detrs de tudo o que acontece. Mas se no foram os comunistas, fixem bem o que lhes digo, foram os catlicos. A Mulher
Escarlate da Babilnia,  o que eles so.

Com ar de quem disse a ltima palavra, Nannie desapareceu novamente na copa.

A Sophia e eu demos uma gargalhada.

- Que protestante assanhada - comentei.

- , no ? Anda, Charles, vamos at  sala de estar. Decorre neste momento uma espcie de conclio familiar. Estava marcado para esta tarde... Mas comeou prematuramente.


105
-  melhor no me intrometer! Sophia.

- Visto que podes vir a entrar para a famlia,  bom que fiques a saber como  quando se discute abertamente.

- Mas sobre o que ?

- Os negcios do Roger. Parece que j ests metido neles. Mas s louco se pensas que o Roger seria capaz de matar o av. Ora, o Roger adorava-o.

- Nunca achei mesmo que tivesse sido ele. Mas pensei que podia ter sido Clemency.

- Apenas porque eu te incuti essa ideia. Mas a tambm te enganas. Creio que a Clemency no se importar nada se o Roger perder o dinheiro todo. Acho, na verdade,
que at ficar muito satisfeita. Ela nutre uma estranha paixo por no ter coisas. Anda.

Quando a Sophia e eu entrmos na sala de estar, as vozes intervenientes cessaram abruptamente. Olharam todos para ns.

Encontravam-se l todos. Philip, sentado num cadeiro de brocado carmesim entre as janelas, o seu belo rosto imobilizado numa mscara fria e austera. Parecia um
juiz prestes a decretar a sentena. Roger estirara-se num pufe grande perto da lareira. Arrepanhara o cabelo com os dedos at ficar todo espetado no alto da cabea.
A perna esquerda das calas estava torcida e a gravata desalinhada. Parecia exaltado e argumentativo. Clemency sentara-se ao lado dele, e a sua forma ligeira afigurava-se
demasiado esbelta para a enorme cadeira almofadada. Desviava o olhar dos presentes e parecia analisar os painis na parede com uma expresso desinteressada. Edith
sentara-se numa cadeira de espaldar, muito direita. Tricotava com incrvel energia, os lbios muito comprimidos. O mais belo de ver na sala era Magda e o Eustace.
Pareciam um retrato a leo de Gainsborough. Estavam sentados no mesmo sof - o belo rapaz moreno com uma expresso enfastiada, e a seu lado, com um brao estendido
nas costas do sof, Magda, a Duquesa de Three Gables. com um vestido que era uma nuvem de tafets, um pequeno p numa chinela de brocado que se projectava diante
dela.

Philip carregou o cenho.

- Sophia - disse -, desculpa, mas estamos a discutir assuntos de famlia que so de natureza particular.

As agulhas de Miss de Haviland chocalharam. Preparava-me para pedir

106
desculpa e retirar-me. A Sophia impediu-me. A sua voz soou cristalina e determinada.

- O Charles e eu - anunciou - tencionamos casar. Quero que o Charles esteja presente.

- E por que carga de gua no haveria de estar? - gritou Roger, saltando do pufe com uma energia explosiva. - Estou farto de te dizer, Philip, no existe nada de
privado neste assunto! Toda a gente vai ficar a saber amanh ou depois. De qualquer forma, meu caro rapaz - avanou e colocou a mo no meu ombro -, voc sabe tudo.
Esteve l esta manh.

- Conte-me - gritou Magda, inclinando-se para a frente. - Como  que  na Scotland Yard? Gostava de saber. Uma mesa? Uma secretria? Cadeiras? Que tipo de cortinados?
Nada de flores, suponho? Um dictafone?

- Pare l com isso, me - admoestou a Sophia. - E, de qualquer forma, mandaste Vavasour Jones cortar aquela cena da Scotland Yard. Disseste que era um anticlmax.

- A pea ficava demasiado policial - explicou Magda. - Edith Thompson  manifestamente um drama psicolgico... ou um thrller psicolgico... como achas que soa melhor?

- Esteve l esta manh? - perguntou-me Philip bruscamente. - Porqu? Oh, claro... o seu pai...

Franziu o sobrolho. Senti claramente que a minha presena ali era indesejada, mas a mo da Sophia segurava-me o brao. Clemency trouxe uma cadeira.

- Sente-se - disse ela.

Lancei-lhe um olhar agradecido e aceitei.

- Podem dizer o que quiserem - declarou Miss de Haviland, aparentemente partindo do ponto onde tinham ficado -, mas acho que devamos respeitar a vontade do Aristide.
Depois de toda esta questo do testamento estar esclarecida, pela parte que me toca, o meu legado est inteiramente  tua disposio, Roger.

Roger arrepelou os cabelos, num frenesim.

- No, tia Edith! No! - gritou.

- Gostaria de poder dizer o mesmo - referiu Philip -, mas h que tomar todos os factores em considerao...

107
- Meu velho Philip, no compreendes? No vou aceitar um centavo de ningum.

- Claro que no pode! - ripostou Clemency.

- De qualquer modo, Edith - disse Magda. - Se o testamento prevalecer, ele ter o seu prprio legado.

- Mas no  possvel isso ficar resolvido a tempo, pois no? - inquiriu o Eustace.

- Tu no percebes nada disto, Eustace - respondeu Philip.

- O rapaz tem toda a razo! - exclamou Roger. - Ps o dedo na ferida. Nada poder evitar a falncia. Nada.

Falou com uma espcie de satisfao.

- No h efectivamente nada a discutir - rematou Clemency.

- E depois - corroborou Roger -, o que importa?

- Pensei que importasse bastante - disse Philip, comprimindo os lbios.

- No - insistiu Roger. - No! Alguma coisa importa comparada com o facto de o pai estar morto? O pai est morto1. E ns aqui sentados a discutir questes de dinheiro!

Uma leve cor rosada tingiu as faces plidas de Philip.

- S estamos a tentar ajudar - retorquiu ele em tom austero.

- Eu sei, Phil, meu velho, eu sei. Mas ningum pode fazer nada. Por isso, vamos dar o assunto por encerrado.

- Acho - insistiu Philip - que conseguiria arranjar uma certa quantia. Os ttulos desceram bastante e parte do meu capital est aplicado de tal forma que no posso
mexer-lhe: a renda a favor da Magda e assim... mas...

Magda interveio prontamente.

- Claro que no podes levantar o dinheiro, querido. Seria um absurdo tentar... e bastante injusto com as crianas.

- J lhes disse que no estou a pedir nada a ningum! - gritou Roger.
- Estoufarto de o dizer. Estou bastante satisfeito por as coisas tomarem este rumo.

-  uma questo de prestgio - contraps Philip. - Do pai. Nosso.

- No era um negcio de famlia. S a mim dizia respeito.

- Sim - concordou Philip olhando para ele. - S a ti dizia respeito.

108
Edith de Haviland levantou-se e afirmou: - Acho que j discutimos o suficiente.

Havia na voz aquele tom genuno de autoridade que nunca deixa de produzir o seu efeito.

Philip e Magda ergueram-se. O Eustace abandonou a sala e eu reparei na rigidez do seu andar. No era propriamente coxo, mas arrastava o passo.

Roger deu o brao a Philip e disse:

- Foste muito amvel, Phil, ao fazeres essa sugesto! - Os irmos saram juntos.

- Que confuso! - murmurou Magda enquanto os seguia, e a Sophia disse que ia tratar do meu quarto.

Edith de Haviland ficou a enrolar o seu tric. Olhou para mim e julguei que fosse dirigir-me a palavra. Havia no seu olhar algo que era quase um apelo. No entanto,
mudou de ideias, suspirou e saiu atrs dos outros.

Clemency aproximara-se da janela e olhava para o jardim. Fui at l e coloquei-me ao seu lado. Virou ligeiramente a cabea na minha direco.

- Graas a Deus que acabou - disse ela. - Que sala insuportvel esta!
- acrescentou com averso.

- No lhe agrada?

- No consigo respirar aqui. H sempre um cheiro a flores meias-mortas e p.

Achei que estava a ser injusta com a sala. Mas sabia ao que se referia. Sentia-se que estvamos numa sala interior.

Era uma sala feminina, extica, suave, onde no chegava o som das rajadas de vento. No era uma sala onde um homem se sentisse feliz por muito tempo. No era uma
sala onde se pudesse relaxar e ler o jornal e fumar cachimbo e estender as pernas. No obstante, preferia-a  expresso abstracta da prpria Clemency, no andar de
cima. No todo, prefiro um aposento privado feminino a uma sala de operaes.

-  apenas uma encenao - disse, olhando  sua volta. - Um palco onde a Magda representa as suas cenas. - Fitou-me. - Sabe, no sabe, o que estivemos aqui a fazer?
II Acto: o conselho familiar. Foi organizado pela Magda. No significou nada. No havia nada do que falar, nada a discutir. Est tudo resolvido... acabado.

109
No havia qualquer tristeza na voz dela. Mas antes satisfao. Reparou na minha expresso.

- Oh, no compreende? - disse com impacincia. - Estamos livres... finalmente! No compreende que o Roger tem sido infeliz... absolutamente infeliz... ao longo de
todos estes anos? Nunca teve qualquer aptido para os negcios. Gosta de coisas como cavalos e vacas e de andar de um lado para o outro pelo pas. Mas adorava o
pai... todos eles o adoravam. E  o problema desta casa: famlia a mais. No digo que o velho fosse um tirano, ou que os prejudicasse, ou que os intimidasse. Pelo
contrrio. Dava-lhes dinheiro e liberdade. Era-lhes dedicado. E eles eram-lhe dedicados a ele.

- E existe algum mal nisso?

- Creio que existe. Acho, quando os filhos crescem, que os pais devem distanciar-se deles, apagar-se, afastar-se discretamente, obrig-los a esquecerem-nos.

- Obrig-los? Isso  um pouco drstico, no ? A coero no  um mtodo to mau quanto qualquer outro?

- Se ele no tivesse criado aquela personalidade...

- Ningum cria uma personalidade - retorqui. - Ele era uma personalidade.

- Ele era uma personalidade excessiva para o Roger. O Hoger venerava-o. Quis corresponder a todos os desejos do pai, ser o filho que o pai desejava. E no foi capaz.
O pai entregou-lhe a Associated Catering (era a menina dos olhos do velho), e o Roger esforou-se por seguir as pisadas do pai. Mas no possua esse tipo de capacidade.
Nos negcios, o Roger ... sim, no vou estar com rodeios, um fracasso. E isso quase o destroou. Durante anos foi muito infeliz, lutando, vendo tudo desmoronar-se,
tendo subitamente "ideias" e "esquemas" maravilhosos que corriam sempre mal e que pioravam a situao mais do que nunca.  horrvel uma pessoa sentir que  um fracasso
ano aps ano. No sabe o que ele tem sofrido. Mas eu sei.

Voltou-se de novo e encarou-me.

- Voc pensou, chegou inclusivamente a sugerir  polcia, que o Roger teria assassinado o pai... por dinheiro! Nem imagina como... como isso  um perfeito absurdo!

- Sei-o agora - disse com humildade.

110


- Quando o Roger soube que seria impossvel aguentar mais tempo... que a falncia estava iminente, at se sentiu aliviado. Sim, aliviado. Preocupava-o que o pai
viesse a saber... mas no o resto. Ansiava pela nova vida que amos viver

O rosto dela estremeceu um pouco e a voz perdeu a amargura.

- Para onde iam? - perguntei-lhe.

- Para Barbados. Um primo meu afastado morreu h pouco tempo e deixou-me uma pequena propriedade l... oh, nada de especial. Mas sempre tnhamos para onde ir. Teramos
sido desesperadamente pobres, mas faramos pela vida... apenas viver custa pouco. Estaramos juntos... livres de preocupaes, longe deles todos.

Suspirou.

- O Roger  uma pessoa ridcula. Preocupar-se-ia comigo... que eu fosse pobre. Penso que interiorizou excessivamente a atitude de Leonides em relao ao dinheiro.
Quando o meu primeiro marido era vivo, ramos horrivelmente pobres... e o Roger acha que eu fui corajosa e maravilhosa! No percebe que eu era feliz... realmente
feliz! Nunca mais voltei a ser to feliz. E no entanto... nunca amei o Richard como amo o Roger.

Estava de olhos semicerrados. Eu podia aperceber-me da intensidade das suas emoes. Abriu os olhos, olhou para mim e disse:

- Por isso est a ver, eu nunca teria matado ningum por dinheiro. No gosto de dinheiro.

Tinha a certeza de que estava a ser sincera. Clemency Leonides era uma daquelas raras pessoas que no se sentem atradas pelo dinheiro. No gostam do luxo, preferem
a austeridade e desconfiam da riqueza.

Mesmo assim, h muitas para quem o dinheiro no tem qualquer atractivo, mas que podem ser tentadas pelo poder que ele confere.

- Podia no querer o dinheiro para si - disse-lhe -, mas bem gerido, o dinheiro pode permitir fazer imensas coisas interessantes. Pode ser doado para financiar investigaes,
por exemplo.

Estava desconfiado de que Clemency era uma fantica do trabalho, mas ela limitou-se a responder:

- Duvido que os donativos tivessem serventia. Normalmente so gastos da maneira errada. As coisas que tm valor so normalmente realizadas por

111
algum com entusiasmo e genica... e viso natural. O equipamento dispendioso, a formao e as experincias nunca so levados a efeito como seria de esperar. O financiamento
acaba por ir parar s mos erradas.

- Importar-se- de abandonar o seu trabalho quando forem para Barbados? - perguntei. - Vo na mesma, presumo?

- Oh, sim, mal a polcia nos autorize. No, no me importo nada de abandonar o meu trabalho. Por que haveria? No me agrada o cio, mas terei muito que fazer em
Barbados.

Acrescentou com impacincia:

- Oh, se ao menos tudo se resolvesse depressa e pudssemos ir-nos embora...

- Clemency - disse eu -, tem alguma ideia de quem ter feito isto? Partindo do princpio de que a senhora e Roger no tiveram qualquer participao (e, na realidade,
no vejo qualquer razo para pensar que tivessem), certamente, com a sua inteligncia, deve ter alguma ideia de quem ter sido?

Deitou-me um olhar bastante estranho, um olhar furtivo, de esguelha. Quando falou, a sua voz perdera a espontaneidade. Era acanhada, cheia de embarao.

- No posso dar palpites, seria pouco cientfico - retorquiu. - S posso afirmar que a Brenda e o Laurence so os suspeitos bvios.

- Portanto, pensa que foram eles? Clemency encolheu os ombros.

Ficou ali um momento como se  escuta, depois saiu da sala, cruzando-se com Edith de Haviland  porta. Edith veio direita a mim.

- Quero falar consigo - informou. Vieram-me  ideia as palavras do meu pai. Seria... Mas Edith de Haviland prosseguiu:

- Espero que no tenha ficado com a impresso errada - disse. - Isto , sobre o Philip. Pode parecer-lhe reservado e frio, mas no  nada assim.  apenas um comportamento.
No consegue evit-lo.

- Na realidade, no pensei... - comecei. Mas ela no perdeu tempo:

- Ainda agora... a propsito do Roger, No se trata de m vontade. Ele

112
nunca foi mesquinho por causa de dinheiro. E  realmente um querido... Sempre foi um querido... mas precisa de compreenso.

Olhei para ela com o ar, espero, de quem estava com vontade de compreender. Ela prosseguiu:

- Em parte, creio, deve-se ao facto de ter sido o segundo filho da famlia. H quase sempre qualquer coisa com os segundos filhos... comeam em desvantagem. Ele
adorava o pai, sabe. Claro, todos os filhos adoravam o Aristide e ele adorava-os. Mas o Roger era a menina dos olhos dele, tratando-se do mais velho... do primognito.
E acho que o Philip o sentiu. Fechou-se na sua concha. Comeou a gostar de livros, do passado e de coisas que estavam bem distantes do quotidiano. Acho que ele sofreu...
os filhos sofrem...

Fez uma pausa e depois continuou:

- Acho que o que quero realmente dizer  que ele sempre teve cimes do Roger. Penso que ele prprio no chega a aperceber-se disso. Mas creio que o facto de o Roger
ter fracassado... oh, parece uma coisa odiosa de dizer mas, na realidade, tenho a certeza de que ele no se apercebe... mas acho que talvez o Philip no o lamente
tanto como deveria.

- Est a dizer-me que ele ficou satisfeito por Roger ter falhado?

- Sim - confirmou Miss de Haviland. -  exactamente o que quero dizer.
"Sabe - acrescentou com um semblante um pouco carregado -, desagradou-me que ele no se tivesse prontificado a ajudar o irmo.

- E por que deveria faz-lo? - instiguei. - Afinal, foi Roger quem fez a asneira.  adulto. No h filhos a ter em considerao. Se estivesse doente ou Verdadeiramente
necessitado, claro que a famlia o ajudaria... mas no duvido que Roger preferisse comear de novo absolutamente por sua prpria conta.

- Oh, se preferia! S se preocupa com a Clemency. E a Clemency  uma criatura extraordinria. Gosta mesmo de se sentir desconfortvel e de s ter o estritamente
necessrio. Moderna, creio. No possui o sentido do passado, nem o sentido do belo.

Senti os olhos argutos dela mirarem-me de alto a baixo.

- Isto  uma provao horrvel para a Sophia - disse ela. - Lamento imenso que a juventude dela seja ofuscada assim. Adoro-os a todos, sabe.

 113
O Roger e o Philip, e agora a Sophia, o Eustace e a Josephine. Todos os filhos queridos. Os filhos da Mareia. Sim, gosto imenso deles. - Fez uma pausa e depois acrescentou
com rispidez: - Mas tenha cuidado com esta minha idolatria.

Virou-se bruscamente e saiu. Tive a sensao de que a observao dela encerrava um outro significado que eu no conseguia atingir muito bem.

114

CAPTULO QUINZE

- O teu quarto est pronto - anunciou a Sophia.

Colocou-se a meu lado, olhando para o jardim. Tinha agora um aspecto sem vida, com as rvores semidesnudadas baloiando ao vento.

- Que ar de desolao... - disse ela, fazendo eco dos meus pensamentos.

Enquanto observvamos, um vulto, e depois, logo a seguir, outro, surgiram junto  sebe de teixo, vindos do jardim de pedra. Ambos tinham um ar cinzento e insubstancial
na luz que perdia a intensidade.

Brenda Leonides era a primeira. Vinha envolta num casaco de chinchila cinzento e existia algo de felino na forma furtiva como se deslocava. Movia-se na penumbra
com uma espcie de graa misteriosa.

Vi o rosto dela quando passou pela janela. Esboava um meio-sorriso, o sorriso torto, de esguelha, de que me apercebera l em cima. Alguns minutos depois, Laurence
Brown, com ar delicado e encolhido, esgueirou-se tambm na penumbra. No pareciam duas pessoas a caminhar, duas pessoas que tenham ido dar um passeio. Havia algo
de furtivo e insubstancial neles, como dois fantasmas.

Interroguei-me se fora sob o p de Brenda ou de Laurence que o ramo estalara.

Por uma associao natural de ideias, perguntei:

- Onde est a Josephine?

- Provavelmente l em cima na sala de estudo, com o Eustace. - Franziu o sobrolho. - Estou preocupada com o Eustace, Charles.

- Porqu?

- Ele anda to taciturno e estranho. Est to diferente desde aquela maldita paralisia. No consigo perceber o que lhe vai na cabea. s vezes parece que nos odeia
a todos.

115
- Provavelmente isso vai passar-lhe.  apenas uma fase. i
- Sim, suponho que sim. Mas preocupo-me mesmo, Charles.

- Mas porqu, meu amor?

- Na verdade, acho que  por a me e o pai nunca se preocuparem. Eles no so como uma Me e um Pai.

- Talvez at seja melhor. So mais os filhos que se queixam de interferncia do que de no-interferncia.

- Isso  verdade. Sabes, nunca pensei no assunto at regressar do estrangeiro, mas eles so realmente um casal esquisito. O pai vive obstinadamente num mundo de
caminhos histricos obscuros e a me diverte-se a criar cenas. Aquela patetice desta tarde foi ideia da me. Era perfeitamente escusada. S queria representar uma
cena de conclio familiar. Ela aborrece-se aqui, sabes, e tem de tentar criar uma situao dramtica.

Naquele momento, tive uma viso fantstica da me da Sophia a envenenar o sogro idoso alegremente, a fim de observar uma cena de assassnio em primeira mo, sendo
ela a actriz principal.

Que pensamento divertido! Rejeitei-o enquanto tal... mas senti-me um pouco apreensivo.

-  preciso estar sempre atento  me - afirmou a Sophia. - Nunca se sabe o que ela ir preparar.

- Esquece a tua famlia, Sophia - sugeri-lhe com firmeza.

- Terei o maior prazer, mas isso  um pouco difcil no actual momento. Masfui feliz no Cairo, quando os tinha esquecido a todos.

Recordei que a Sophia nunca mencionara a sua casa ou os seus.

- Foi por isso que nunca falaste deles? - inquiri. - Porque querias esquec-los?

- Creio que sim. Ns sempre vivemos, todos ns, demasiado colados uns aos outros. Somos... somos demasiado amigos uns dos outros. No somos como algumas famlias
em que todos se odeiam mortalmente. Isso deve ser horrvel, mas  quase to mau vivermos todos emaranhados em sentimentos conflituosos.

"Acho que era ao que me referia quando disse que vivamos todos juntos numa casinha torta - acrescentou. - No era torta no sentido de desonesta. Acho que o que
queria dizer era que no tnhamos conseguido

116
 aprender a ser independentes, a aguentarmo-nos direitos por ns prprios, somos todos um pouco sinuosos, complicados.

Vi o salto de Edith de Haviland a esmagar a erva daninha no caminho quando a Sophia acrescentou:

- Como a corriola...

E depois, subitamente, Magda estava connosco, escancarando a porta e gritando:

- Meus queridos, por que no acenderam as luzes? Esto quase s escuras.

E accionou os interruptores e as luzes surgiram nas paredes e em cima das mesas, e ela e a Sophia e eu corremos os pesados reposteiros com rosas, e ali estvamos,
naquele interior com fragrncia floral, e Magda estendeu-se no sof e exclamou:

- Que cena incrvel, no acharam? Como o Eustace estava zangado! Ele disse-me que achava tudo aquilo positivamente indecente. Como os rapazes so engraados! Suspirou.
- O Roger  um querido. Adoro quando ele arrepela o cabelo e comea derrubar as coisas. A Edith no foi um amor ao oferecer-lhe o seu legado? Ela falava a srio,
sabem, no foi apenas um gesto. Mas foi uma enorme estupidez... podia ter levado o Philip a pensar que tambm devia dar o exemplo! Claro que a Edith faria qualquer
coisa pela famlia! Existe algo de muito pattico no amor de uma solteirona pelos filhos da irm. Um dia hei-de representar uma dessas tias solteironas dedicadas.
Curiosas, obstinadas e dedicadas.

- Deve ter sido difcil para ela depois da morte da irm - comentei, recusando-me a ser desviado para a discusso de outro dos papis de Magda.
- Isto , se gostava assim to pouco do velho Leonides.

Magda interrompeu-me.

- No gostava? Onde foi buscar semelhante ideia? Que absurdo. Estava apaixonada por ele.

- Me! - admoestou-a a Sophia.

- No tentes contrariar-me, Sophia.  natural que, na tua idade, aches que o amor  dois jovens bem-parecidos ao luar.

- Ela disse-me - intervim - que nunca gostara dele.

117
- Provavelmente no de incio, quando veio para c. Ficara furiosa por a irm ter casado com ele. Devo dizer que existiu sempre algum antagonismo... mas que ela
estava apaixonada por ele, isso estava! Querida, sei do que estou a falar! Claro que, tratando-se da irm da esposa falecida e tudo isso, no podia ter casado com
ela, e acho que nunca tal lhe ocorreu... e muito provavelmente a ela tambm no. Dava-se por satisfeita cuidando dos filhos e discutindo com ele. Mas no lhe agradou
quando ele casou com a Brenda. No lhe agradou nem um pouco.

- E nem a ti nem ao pai - revelou a Sophia.

- No, claro que detestmos!  natural! Mas a Edith detestou-o ainda mais. Querida, tenho visto os olhares que ela deita  Brenda!

- Ora, me - censurou Sophia.

Magda lanou-lhe um olhar afectuoso e meio-culpado, o olhar de uma criana traquina, mimada.

Prosseguiu, sem aparentemente se dar conta de qualquer falta de continuidade.

- Decidi que a Josephine deve realmente ir para o colgio.

- A Josephine? Para o colgio?

- Sim. Para a Sua. Vou tratar disso amanh. Acho que podamos despach-la imediatamente.  pssimo para ela estar a conviver com uma histria horrvel como esta.
Est a tornar-se um pouco mrbida. Precisa  de outras crianas da idade dela. Vida escolar. Sempre pensei assim.

- O av no queria que ela fosse para o colgio - referiu a Sophia com lentido. - Ops-se muito a isso.

- O Queridinho gostava muito de nos ter a todos debaixo de olho.  frequente as pessoas muito idosas serem egostas dessa maneira. Uma criana deve conviver com
outras crianas. E a Sua  to saudvel... todos os desportos de Inverno, e o ar, e uma comida muito, muito melhor do que a que temos aqui!

- Vai ser difcil fazer os preparativos para a Sua com as actuais restries monetrias, no vai? - perguntei.

- Que disparate, Charles. Existe uma espcie de plano educativo... ou intercmbio com uma criana sua... existe toda uma srie de hipteses. O colgio de Rudolph
Alstir em Lausana. Vou-lhe mandar um telegrama amanh para combinar tudo. Podemos t-la fora daqui no final da semana!

118
Magda comps uma almofada, sorriu-nos e dirigiu-se para a porta, parando por um momento a olhar para ns de uma maneira bastante encantadora.

- S os jovens  que contam - observou ela. E ao diz-lo, era uma bela frase. - Tm de vir sempre em primeiro lugar. E, meus queridos... pensem nas flores... as
gencianas, os narcisos...
 - Em Outubro? - estranhou a Sophia, mas Magda desaparecera.

Sophia suspirou, exasperada.

- Sinceramente - comentou. - A me faz uma pessoa perder a pacincia! Metem-se-lhe aquelas ideias na cabea, e envia milhares de telegramas, e tudo tem de se resolver
num pice. Por que  que a Josephine h-de ser despachada para a Sua com esta pressa toda?

- Provavelmente a ideia do colgio nem  m. Acho que seria bom para Josephine conviver com crianas da idade dela.

- O av no pensava assim - retorquiu a Sophia com obstinao.

Senti uma ligeira irritao.

- Minha querida Sophia, achas realmente que um velho senhor de mais de oitenta anos  o melhor juiz do bem-estar de uma criana?

- Ele foi talvez o melhor juiz de todos nesta casa - disse a Sophia.

- Melhor do que a tua tia Edith?

- No, talvez no. Ela era a favor do colgio. Confesso que a Josephine se tornou bastante difcil... tem o hbito horrvel de bisbilhotar. Mas acho que  s porque
gosta de brincar aos detectives.

Perguntei a mim prprio se seria apenas a preocupao com o bem-estar da Josephine que levara Magda a esta deciso repentina. A Josephine estava extraordinariamente
bem informada sobre todo o tipo de coisas que aconteceram antes do crime e que certamente no lhe diziam respeito. Uma vida escolar saudvel plena de jogos far-lhe-ia
provavelmente um bem enorme.

Mas estranhei o carcter repentino e urgente da deciso de Magda... a Sua ficava muito longe.

119

CAPTULO DEZASSEIS

O Velho dissera: "Deixa que eles falem contigo". Ao barbear-me na manh seguinte, considerei at aonde isso me levara. Edith de Haviland conversara comigo - procurara-me
com essa finalidade especfica. Clemency conversara comigo (ou fora eu que conversara com ela?). Magda conversara comigo em certa medida - ou seja, eu fizera parte
da assistncia de uma das suas representaes. A Sophia, naturalmente, conversara comigo. At Nannie conversara comigo. Ficara a saber mais alguma coisa pelo que
apurara delas? Houvera alguma palavra ou expresso importante? Mais, existia algum indcio daquela vaidade anormal a que o meu pai dera tanta nfase? No via onde
pudesse estar

A nica pessoa que no manifestara qualquer desejo de falar comigo, foi Philip. No se afigurava isso, de certo modo, bastante anormal? Ele j devia saber que eu
pretendia casar com a filha. No entanto, continuava a agir como se eu no estivesse sequer l em casa. Provavelmente, no via com bons olhos a minha presena ali.
Edith de Haviland desculpara-se por ele. Dissera que era apenas "a maneira de ser". Mostrara-se preocupada com Philip. Porqu? Analisei o pai da Sophia. Era um indivduo
reprimido em todos os sentidos. Fora uma criana infeliz e ciumenta. Fora obrigado a fechar-se em si mesmo. Refugiara-se no mundo dos livros - no passado histrico.
Aquela sua frieza e reserva estudada poderia ocultar uma boa dose de paixo. O motivo inadequado de lucros financeiros com a morte do pai era pouco convincente -
no acreditava, nem por um instante, que Philip Leonides fosse matar o pai porque no dispunha de tanto dinheiro quanto desejaria ter. Mas poderia existir alguma
razo psicolgica profunda para desejar a morte do pai. Philip fora viver de novo para casa do pai e, mais tarde, como consequncia do bombardeamento, Roger viera
- e Philip fora obrigado a ver todos os dias que Roger era o preferido do pai... Teriam as coisas chegado

120
a tal ponto na sua mente tortuosa que o nico alvio possvel era a morte do pai? E supondo que essa morte incriminaria o irmo mais velho? Roger estava com falta
de dinheiro -  beira da falncia. Ignorando a ltima entrevista entre Roger e o pai, e a oferta de auxlio deste ltimo, no poderia Philip ter-se convencido de
que o motivo pareceria to forte que Roger seria o primeiro suspeito? Estaria o equilbrio mental de Philip to perturbado ao ponto de o levar a assassinar?

Cortei-me no queixo com a navalha e praguejei.

O que diabo estava a tentar fazer? A imputar o crime ao pai da Sophia? Que atitude to bonita! No fora para isso que a Sophia me quisera ali.

Ou... seria? Havia qualquer coisa... tinha havido o tempo todo qualquer coisa subjacente ao pedido da Sophia. Se pairasse na sua mente a suspeita de que o pai era
o assassino, nunca aceitaria casar comigo - no fosse a suspeita ter fundamento. E como ela era a Sophia, perspicaz e valente, queria saber a verdade, uma vez que
a incerteza constituiria uma barreira eterna e perptua entre ns. Com efeito, no estivera ela a dizer-me: "Prova-me que esta coisa horrvel que estou a imaginar
no  verdade... mas se for verdade, ento prova-me a sua verdade... para que possa saber o pior e encar-lo!"?

Saberia, ou desconfiaria Edith de Haviland que Philip era culpado? O que quisera ela dizer com "tenha cuidado com esta minha idolatria"?

E o que pretendera Clemency com aquele olhar estranho que me deitara quando lhe perguntara de quem desconfiava e ela respondera: "O Laurence e a Brenda so os suspeitos
bvios, no so?".

A famlia inteira queria que fossem Brenda e Laurence, esperava que pudessem ser Brenda e Laurence, mas no acreditavam realmente que fossem Brenda e Laurence...

E claro que toda a famlia podia estar enganada, e afinal terem sido realmente Laurence e Brenda.

Ou poderia ter sido Laurence, e no Brenda...

Seria uma soluo muito melhor.

Acabei de escanhoar o meu queixo cortado e desci para o pequeno-almoo plenamente determinado a ter uma conversa com Laurence Brown o mais cedo possvel.

S quando estava a beber a minha segunda chvena de caf  que me ocorreu que a Casa Torta estava a exercer o seu efeito tambm sobre mim.

121
Tambm eu queria descobrir, no a soluo verdadeira, mas a soluo que mais me convinha.

Aps o pequeno-almoo, atravessei o trio e subi as escadas. A Sophia dissera-me que poderia encontrar Laurence a dar lio ao Eustace e  Josephine na sala de estudo.

No patamar do lado de fora da porta principal de Brenda, hesitei. Batia  porta, ou entraria de imediato? Decidi tratar a casa como a residncia de toda a famlia
Leonides e no como a residncia particular de Brenda.

Abri a porta e entrei. Estava tudo sossegado, parecia no se encontrar l ningum.  minha esquerda, a porta para a grande sala de estar encontrava-se fechada. 
minha direita duas portas abertas revelaram um quarto e uma casa de banho adjacente. Sabia tratar-se da casa de banho contgua ao quarto de Aristide Leonides onde
eram guardadas a eserina e a insulina.

A polcia terminara a inspeco. Abri a porta e esgueirei-me l para dentro. Apercebi-me ento da facilidade com que algum da casa (ou at de fora, j agora!) podia
subir at ali e entrar na casa de banho sem ser visto.

Na casa de banho, pus-me a olhar  minha volta. Estava sumptuosamente provida de ladrilhos brilhantes e uma banheira funda. De um lado viam-se vrios electrodomsticos:
um grelhador, uma chaleira elctrica... uma pequena caarola elctrica, uma torradeira... tudo aquilo de que um criado ao servio de um cavalheiro idoso poderia
precisar. Na parede havia um armrio branco esmaltado. Abri-o. L dentro encontravam-se instrumentos mdicos, dois copos para medicamentos, a taa que utilizava
para limpeza dos olhos, conta-gotas e alguns frascos rotulados. Aspirinas, p brico, iodo. Ligaduras elsticas, etc. Numa outra prateleira estavam empilhadas as
doses de insulina, duas agulhas hipodrmicas e um frasco de lcool etlico. Numa terceira prateleira encontrava-se um frasco assinalado Os Comprimidos - um ou dois
a tomar  noite conforme, prescrio. Nesta prateleira estivera sem dvida o frasco de eserina. Estava tudo indicado, bem arrumado, de fcil acesso para o caso de
ser necessrio, e igualmente fcil em caso de assassnio.

Eu podia fazer o que quisesse com os frascos e depois sair de mansinho, voltar a descer as escadas, e nunca ningum teria dado pela minha presena. Claro que tudo
isto no constitua novidade, mas fez-me compreender como era difcil a tarefa da polcia.

122
S pela parte ou partes culpadas era possvel descobrir o que se preindia.

"Sacudi-los", dissera-me Taverner. "P-los em debandada. Lev-los a pensar que temos uma pista. Mantermo-nos bem em evidncia. Mais cedo ou mais tarde, se o fizermos,
o nosso criminoso  capaz de no se ficar por ali e tentar ser ainda mais esperto... e depois... apanhamo-lo."

Bem, at ao momento, o criminoso no reagira a este tratamento.

Sa da casa de banho. Continuei a no ver ningum. Percorri o corredor. Passei pela sala de jantar  esquerda, e o quarto e a casa de banho de Brenda  direita.
Nesta ltima, uma das criadas andava de um lado para o outro. A porta da sala de jantar estava fechada. Vinda de uma diviso mais longe, ouvi Edith de Haviland a
telefonar ao inevitvel vendedor de peixe. Uma escada de caracol dava acesso ao andar de cima. Subi-a. O quarto de Edith e a sala de estar eram aqui, sabia-o, e
mais duas casas de banho e o quarto de Laurence Brown. Mais alm, outro curto lance de escadas descia at  sala grande construda por cima do alojamento dos criados,
nas traseiras, que era usada como sala de estudo.

Parei do lado de fora da porta. Podia ouvir-se a voz de Laurence Brown, ligeiramente alta, vinda de l de dentro.

Acho que o hbito da Josephine de escutar atrs das portas deve ser contagioso. Descaradamente, encostei-me  ombreira da porta e pus-me  escuta.

Estava a decorrer uma aula de Histria, e o perodo em questo era o Directoire francs.

Enquanto escutava, arregalei os olhos de espanto. Foi uma grande surpresa para mim descobrir que Laurence Brown era um magnfico professor.

E no sei por que haveria de me surpreender tanto. Afinal, Aristide Leonides sempre soubera escolher bem os homens. Apesar de todo o seu aspecto exterior de rato,
Laurence possua aquele dom supremo de ser capaz de despertar o entusiasmo e a imaginao dos seus alunos. O drama do Tnermidor, o decreto de proscrio dos partidrios
de Robespierre, a magnificncia de Barras, a astcia de Fouch, Napoleo, o jovem tenente de artilharia meio-esfomeado - todos eles eram reais e ganharam vida.

Nota: - Directoire francs. - Regime republicano burgus institudo em Frana aps a Revoluo de 1789.

123
Subitamente, Laurence parou, fez uma pergunta ao Eustace e  Josephine, mandou-os colocarem-se primeiro no lugar de uma figura e depois de outra do drama. Apesar
de no conseguir grandes resultados da Josephine, cuja voz soava como se tivesse uma constipao, o Eustace no dava sinais da sua habitual personalidade instvel.
Mostrava ter cabea, inteligncia e o profundo sentido histrico que sem dvida herdara do pai.

Depois ouvi as cadeiras a serem empurradas para trs e rasparem no cho. Retirei-me subindo os degraus e aparentemente ia comear a desc-los quando a porta se abriu.

O Eustace e a Josephine saram.

- Ol - saudei-os.

O Eustace mostrou-se surpreendido ao ver-me.

- Deseja alguma coisa? - inquiriu cortesmente.

A Josephine, no mostrando qualquer interesse na minha presena, passou por mim.

- S queria ver a sala de estudo - desculpei-me com pouca convico.

- Viu-a outro dia, no viu?  apenas uma sala de crianas. Costumava ser o quarto de brincar Ainda c tem imensos brinquedos.

Manteve a porta aberta para mim e entrei.

Laurence Brown encontrava-se junto  mesa. Ergueu o olhar, corou, balbuciou algo em resposta aos meus bons-dias e saiu apressadamente.

- Assustou-o - comentou o Eustace. - Ele assusta-se com muita facilidade.

- Gostas dele, Eustace?

- Oh! no  mau. Um idiota, claro.

- Mas no  mau professor?

- No, por sinal  at bastante interessante. Sabe imensa coisa. Faz-nos ver as coisas por um ngulo diferente No sabia que Henrique VIII escreveu poesia... a Ana
Bolena, claro... poesia muito decente.

Conversmos por alguns momentos sobre assuntos como The Ancienl Mariner, Chaucer, as implicaes polticas das Cruzadas, a perspectiva medieval da vida, e sobre
o facto, para o Eustace surpreendente, de Oliver Cromwell ter proibido a comemorao do dia de Natal. Por detrs dos modos escarninhos e bastante irascveis do Eustace,
havia, apercebi-me, uma mente curiosa e arguta.

124
No tardei a comear a compreender a origem do seu mau humor. A doena fora no s uma provao assustadora, mas tambm uma frustrao e um entrave, precisamente
no momento em que ele gozava a vida.

- No prximo perodo j devia estar no dcimo primeiro ano... e receberia o diploma da casa. Foi muito duro permanecer aqui e ter aulas com uma mida desagradvel
como a Josephine. Ela s tem doze anos.

- Sim, mas tu no estudas as mesmas matrias, pois no?

- No, claro que ela no tem Matemtica avanada... ou Latim. Mas no quero ter de partilhar um professor particular com uma rapariga.

Procurei acalmar o seu orgulho masculino ferido referindo que a Josephine era uma rapariga bastante inteligente para a sua idade.

- Acha que sim? Eu penso que ela  completamente doida.  louca por essas coisas de detectives... anda por a a meter o nariz em tudo e a tomar notas num caderninho
preto e a fingir que descobriu muita coisa. No passa de uma mida estpida,  o que ela  - disse o Eustace com arrogncia.

- Seja como for - acrescentou -, as raparigas no podem ser detectives. J lho disse. Acho que a me est certa e quanto mais depressa a Jo for para a Sua, melhor.

- No sentirias a falta dela?

- Sentir a falta de uma mida daquela idade? - inquiriu o Eustace com altivez. - Claro que no. Valha-me Deus, esta casa  o cmulo! A me sempre a caminho de Londres
e a maar os pobres dramaturgos para lhe adaptarem as peas e a arranjar confuses por tudo e por nada. E o pai fechado com os seus livros e s vezes sem sequer
ouvir quando se fala com ele. No sei que mal fiz para me calharem uns pais to invulgares. Depois temos o tio Roger... sempre to enrgico que s vezes at nos
assusta. A tia Clemency  boa, no chateia, mas s vezes acho que  um pouco pateta. A tia Edit no  muito m, mas est velha. As coisas melhoraram um pouco desde
que a Sophia voltou... apesar de s vezes ser bastante rspida. Mas  uma casa de doidos, no acha? Ter uma av-madrasta com idade para ser nossa tia ou nossa irm
mais velha. Quero dizer, at nos sentimos idiotas!

Compreendia o que ele sentia. Lembrei-me (muito vagamente) da minha hipersensibilidade quando era da idade do Eustace. O meu horror de parecer de alguma forma invulgar
ou de os meus familiares mais chegados se afastarem do normal.

125
- E ento o teu av? - perguntei. - Gostavas dele? Uma expresso curiosa perpassou o rosto de Eustace.

- O av - referiu ele -, era absolutamente anti-social!

- De que forma?

- No pensava em nada a no ser no lucro. O Laurence diz que isso est completamente errado. E ele era um grande individualista. Todo esse tipo de coisa tem de desaparecer,
no acha?

- Bem - respondi com bastante brutalidade -, ele morreu.

- Uma coisa boa, a srio - disse o Eustace. - No quero ser insensvel, mas no  possvel gozar a vida com aquela idade!

- No a gozava?

- No podia. Seja como for, estava na hora de fazer as malas. Ele... O Eustace calou-se quando Laurence Brown voltou  sala de estudo. Laurence comeou a mexer nos
livros, mas pareceu-me que me observava pelo canto do olho.

Viu as horas no relgio e disse:

- Por favor, esteja aqui s onze em ponto, Eustace. J perdemos tempo de sobra nos ltimos dias.

- O.k., sir.

O Eustace encaminhou-se indolentemente para a porta e saiu a assobiar.

Laurence Brown deitou-me outro olhar furtivo. Humedeceu os lbios uma ou duas vezes. Estava convencido de que ele voltara  sala de estudo unicamente com a finalidade
de falar comigo.

Depois de empilhar e desempilhar os livros um pouco sem objectivo, e fingir procurar um livro que faltava, acabou por dizer:

-Ha... como vo eles? - perguntou.

- Eles?

- A polcia.

Torceu o nariz. Um rato na ratoeira, pensei, um rato na ratoeira.

- Eles no me fazem confidncias - respondi.

- Oh. Julguei que o seu pai era o comissrio-adjunto.

- E  - confirmei. - Mas, como  natural, no trairia os segredos oficiais.

Fiz com que a minha voz soasse propositadamente pomposa.

126
- Nesse caso, no sabe como... o que... se... - A voz dele sumiu-se. No vo deter ningum, ou vo?

- Tanto quanto sei, no. Mas, como lhe disse, no podia saber. Faa-os falar, dissera o inspector Taverner. Assuste-os. Bem, Laurence Brown estava assustado, e bem
assustado.

Comeou a falar muito depressa e cheio de nervosismo.

- O senhor no sabe como ... A tenso... No saber o que... quero dizer, eles entram e saem... fazem perguntas... Perguntas que parecem no ter nada a ver com o
caso...

Calou-se. Aguardei. Ele queria falar... bem, nesse caso, deix-lo falar.

- O senhor estava l no outro dia, quando o inspector-chefe fez aquela sugesto monstruosa? Sobre Mrs. Leonides e eu prprio... - Foi monstruoso. Uma pessoa sente-se
to impotente. No podemos impedir que as pessoas pensem coisas! E  uma mentira maldosa. S porque ela ... era... bastantes anos mais nova do que o marido. As
pessoas tem mentes terrveis... mentes terrveis. Sinto... no posso deixar de sentir, que  tudo uma conspirao.

- Uma conspirao? Isso  interessante.

Era interessante, porm, no da forma que ele julgava.

- A famlia, sabe; a famlia de Mr. Leonides nunca me aceitou. Sempre se mostraram distantes. Sempre senti que me desprezavam.

As mos dele comearam a tremer.

- S porque eles sempre foram ricos e... poderosos. Olhavam-me com desprezo. O que era eu aos olhos deles? Apenas o professor particular. Apenas um maldito objector
de conscincia. E as minhas objeces eram conscientes. Eram, pois!

No disse nada.

- Pronto, concordo - exclamou. - E se eu tivesse... medo? Medo de deitar tudo a perder. Medo de que quando tivesse de puxar o gatilho... no tivesse coragem para
o fazer. Como podemos ter a certeza de que  um nazi que vamos matar? Podia ser um rapaz decente... um rapaz do campo... sem convices polticas, apenas chamado
a servir o pas. Acredito que a guerra  uma coisa errada, compreende? Errada.

Permaneci em silncio. Acreditava que o meu silncio era mais proveitoso do que quaisquer argumentos ou anuncias que pudesse fazer. Laurence

127
Brown argumentava consigo prprio, e ao faz-lo estava a revelar imenso de si mesmo.

- Todos se riram sempre de mim. - Tremeu-lhe a voz. - Parece que tenho tendncia para me cobrir de ridculo. No que me falte realmente a coragem... mas tomo sempre
a atitude errada. Entrei numa casa em chamas para salvar uma mulher que diziam estar presa l dentro. Mas perdi-me logo, e o fumo deixou-me inconsciente, e os bombeiros
tiveram muita dificuldade em me encontrar. Ouvi-os dizer: "Por que  que este parvalho no nos deixou fazer o nosso trabalho?".  escusado tentar, esto todos contra
mim. Quem quer que tenha assassinado Mr. Leonides preparou tudo para que eu parecesse suspeito. Algum o matou para me destruir.

- E ento Mrs. Leonides? - inquiri. Corou. Tornou-se menos rato e mais homem.

- Mrs. Leonides  um anjo - disse -, um anjo. A sua doura, a sua bondade para com o marido idoso eram maravilhosas.  ridculo relacion-la com o envenenamento...
ridculo! E aquele inspector tapado no consegue perceber isso!

- Est influenciado - justifiquei - pelo nmero de casos nos seus ficheiros em que os maridos idosos so envenenados por doces e jovens esposas.

- Que palerma insuportvel! - protestou Laurence Brown, furioso. Dirigiu-se para uma estante no canto e comeou a arrumar os livros. No

me pareceu que fosse conseguir algo mais dele. Sa lentamente da sala.

Seguia pelo corredor quando uma porta  minha esquerda se abriu e a Josephine quase me caiu em cima. Aparecera subitamente, como um demnio numa pantomima antiquada.

Tinha o rosto e as mos sujos e uma grande teia de aranha pendia-lhe de uma orelha.

- Onde estiveste, Josephine?

Espreitei pela porta entreaberta. Alguns degraus conduziam a um espao rectangular tipo sto, em cuja penumbra podiam ver-se vrios depsitos grandes.

- Na casa das cisternas.

- Mas porqu na casa das cisternas?

128
A Josephine respondeu de uma forma breve e profissional:

- A descobrir.

- Mas o que diabo pode descobrir-se entre as cisternas?

I a isto, a Josephine limitou-se a responder:
- Preciso de me ir lavar.
- No tenhas a menor dvida. A Josephine dirigiu-se  casa de banho mais prxima.

- Diria que est na altura do prximo crime, no acha? - virou-se para dizer.

- O que queres dizer com... o prximo crime?

-- Bem, nos livros h sempre um segundo crime nesta altura. Algum que sabe algo  eliminado antes de poder contar o que sabe.

- Ls demasiados romances policiais, Josephine. A vida real no  assim. E se algum nesta casa sabe algo, a ltima coisa que parece querer  falar dela.

A resposta da Josephine chegou-me com dificuldade devido ao rudo da gua que saa de uma torneira.

- s vezes  algo que no sabem que sabem.

Pestanejei ao tentar compreender aquilo. Depois, deixando a Josephine a arranjar-se, desci ao andar de baixo.

No momento em que passava pela porta principal em direco  escadaria, Brenda surgiu um pouco precipitadamente  porta da sala de estar.

Aproximou-se de mim e colocou a mo no meu brao, olhando-me no rosto.

- Ento? - perguntou.

Era o mesmo pedido de informaes que Laurence solicitara, s que formulado de modo diferente. E a sua nica palavra foi bem mais eficaz. Abanei a cabea.

- Nada - respondi-lhe. Soltou um longo suspiro.

- Estou to assustada - disse ela. - Charles, estou to assustada...

O medo dela era muito real. Chegava at mim naquele espao estreito. Queria tranquiliz-la, ajud-la. Tive mais uma vez aquela sensao pungente de que se encontrava
terrivelmente s num ambiente hostil.

129
Poderia perfeitamente ter gritado: Quem est do meu lado?

E qual teria sido a resposta? Laurence Brown? E, afinal, o que era Laurence Brown? No uma torre poderosa em tempo de perigo. Mas a mais frgil das embarcaes.
Lembrei-me dos dois a regressarem do jardim na noite anterior.

Queria ajud-la. Queria muito ajud-la. Mas no havia muito que ou pudesse dizer ou fazer. E l no fundo da minha mente estava uma sensao de culpa embaraosa,
como se os olhos desdenhosos da Sophia me observassem. Recordei a voz da Sophia a dizer: "Ento ela apanhou-te".

E a Sophia no via, no queria ver, as coisas pelo lado de Brenda. S, suspeita de assassnio, sem ningum do seu lado.

- O inqurito  amanh - informou Brenda. - O que... o que ir acontecer?

Nisso podia tranquiliz-la.

- Nada - retorqui-lhe. - No precisa de se preocupar com nada. Ser adiado, para a polcia proceder a mais averiguaes. Provavelmente a imprensa vai comear a conjecturar.
At aqui, no surgiu qualquer indcio nos jornais de que no se tratou de morte natural. Os Leonides tm uma grande influncia. Mas com o adiamento do inqurito...
bem, vai comear a festa.

(Diz-se cada uma! A festa? Por que usara aquela palavra em particular?)

- Eles vo ser... muito agressivos?

- Se eu fosse a si, no dava entrevistas. Sabe, Brenda, devia arranjar um advogado - recuou com um sobressalto de desalento. - No... no... no no sentido que pensa.
Mas algum tem de olhar pelos seus interesses e aconselh-la nos procedimentos, e sobre o que dizer e fazer, e o que no dizer e no fazer.

"Sabe - acrescentei -, est muito s. A mo dela pressionou mais o meu brao.

- Sim - admitiu. - Voc compreende isso. E ajudou, Charles, ajudou... Desci as escadas com uma sensao de calor, de satisfao... Depois vi a Sophia de p, junto
 porta principal. A sua voz era fria e bastante seca.

- Demoraste-te muito - disse. - Telefonaram para ti de Londres. O teu pai quer ver-te.

-NaYard?

130
- Sim.

- O que ser que querem? No disseram?

A Sophia abanou a cabea. Havia ansiedade nos seus olhos. Puxei-a para mim.

- No te preocupes, querida - disse-lhe -, no me demorarei.

131

CAPTULO DEZASSETE

Havia alguma tenso na atmosfera do gabinete do meu pai. O Velho estava sentado  secretria, o inspector-chefe Taverner encostado  janela. Na cadeira das visitas
encontrava-se sentado Mr. Gaitskill, com ar arreliado.

- ...extraordinria falta de confiana - dizia ele com azedume.

- Sem dvida, sem dvida. - O meu pai falou em tom apaziguador. Ah, ol, Charles, chegaste em boa hora. Aconteceu algo surpreendente.

- Sem precedentes - acrescentou Mr. Gaitskill.

Alguma coisa deixara o advogado com os nervos em franja. Por detrs dele, o inspector-chefe Taverner sorriu-me.

- Permita-me que recapitule - disse o meu pai. - Mr. Gaitskill recebeu uma comunicao surpreendente esta manh, Charles. Foi de um Mr. Agrodopolous, proprietrio
do restaurante Delphos.  um homem muito idoso, grego de nascimento, e quando era mais jovem fora ajudado por Aristide Leonides, tendo-se depois tornado amigos.
Ficou sempre profundamente reconhecido ao seu amigo e benfeitor e parece que Aristide Leonides depositava nele a maior confiana.

- Seria incapaz de supor que Leonides fosse de natureza to desconfiada e reservada - observou Mr. Gaitskill. - Claro que j tinha uma idade avanada... praticamente
senil, poder-se-ia dizer.

- A nacionalidade fala mais alto - comentou o meu pai com delicadeza. - Sabe, Gaitskill, quando uma pessoa tem muita idade, a mente recorda muito mais os dias e
os amigos da sua juventude.

- Mas os assuntos de Leonides tm estado nas minhas mos h mais de quarenta anos - afirmou Gaitskill. - Quarenta e trs anos e seis meses, para ser exacto.

Taverner voltou a sorrir

- O que aconteceu? - inquiri.

132
Mr. Gaitskill abriu a boca, mas o meu pai antecipou-se-lhe.

- Mr. Agrodopolous referia na sua comunicao que obedecia a determinadas instrues que lhe haviam sido dadas pelo seu amigo Aristide Leonides. Sumariamente, h
cerca de um ano, Mr. Leonides confiara-lhe um envelope selado que Mr. Agrodopolous deveria apresentar a Mr. Gaitskill imediatamente aps a morte de Mr. Leonides.
Na eventualidade de Mr. Agrodopolous falecer primeiro, o filho dele, afilhado de Mr. Leonides, executaria as mesmas instrues. Mr. Agrodopolous pede desculpa pela
demora, mas explica que esteve de cama com pneumonia e s ontem  tarde ficou a saber da morte do seu velho amigo.

- Toda esta situao  muito pouco profissional - comentou Mr. Gaitskill.

- Quando Mr. Gaitskill abriu o envelope selado e tomou conhecimento do seu contedo, achou-se na obrigao...

- Dadas as circunstncias - afirmou Mr. Gaitskill.

- De nos mostrar o seu contedo.  constitudo por um testamento, devidamente assinado e atestado, e uma carta a acompanhar.

- Portanto, o testamento apareceu finalmente? - perguntei. Mr. Gaitskill ficou muito vermelho.

- No  o mesmo testamento - vociferou. - Este no  o documento que redigi a pedido de Mr. Leonides. Este foi escrito pelo seu prprio punho, uma coisa muito perigosa
para qualquer leigo fazer. Parece ter sido inteno de Mr. Leonides fazer-me passar por tolo.

O inspector-chefe Taverner tentou acalmar os nimos.

- Ele era um cavalheiro muito idoso, Mr. Gaitskill - interveio. - Tm tendncia para a excentricidade quando ficam velhos, sabe... no ficam xexs, claro, mas apenas
um pouco excntricos.

Mr. Gaitskill fungou.

- Mr. Gaitskill telefonou-nos - informou o meu pai -, e referiu-nos o [contedo principal do testamento e eu pedi-lhe que viesse at c e trouxesse [consigo os dois
documentos. Tambm te telefonei a ti, Charles.

No percebi muito bem o motivo pelo qual me haviam chamado. Afigurava-se-me um procedimento invulgarmente heterodoxo, tanto da parte do meu pai como da de Taverner.
Teria tido conhecimento do testamento a seu

133
tempo, e na verdade no me dizia respeito a maneira como o velho Leonides deixara o seu dinheiro.

- Trata-se de um testamento diferente? - perguntei. - Isto , dispe os seus bens de modo diferente?

- Efectivamente, assim  - esclareceu Mr. Gaitskill.

O meu pai olhava para mim. O inspector-chefe Taverner esforava-se cuidadosamente por no olhar para mim. De certa forma, senti-me vagamente desconfortvel...

Passava-se algo nas mentes de ambos... e era algo que eu ignorava em absoluto.

Lancei um olhar inquiridor a Gaitskill.

- No  da minha conta - comecei. - Mas... Ele respondeu:

- As disposies testamentrias de Mr. Leonides no so, evidentemente, secretas - afirmou ele. - Considerei ser meu dever apresentar primeiro os factos s autoridades
policiais, e receber delas instrues sobre qualquer procedimento subsequente. Depreendo... fez uma pausa - que existe um... entendimento, digamos... entre si e
Miss Sophia Leonides?

- Espero casar com ela - retorqui -, mas presentemente ela no  favorvel a um noivado.

- Muito correcto - comentou Gaitskill.

Discordei dele. Mas no era o momento para discusses.

- Por este testamento - disse Mr. Gaitskill -, datado de 29 de Novembro do ano passado, Mr. Leonides, aps um legado de cem mil libras  esposa, deixa todos os seus
bens, imveis e pessoais,  neta, Sophia Katherine Leonides.

Fiquei boquiaberto. Fosse o que fosse que eu esperara, no era isto.

- Deixou tudo  Sophia - articulei. - Que facto extraordinrio. Alguma razo?

- Explicou com muita clareza os seus motivos na carta anexa - disse o meu pai. Pegou numa folha de papel que estava em cima da secretria diante de si. - Tem alguma
objeco a que o Charles a leia, Mr Gaitskill?

- Estou nas suas mos - retorquiu Mr. Gaitskill com frieza. - A carta sempre contm uma explicao... e possivelmente (muito embora duvide disso) um pretexto para
a conduta extraordinria de Mr. Leonides.

134
O Velho entregou-me a carta. Estava escrita a tinta preta carregada, numa caligrafia pequena e pouco clara. A caligrafia, porm, revelava carcter e individualidade.
No se assemelhava nada  formao cuidada das letras, mais caracterstica de outros tempos, em que a literacia era algo adquirido a muito custo e, consequentemente,
valioso.

Caro Gaitskill [dizia],

Ficar surpreendido ao receber esta carta, e provavelmente ofendido. Mas tenho as minhas razes para agir no que pode parecer uma maneira desnecessariamente secreta.
H muito que acredito fortemente no indivduo. Numa famlia (observei-o na minha infncia e nunca o esqueci), existe sempre um carcter forte e normalmente compete
a esta pessoa cuidar, e suportar o fardo, do resto da famlia. Na minhafamlia, essa pessoa era eu. Vim para Londres, estabeleci-me ali, sustentei a minha me e
os meus avs idosos em Esmirna, arranquei um dos meus irmos das garras da lei, garanti a libertao da minha irm de um casamento infeliz, e assim por diante. Deus
concedeu-me uma longa vida, e tenho podido olhar pelos meus prprios filhos e pelos filhos deles. Muitos foram-me levados pela morte; os restantes, apraz-me dizer,
esto sob o meu tecto. Quando eu morrer, o fardo que carreguei ter de recair sobre outrem. Hesitei em dividir a minha fortuna o mais equitativamente possvel pelos
que me so caros - mas

se o fizesse, acabaria por no resultar na devida igualdade. Os homens no nascem iguais - para compensar a desigualdade natural da Natureza temos de repor o equilbrio.
Por outras palavras, algum tem de ser o meu sucessor, tem de carregar consigo o fardo da responsabilidade pelo resto da famlia. Depois de observar com ateno,
no considero nenhum dos meus filhos capaz de assumir essa responsabilidade. O meu querido e estimado filho Roger no possui faro para os negcios, e apesar da sua
natureza adorvel,  demasiado impulsivo para saber ajuizar. O meu filho Philip . demasiado inseguro de si mesmo para fazer algo que no seja afastar-se da vida,
O Eustace, o meu neto,  muito jovem e no creio que possua as qualidades de senso e juzo necessrios.  indolente e facilmente influencivel pelas ideias de

135
qualquer um que encontre. S a minha neta Sophia me parece reunir as qualidades positivas exigidas. Tem inteligncia, boa capacidade de juzo, coragem, uma mente
justa e imparcial e, creio, generosidade de esprito. A ela encarrego do bem-estar da minha bondosa cunhada Edith de Haviland, por cuja vida de inteira dedicao
 famlia estou profundamente grato.

Isto explica o documento incluso. O que ser mais difcil explicar

- ou melhor, explicar-lhe a si, meu velho amigo -  o ardil a que recorri Achei mais sensato no suscitar especulaes sobre a disposio do meu dinheiro, e no
tenho qualquer inteno de deixar que. a minha famlia saiba que a Sophia vai ser a minha herdeira. Dado os meus dois filhos possurem j fortunas considerveis
que lhes haviam sido doadas, no creio que as minhas disposies testamentrias os coloquem numa situao humilhante.

Para aguar a curiosidade e as conjecturas, pedi-lhe que me redigisse um testamento, que li perante toda a minhafamlia, Pu-lo em cima da secretria, coloquei uma
folha de papel mata-borro sobre ele e mandei chamar dois criados. Quando vieram, fiz subir um pouco o mata-borro, mostrando o final de um documento, assinei o
meu nome e pedi-lhes que assinassem os deles. Escusado ser dizer que o que eu e eles assinmos  o testamento que agora anexo e no o por si redigido e que lhes
li em voz alta.

No posso esperar que compreenda o que me impeliu a efectuar este truque. Pedir-lhe-ei to somente que me perdoe por o ter deixado s escuras. Um homem muito velho
gosta de guardar os seus pequenos segredos.

Obrigado, meu caro amigo, pela dedicao com que sempre cuidou dos meus negcios. D  Sophia todo o meu amor. Pea-lhe que olhe bem pela famlia e a proteja do
mal

Muito atenciosamente, Arstide Leonides.

Li com vivo interesse este documento por de mais notvel.

- Extraordinrio - comentei.

136
- Muito extraordinrio mesmo - corroborou Mr. Gaitskill, erguendo-se. - Repito, acho que o meu velho amigo Leonides devia ter confiado em mim.

- No, Gaitskill - disse o meu pai. - Ele era torcido por natureza. Gostava, se assim posso diz-lo, de fazer as coisas de forma tortuosa.

-  verdade, sir - disse o inspector-chefe Taverner. - Torcido como nunca houve nenhum! Falou sentidamente.

Gaitskill afastou-se, profundamente magoado. Fora atingido nas profundezas da sua natureza profissional.

- Foi duro para ele - referiu Taverner. -  uma firma muito respeitvel, Gaitskill, Callum & Gaitskill. Com eles no h c trafulhices. Quando o velho Leonides tinha
qualquer negcio duvidoso, nunca era resolvido pela Gaitskill, Callum & Gaitskill. Ele tinha meia dzia de outras firmas de solicitadores que o representavam. Oh,
se ele era torcido!

- E isso est bem patente na forma como fez o testamento - confirmou o meu pai.

- Levou-nos  certa - disse Taverner. - Pensando bem, a nica pessoa que podia, ter pregado uma partida com aquele testamento era o prprio velhote. Nunca nos ocorreu
 que quisesse faz-lo!

Recordei o sorriso de superioridade da Josephine ao afirmar: "A polcia no  estpida?"

Mas a Josephine no estivera presente na ocasio do testamento. E mesmo que estivesse a escutar do lado de fora da porta (o que estava pronto para acreditar!) no
podia ter adivinhado o que o av estava a fazer. Porqu, ento, [o ar de superioridade? O que sabia ela para afirmar que a polcia era estpida? Ou tratar-se-ia,
mais uma vez, de puro exibicionismo?

Surpreendido pelo silncio na sala, ergui bruscamente o olhar - tanto o meu pai como Taverner observavam-me. No sei o que existia nos seus modos que me levou a
proferir abruptamente em tom de desafio:

- A Sophia no sabia nada disto! Nada de nada.
 - No? - inquiriu o meu pai.

No sabia se era uma concordncia se uma pergunta.

- Vai ficar absolutamente surpreendida!

- Sim?

137
- Perplexa!

Seguiu-se uma pausa. Depois, com o que se afigurou uma sbita aspereza, o telefone em cima da secretria do meu pai tocou.

- Sim? - Levantou o auscultador, escutou e depois disse: - Passe-a. Olhou para mim.

-  a tua amiga - anunciou. - Quer falar connosco.  urgente.

- Sophia?

- Charles? s tu? ... a Josephine! - A voz dela fraquejou um pouco.

- O que tem a Josephine?

- Foi agredida na cabea. Contuso. Est... est bastante mal... Dizem que pode no recuperar...

Virei-me para os outros dois.

- A Josephine foi atacada - disse-lhes.

O meu pai tirou-me o auscultador da mo. Ao faz-lo, falou com rispidez:

- Eu mandei-te estar de olho naquela mida...

138

CAPTULO DEZOITO

Em menos de nada, Taverner e eu vovamos num carro da polcia em direco a Swinly Dean.

Lembrei-me da Josephine a sair de entre as cisternas e do comentrio petulante de que "estava na hora de um segundo crime". A pobre criana no fazia ideia de que
provavelmente seria ela a vtima do "segundo crime". Aceitei plenamente a culpa que o meu pai tacitamente me imputara. Claro que devia ter estado de olho na Josephine.
Apesar de nem Taverner Inem eu possuirmos qualquer pista concreta sobre o envenenador do velho Leonides, era altamente possvel que a Josephine tivesse. O que eu
tomara por absurdo infantil e "exibicionismo" poderia muito bem ter sido algo bem "diferente. A Josephine, no seu desporto favorito de bisbilhotar e espiar, poderia
ter-se apercebido de alguma informao a que ela prpria podia no ter dado o devido valor.

Lembrei-me do ramo que estalara no jardim.

Tivera ento um pressentimento de que o perigo espreitava. Na altura agira em conformidade, e depois parecera-me que as minhas suspeitas haviam sido melodramticas
e irreais, devia ter-me lembrado de que ocorrera um crime. Quem quer que o tivesse cometido havia corrido um grande risco, e, consequentemente, no hesitaria em
voltar a matar se desse modo garantisse a sua segurana.

Talvez Magda, por algum obscuro instinto materno, se tivesse apercebi' do do perigo que a Josephine corria, e talvez tivesse sido isso que despertara a sua sbita
pressa febril em enviar a filha para a Sua.

A Sophia veio ao meu encontro mal chegmos. A Josephine, disse, fora levada de ambulncia para o Market Basing General Hospital. O Dr. Gray inform-los-ia assim
que possvel do resultado do raio-X.

139
- Como foi que aconteceu? - perguntou Taverner.

A Sophia indicou-nos o caminho at s traseiras da casa e transps uma porta para um ptio que no era usado. Num canto, havia uma porta aberta.

-  uma espcie de arrecadao - explicou a Sophia. - Foi aberta uma portinhola para os gatos na parte inferior da porta e a Josephine costumava empoleirar-se nela
e baloiar-se.

Recordei-me de que na minha juventude tambm tivera aquele hbito.

A arrecadao era pequena e bastante escura. Havia l caixas de madeira, uma mangueira velha, algumas ferramentas de jardinagem abandonadas e moblia partida. Mesmo
do lado de dentro da porta estava um travo de porta de mrmore com a forma de um leo.

-  o travo da porta principal - explicou a Sophia. - Devia estar equilibrado no cimo da porta.

Taverner levou a mo  parte superior da porta. Era uma porta baixa, erguendo-se cerca de trinta centmetros acima da cabea dele.

- Uma armadilha - referiu.

Experimentou abrir e fechar a porta. Depois debruou-se sobre o bloco de mrmore, mas no lhe tocou.

- Algum mexeu nisto?

- No - respondeu a Sophia. - No deixaria ningum tocar-lhe.

- Muito bem. Quem a encontrou?

- Fui eu. Ela no apareceu para almoar  uma hora. A Nannie chamava por ela. Ela passara pela cozinha e sara para o ptio dos estbulos cerca de um quarto de hora
antes. A Nannie disse: "Deve estar a brincar com a bola ou a baloiar-se outra vez naquela porta". Disse-lhe que ia busc-la.

A Sophia fez uma pausa.

- Ela tinha por hbito brincar daquela maneira, disseste? Quem sabia disso?

A Sophia encolheu os ombros.

- Diria que toda a gente c em casa.

- Quem mais usava a arrecadao? Os jardineiros? A Sophia sacudiu a cabea.

- Quase nunca ningum l entra.

- E este pequeno ptio no  vigiado de casa - sintetizou Taverner -

140
Qualquer pessoa poderia ter-se escapulido de casa ou dar a volta pela frente e preparado aquela armadilha. Mas seria arriscado...

Calou-se, olhando para a porta e baloiando-a para c e para l suavemente.

- No h nenhuma certeza nisto. Ou acerta ou falha. E  mais provvel falhar do que acertar. Mas ela teve azar Acertou-lhe em cheio.

A Sophia estremeceu.

Observou a porta. Tinha vrias mossas.

- Parece que algum experimentou primeiro... para ver como cairia... O som chegaria at  casa.

- No, no ouvimos nada. No imaginvamos que algo estava errado seno quando vim  procura dela e a encontrei de bruos... toda estatelada. - A voz da Sophia fraquejou
um pouco. - Havia sangue no cabelo dela.

-  o cachecol dela? - Taverner apontou para um cachecol de l aosquadrados que se encontrava no cho.

- Sim.

Usando o cachecol, pegou cuidadosamente no bloco de mrmore.

- Pode ter impresses digitais - disse ele, mas falou sem grande esperana. - Mas estou convencido de que quem fez isto foi... cuidadoso. Dirigiu-se-me: - Para onde
est a olhar?

Estava a olhar para uma cadeira de cozinha em madeira com as costas partidas que se encontrava entre os objectos abandonados. Havia alguns fragmentos de terra no
assento.

- Curioso - manifestou-se Taverner. - Algum subiu para aquela cadeira com os sapatos sujos de lama. Ora, por que seria?

Abanou a cabea.

- Que horas eram quando a encontrou, Miss Leonides?

- Deviam passar cinco minutos da uma.

- E a sua Nannie viu-a sair cerca de vinte minutos antes. Quem foi a ltima pessoa que se saiba ter estado na arrecadao antes disso?

- No fao ideia. Provavelmente a prpria Josephine. Sei que estava a baloiar-se na porta esta manh aps o pequeno-almoo.

Taverner anuiu.

- Por isso, entre essa altura e um quarto para a uma algum preparou a

141
armadilha. Diz que aquele  o pedao de mrmore que usa para prender a porta principal? Tem alguma ideia de quando desapareceu? A Sophia abanou a cabea.

- A porta no esteve escancarada toda a manh. Fazia demasiado frio.

- Tem alguma ideia de onde se encontravam todos durante a manh?

- Eu fui dar um passeio. O Eustace e a Josephine tiveram aulas at ao meio-dia e meia... com um intervalo s dez e meia. O pai, creio, esteve na biblioteca a manh
inteira.

- A sua me?

- Vinha a sair do quarto quando regressei do meu passeio... foi perto do meio-dia e um quarto. Ela no se levanta muito cedo.

Voltmos a entrar em casa. Segui a Sophia at  biblioteca. Philip, com ar plido e perturbado, estava sentado na sua cadeira habitual. Magda, acocorada e apoiada
nos joelhos dele, chorava baixinho.

- J telefonaram do hospital? - perguntou a Sophia. Philip sacudiu a cabea.

Magda soluou.

- Por que no me deixaram ir com ela? A minha beb... a minha beb estranha e feiota. E eu que costumava chamar-lhe patinho feio e ela ficava to aborrecida. Como
pude ser to cruel? E agora vai morrer. Sei que vai morrer.

- Pronto, minha querida - disse Philip. - Pronto.

Senti-me deslocado nesta cena de ansiedade e dor familiar. Retirei-me discretamente e fui procurar Nannie. Estava sentada na cozinha, a chorar baixinho.

-  um castigo para mim, Mr. Charles, pelas coisas ms que tenho andado a pensar. Um castigo,  o que .

No tentei aprofundar o significado das palavras dela.

- Existe maldade nesta casa.  o que existe. No quis v-la ou sequer acreditar nela. Mas  ver para crer. Algum matou o patro e a mesma pessoa deve ter tentado
matar a Josephine.

- Mas por que haveriam de tentar matar a Josephine?

Nannie retirou a ponta do leno do canto do olho e fitou-me com uma expresso viva.

- Sabe perfeitamente como ela , Mr. Charles. Ela gostava de saber

142
coisas. Sempre foi assim, mesmo em pequenina. Costumava esconder-se Idebaixo da mesa da casa de jantar e escutava a conversa das criadas e depois (ameaava-as. Fazia-a
sentir-se importante. Sabe, a modos que ela foi ignorada pela senhora. No era uma criana bonita como as outras duas. Foi sempre o patinho feio, como a senhora
costumava chamar-lhe. Culpo a senhora por isso, pois estou convencida de que isso fez dela uma criana amarga. Mas de uma forma curiosa, ela vingou-se descobrindo
coisas sobre as pessoas e dando-lhes a entender que as sabia. Mas isso no  seguro de fazer quando anda um envenenador  solta!

No, no era seguro. E isso trouxe-me algo  lembrana. Perguntei a Nannie: - Sabe onde ela guardava um caderninho preto... uma espcie de livro de apontamentos
onde ia anotando as coisas?

- Sei ao que se refere, Mr. Charles. Muito matreira, isso era. Tenho-a visto morder o lpis e escrever no caderninho e voltar a morder o lpis. E "No faas isso",
dizia-lhe eu, "ainda ficas envenenada com o chumbo", e "Oh no, no fico", dizia ela, "porque no h chumbo no lpis.  carvo", apesar de eu no ver como isso era
possvel, pois se se chama a uma coisa um lpis de chumbo  porque tem chumbo l dentro.

- Tambm diria que sim - concordei. - Mas por acaso ela tinha razo.
- (A Josephine tinha sempre razo!) - E ento o tal caderninho de apontamentos? Sabe onde ela o guardava?

- No tenho a menor ideia, sir. Ela fazia muito segredo.

- No o tinha consigo quando a encontraram?

- Oh, no, Mr. Charles, no havia nenhum caderno de apontamentos.

Teria algum levado o caderno? Ou ela escondera-o no seu prprio quarto? Ocorreu-me ir procur-lo. No sabia muito bem onde era o quarto da Josephine, mas quando
me encontrava hesitante no corredor, ouvi a voz de Taverner chamar-me:

- Venha c - disse ele. - Estou no quarto da mida. J viu uma coisa destas?

Cheguei  soleira e fiquei estarrecido.

Parecia que passara um tornado pelo pequeno quarto. As gavetas da cmoda tinham sido tiradas e o seu contedo espalhado pelo cho. O colcho e a roupa tinham sido
arrancados da cama. Os tapetes estavam amontoados.

143
As cadeiras estavam viradas de pernas para o ar, os quadros tirados da parede e as fotografias puxadas com violncia das molduras.

- Valha-me Deus! - exclamei. - Mas qual seria a ideia?

- O que lhe parece?

- Algum procurava alguma coisa.

- Precisamente.

Olhei  minha volta e assobiei.

- Mas quem raio poderia... certamente ningum entrava aqui e fazia tudo isto sem ser ouvido... ou visto?

- E por que no? Mrs. Leonides passa a manh no quarto a pintar as unhas e a telefonar s amigas e a experimentar roupas. Philip passa o tempo sentado na biblioteca
de volta dos livros. A ama est na cozinha a descascar batatas e a tirar o fio ao feijo. Numa famlia em que todos conhecem os hbitos uns dos outros no seria
mesmo nada difcil. E digo-lhe mais. Qualquer um desta casa poderia ter feito o trabalhinho... poderia ter armado a cilada  mida e revirado o quarto dela. Mas
era algum com pressa, algum que no tinha tempo para procurar tranquilamente.

- Qualquer um desta casa, diz voc?

- Sim, j verifiquei. Qualquer um deles tem um intervalo de tempo que no consegue justificar. Philip, Magda, a ama, a sua amiga. O mesmo l em cima. Brenda passou
a manh sozinha. Laurence e Eustace fizeram meia hora de intervalo (das dez e trinta s onze)... voc esteve uma parte desse tempo com eles... mas no a totalidade.
Miss de Haviland andou sozinha no jardim. Roger esteve no escritrio.

- S Clemency se encontrava em Londres, a trabalhar.

- No, nem mesmo ela podemos excluir. Ficou em casa hoje com uma dor de cabea... e esteve sozinha no quarto com essa dor de cabea. Qualquer um deles: qualquer
uma destas pessoas! E no sei qual! No fao ideia. Se soubesse o que procuravam aqui...

Os olhos dele giravam em torno do quarto devastado...

- Se ao menos soubesse se o encontraram... Senti-me inquieto... uma lembrana... Taverner reavivou-a ao perguntar-me:

- O que estava a mida a fazer quando a viu pela ltima vez?

144
- Espere - disse-lhe.

Sa disparado do quarto e subi as escadas. Passei pela porta do lado esquerdo do corredor e subi at ao ltimo andar. Empurrei a porta da casa das cisternas, subi
dois degraus, e, curvando a cabea, visto o tecto ser baixo e inclinado, olhei em redor Quando lhe perguntara o que estava ali a fazer, a Josephine referira que
andava a "descobrir".

No via o que num sto com teias de aranha e cheio de depsitos de gua pudesse haver para descobrir. Mas um sto assim proporcionaria um bom esconderijo. Achei
provvel que a Josephine l tivesse escondido algo, algo que sabia perfeitamente no lhe competir ter. Se assim fosse, no demoraria muito a encontr-lo.

Levei apenas trs minutos. Enfiado por detrs do depsito maior, de cujo interior um silvar sibilante conferia um tom misterioso  atmosfera, encontrei um mao de
cartas embrulhado em papel pardo. Li a primeira carta.

Oh, Laurence, meu querido, meu nico e querido amor... Foi maravilhoso ontem  noite quando citaste aqueles versos. Sabia que me eram destinados, apesar de no estares
a olhar para mim. O Aristide disse: "Voc declama muito bem. No adivinhou o que ambos sentamos. Meu querido, estou convencida de que em breve tudo ser como deve.
Ficaremos ambos contentes por ele nunca ter sabido, por morrer feliz. Ele tem sido bom para mim. No quero que sofra. Mas na realidade no sei qual o prazer de viver
depois dos oitenta. Eu no quereria!

No tarda estaremos juntos para sempre. Que maravilhoso ser

quando puder dizer-te: "Meu querido, querido marido...". Meu amor, fomos feitos um para o outro. Amo-te, amo-te, amo-te... no vejo fim para o nosso amor, eu...
Havia muito mais, mas no quis prosseguir.

Carrancudo, desci as escadas e enfiei o mao nas mos de Taverner.
-  possvel - disse-lhe - que o nosso amigo desconhecido andasse  procura disto.

145
Taverner leu alguns excertos, assobiou e vasculhou as diversas cartas.

Depois olhou para mim com a expresso de um gato que se banqueteou com as melhores natas.

- Bem - disse baixinho. - Mrs. Brenda Leonides arranjou-a bonita. Mr. Laurence Brown tambm. Afinal sempre foram eles...

146

CAPTULO DEZANOVE

Parece-me estranha, em retrospectiva, a maneira sbita e completa como a minha pena e compaixo por Brenda Leonides desapareceram com a descoberta das cartas, as
cartas que ela escrevera a Laurence Brown. No conseguiria a minha vaidade aguentar a revelao de que ela amava Laurence Brown com uma paixo melosa e que me mentira
deliberadamente? No sei. No sou psiclogo. Prefiro acreditar que foi a ideia da Josephine, brutalmente agredida, que fez secar a fonte da minha compaixo. - A
meu ver, foi Brown que preparou a armadilha - disse Taverner -, e isso explica o que me deixou intrigado.

- E o que foi que o deixou intrigado?

- Bem,  uma coisa to primria. Olhe, digamos que a mida deitou a mo quelas cartas... cartas essas que so absolutamente condenatrias! O primeiro passo  tentar
reav-las (afinal, se a mida falar delas, no tem provas para apresentar, pode alegar-se que  uma fantasia), mas no  possvel recuper-las porque no se consegue
encontr-las. A nica coisa a fazer  pr a mida fora de campo para sempre. J se cometeu um crime e no custa nada cometer outro.  sabido que ela gosta de se
baloiar numa porta num ptio que no  usado. O ideal seria esperar atrs da porta e atingi-la, assim que entrasse, com um atiador ou uma tranca de ferro, ou um
cano. Tudo isso est ali  disposio. Para qu recorrer a um leo de mrmore equilibrado no cimo de uma porta que muito provavelmente nem sequer lhe acertar, e
que, mesmo que a atinja, pode no resultar como se quer (o que acaba por suceder). Pergunto-lhe: porqu?

- Bem - perguntei -, qual  a resposta?

- A nica ideia que tinha  partida era que se destinava a proporcionar o libi de algum. Esse algum teria um libi muito slido para o momento em que a Josephine
estava a ser atingida. Mas isso no pega, porque, para

147
comear, ningum parece ter qualquer tipo de libi, e em segundo lugar, algum ir  procura da mida  hora do almoo e encontrar a armadilha e o bloco de mrmore,
todo o modos operandi ser bem evidente. Claro que se o assassino tivesse removido o bloco antes de a criana ser encontrada, ento seria esquisito. Mas tal como
se apresenta, isto no tem o menor sentido. Estendeu as mos.

- E qual  a sua explicao actual?

- O elemento pessoal. A idiossincrasia pessoal. A idiossincrasia de Laurence Brown. Ele no gosta de violncia... no consegueforar-se a cometer violncia, fsica.
Literalmente, ele no podia ter estado atrs da porta e agredido a mida na cabea. Mas podia ter preparado a armadilha, indo-se embora para no estar presente quando
funcionasse.

- Sim, estou a ver - respondi lentamente. - Voltamos  eserina no frasco de insulina?

- Precisamente.

- Acha que o fez sem o conhecimento de Brenda?

- Explicaria por que motivo no se desfez do frasco de insulina. Claro que podem ter congeminado tudo entre eles... ou ela pode ter concebido sozinha o truque do
veneno: uma morte fcil e rpida para o seu velho marido cansado e tudo estaria bem no melhor dos mundos possveis! Mas aposto que no foi ela que montou a armadilha.
As mulheres nunca tm muita f no bom funcionamento da mecnica. E esto certas. Pessoalmente, acho que a eserina foi ideia dela, mas obrigou o seu escravo embrutecido
a fazer a troca. Ela  o tipo de pessoa que normalmente consegue evitar ser a prpria a executar qualquer tipo de aco de resultado incerto. Assim, fica de conscincia
tranquila.

Aps uma pausa, prosseguiu:

- Acho que com aquelas cartas o procurador do Ministrio Pblico dir que temos um caso. Vo ter muita coisa para explicar! Depois, se a mida escapar, tudo acabar
bem. - Olhou-me de soslaio. - Qual  a sensao de estar noivo de um milho de libras esterlinas?

Estremeci. Com a excitao das ltimas horas, esquecera-me das revelaes do testamento.

- A Sophia ainda no sabe - referi. - Quer que eu lhe conte?

148
- Creio que Gaitskill vai anunciar as tristes (ou alegres) novas amanh,

[depois do inqurito. - Taverner fez uma pausa e olhou para mim pensativamente.

- Interrogo-me - disse ele - quais iro ser as reaces da famlia...

149

CAPTULO VINTE

O inqurito decorreu praticamente como eu vaticinara. A apresentao das concluses foi adiada a pedido da polcia.

Estvamos animados, pois durante a noite tinham chegado notcias do hospital de que os ferimentos da Josephine eram de muito menor gravidade do que se chegara a
recear e que teria uma recuperao rpida. De momento, afirmara o Dr. Gray, no poderia receber visitas, nem sequer da me.

- Especialmente, no a da me - murmurara-me a Sopha. - Deixei-o bem claro ao Dr. Gray. De qualquer forma, ele conhece a me.

Devo ter posto uma expresso de grande dvida, porque a Sophia proferiu com rispidez:

- Porqu o ar reprovador?

- Bem... sem dvida que uma me...

- Agrada-me constatar que tens algumas ideias bastante antiquadas, Charles. iMas tu ainda no sabes do que a minha me  capaz. Est na sua natureza, no pode evit-lo,
mas haveria sem dvida uma grande cena dramtica. E as cenas dramticas no so nada indicadas para algum que recupera de ferimentos na cabea.

- Pensas em tudo, no  verdade, minha querida?

- Bem, agora que j no temos o av, algum tem de pensar. Lancei-lhe um olhar pensativo. Vi que a perspiccia do velho Leonides

no o abandonara. O manto das suas responsabilidades assentava agora nos ombros da Sophia.

Aps o inqurito, Gaitskill acompanhou-nos no regresso a Three Gables. Pigarreou e anunciou com pompa:

- Tenho algo a comunicar-vos.  meu dever.

Para o efeito, a famlia reuniu-se na sala de estar de Magda. Nesta ocasio

150
tive a sensao bastante agradvel do homem por detrs da cortina. Sabia antecipadamente o que Gaitskill ia anunciar.

Preparei-me para observar as reaces de todos.

Gaitskill foi breve e seco. Controlava muito bem quaisquer sinais de ressentimento e contrariedade. Leu primeiro a carta de Aristide Leonides e depois o testamento
propriamente dito.

Foi muito interessante observar. S desejava poder olhar para todos, simultaneamente.

No prestei grande ateno a Brenda e Laurence, As disposies relativas a Brenda neste testamento eram as mesmas. Observei principalmente Roger e Philip, e s depois
Magda e Clemency.

A minha primeira impresso foi de que reagiram todos muito bem.

Os lbios de Philip estavam fortemente comprimidos, a sua bela cabea inclinada para trs e apoiada na cadeira de espaldar onde se sentara. No falou.

Magda, pelo contrrio, irrompeu num discurso assim que Gaitskill terminou, a sua voz extraordinria a elevar-se acima da tonalidade fraca da voz dele como o fluxo
de uma mar invadindo um riacho.

- Querida Sophia... que extraordinrio... que romntico. Imaginem o Queridinho a ser to arguto e manhoso... tal e qual uma criana. No confiava em ns? Julgava
que iramos ficar zangados? Nunca mostrou preferir a Sophia a ns. Mas, na verdade,  muito teatral.

Subitamente, Magda ps-se em p com ligeireza, avanou com graciosidade at  Sophia e fez-lhe uma grande vnia delicada.

- Madame Sophia, a sua velha me pobrezinha e falida pede-lhe esmola. - A voz dela passou a um queixume em cockney. - D-nos uma moedinha, querida. A sua me quer
ir ao cinema.

A mo dela, enclavinhada, puxava a Sophia com premncia. Philip, sem se mover, sibilou:

- Por favor, Magda, dispensamos as palhaadas.

- Oh, mas Roger - exclamou Magda, virando-se subitamente para Roger. - Meu pobre Roger. O Queridinho ia salvar-te e depois, antes de o fazer, morreu. E agora o Roger
no leva nada. Sophia - virou-se majestosamente -,  imperioso que faas algo pelo Roger.

151
- No - interveio Clemency. Dera um passo. O seu rosto tinha uma expresso provocadora. - Nada. Nada de nada.

Roger avanou desajeitadamente para a Sophia qual urso enorme e pacfico.

Tomou-lhe as mos com afecto.

- No quero um centavo, minha querida. Assim que tudo isto se resolver (ou dissipar, que  o mais provvel), a Clemency e eu partimos para as Antilhas e vamos viver
a nossa vida com simplicidade. Se alguma vez estiver aflito, recorrerei  chefe de famlia - sorriu-lhe de maneira cativante -, mas at l no quero um tosto. Na
verdade, sou uma pessoa muito simples, minha querida... pergunta  Clemency se no  assim.

Inesperadamente ouviu-se uma voz. Era Edith de Haviland.

- Isto est tudo muito certo - disse ela. - Mas no podes esquecer-te de uma coisa. Se falires, Roger, e depois te fores embora para os confins da terra sem que
a Sophia te d uma ajuda, haver muito falatrio maledicente que no ser agradvel para a Sophia.

- E o que importa a opinio pblica? - perguntou Clemency com desdm.

- Sabemos que para ti no importa - respondeu Edith de Haviland com rispidez -, mas a Sophia vive neste mundo.  uma rapariga inteligente e com bom corao, e no
tenho dvidas de que o Aristide estava absolutamente certo ao escolh-la para gerir os destinos da famlia (muito embora passar por cima de dois filhos ainda vivos
possa ser estranho para o nosso modo de estar ingls), mas acho que seria profundamente lamentvel se constasse que ela se portara de forma gananciosa... e que deixara
Roger ir  falncia sem tentar ajud-lo.

Roger acercou-se da tia. Envolveu-a com os braos e abraou-a.

- Tia Edith - disse ele. -  um amor... e uma lutadora obstinada, mas no est a entender. A Clemency e eu sabemos o que queremos... e o que no queremos!

Clemency, com uma mancha sbita de rubor, visvel em cada uma das faces, enfrentou-os a todos, provocadoramente.

- Nenhum de vocs - disse ela - compreende Roger. Nunca o compreenderam! E acho que nunca iro compreend-lo! Vamos, Roger.

152
Abandonaram a sala no momento em que Mr. Gaitskill pigarreou e comeou a arrumar os seus papis. A sua postura era de profunda reprovao. No tinha gostado nada
daquelas cenas. Era notrio. Os meus olhos pousaram finalmente na Sophia. Estava direita e bela ijunto  lareira, o queixo levantado, os olhos firmes. Acabara de
lhe ser deixada uma fortuna imensa, mas o meu principal pensamento era como subitamente ficara sozinha. Erguera-se uma barreira entre ela e a famlia. Dali em diante
estava separada deles, e imaginava que ela j o soubesse e encarasse esse facto. O velho Leonides colocara-lhe um pesado fardo nos ombros - tivera conscincia disso
e ela prpria o sabia. Ele acreditara que os ombros dela eram suficientemente fortes para o suportar, mas naquele preciso momento era indescritvel a pena que sentia
dela. At ali no falara - na realidade, no lhe fora dada qualquer oportunidade, mas muito em breve seria forada a faz-lo. Sentia j, a coberto do afecto da famlia,
a hostilidade latente. At na representao graciosa de Magda estivera implcita, a meu ver, uma subtil malcia. E havia outras correntes subterrneas mais obscuras
que no tinham vindo ainda  superfcie. O sucessivo pigarrear de Mr. Gaitskill deu lugar ao discurso formal e [comedido.

- Permita-me que a congratule, Sophia - disse ele. -  uma mulher muito abastada. No lhe aconselharia qualquer... hum... aco precipitada. Posso adiantar-lhe todo
o dinheiro necessrio para as despesas correntes. Se desejar discutir futuras disposies terei muito prazer em a aconselhar da melhor maneira que me for possvel.
Podemos combinar encontrar-nos em Lincloris Inn, quando tiver tido tempo para pensar no assunto.

- Roger - comeou Edith de Haviland obstinadamente. Mr. Gaitskill apressou-se a intervir.

- Roger - disse ele -, ter de se arranjar sozinho. Ele  um homem adulto... hum... de cinquenta e quatro anos, creio. E Aristide Leonides tinha toda a razo, sabe.
Ele no tem jeito para os negcios. Nunca ter. - Olhou para a Sophia. - Se conseguir reerguer a Associated Catering, no tenha quaisquer iluses de que Roger consiga
fazer uma boa administrao.

- Nem sequer me passaria pela cabea reerguer a Associated Catering
- informou a Sophia.

Falava pela primeira vez. A sua voz era seca e objectiva.

153
- Seria um absurdo faz-lo - acrescentou.

Gaitskill deitou-lhe um olhar e sorriu para si prprio. Depois despediu-se de todos e saiu.

Seguiram-se alguns momentos de silncio, uma constatao de que o crculo familiar estava entregue a si mesmo.

Depois Philip levantou-se, com ar constrangido.

- Tenho de voltar para a biblioteca - anunciou. - Perdi imenso tempo.

- Pai - a Sophia falou com pouca firmeza, quase em tom suplicante. Senti-a estremecer e recuar quando os olhos frios e hostis de Philip a fitaram.

- Perdoar-me-s por no te congratular - disse ele. - Mas isto foi um grande choque para mim. No imaginava que o meu pai pudesse ter-me humilhado tanto - que tivesse
ignorado toda a minha vida de dedicao... sim... de dedicao.

Pela primeira vez, o homem natural irrompeu debaixo da camada de gelo que o refreava.

- Meu Deus! - exclamou. - Como  que ele pde fazer-me isto? Foi sempre to injusto comigo... sempre.

- Oh, no, Philip, no, no deves pensar isso - insurgiu-se Edith de Haviland. - No consideres isto como outro desrespeito. No . Quando as pessoas envelhecem,
normalmente viram-se para a gerao mais jovem... Garanto-te que  apenas isso... e depois, o Aristide possua um sentido muito apurado dos negcios. Muitas vezes
o ouvi dizer que duas sries de imposto sucessrio...

- Ele nunca quis saber de mim - afirmou Philip. - A sua voz era baixa e cava. - Foi sempre o Roger... Roger. Bem, pelo menos - uma expresso extraordinria de despeito
desfigurou subitamente as suas feies perfeitas -, o pai percebeu que o Roger era um tolo e um falhado. Tambm excluiu o Roger.

- E ento eu? - questionou o Eustace.

At ali, mal reparara no Eustace, mas apercebi-me de que tremia com violncia. Tinha o rosto congestionado, havia, pareceu-me, lgrimas nos seus olhos. Estava histrico
e a voz tremia-lhe.

-  uma vergonha! - exclamou o Eustace. - Uma maldita vergonha!

154
Como ousou o av fazer-me isto? Como ousou? Eu era o seu nico neto.

Como ousou trocar-me pela Sophia? No  justo. Odeio-o. Odeio-o. Nunca lhe perdoarei enquanto for vivo. Velho dspota horroroso. Queria que ele [morresse. Queria
sair desta casa. Queria ser dono de mim mesmo. E agora tenho de andar s ordens da Sophia, e fazer figura de parvo. Quem me dera morrer...

Faltou-lhe a voz e saiu precipitadamente da sala.

Edith de Haviland deu um estalido seco com a lngua.

- No tem autocontrolo nenhum - murmurou.

- Sei exactamente o que ele sente - queixou-se Magda.

- Estou certa que sim - comentou Edith com azedume na voz.

- Pobre querido! Tenho de ir falar com ele.

- Ouve, Magda... - Edith correu atrs dela.

As suas vozes foram deixando de se ouvir. A Sophia continuava a olhar para Philip. Havia, creio, uma certa splica no seu olhar E se era sim, no obteve qualquer
resposta. Ele olhou-a friamente, mais uma vez perfeitamente senhor de si.

- Fizeste bem o teu jogo, Sophia - disse, e saiu da sala.

- Que coisa cruel de dizer - afirmei. - Sophia...

Estendeu as mos na minha direco. Tomei-a nos meus braos.

- Isto  de mais para ti, minha querida.

- Sei muito bem o que eles sentem - disse Sophia.

- Aquele velho diabo, o teu av, no devia ter-te metido nisto.

Endireitou os ombros.

- Ele acreditava que eu seria capaz. E sou. Gostaria... gostaria que o Eustace no o levasse to a mal.

- H-de passar-lhe.

- Ser? Duvido. Ele  do tipo terrivelmente cismtico. E detesto que o pai fique magoado.

- A tua me aceitou bem.

- Ela importa-se um pouco. No cai bem ter de vir pedir dinheiro  filha para levar peas  cena. No me vai largar enquanto no a deixar encenar a Edith Thompson.

- E o que vais dizer? Se isso a faz feliz...

A Sophia soltou-se dos meus braos, deitando a cabea para trs.

155
- Vou dizer que No!  uma pea horrvel e a me no poderia desempenhar o papel. Seria deitar dinheiro  rua.

Ri-me baixinho. Foi mais forte do que eu.

- O que ? - perguntou a Sophia, desconfiada.

- Comeo a perceber por que  que o teu av te deixou o dinheiro. So farinha do mesmo saco, Sophia.

156

CAPTULO VINTE E UM

Desta vez, s tinha a lamentar que a Josephine no pudesse estar ali para assistir. Ter-se-ia divertido imenso com aquilo tudo.

A sua recuperao fora rpida e podia voltar a qualquer momento, no obstante, iria perder outro acontecimento importante.

Encontrava-me no jardim de pedra uma manh, com a Sophia e Brenda, quando chegou  porta principal um carro. Taverner e o sargento Lamb apearam-se. Subiram os degraus
e entraram em casa.

Brenda ficou esttica, a olhar para o carro.

- So aqueles homens - disse. - Voltaram, e eu que julgava que eles tinham desistido... pensei que estava tudo acabado.

Vi-a estremecer.

Fora ter connosco h cerca de dez minutos. Envolta no seu casaco de chinchila, dissera: - Se no apanhar ar e fizer exerccio, endoideo. Se transponho o porto,
h sempre algum reprter  espera para me abordar.  como se estivesse cercada. Isto ir continuar para sempre?

A Sophia respondera que possivelmente os reprteres se fartariam.

- Pode sair de carro - acrescentara.

- Estou a dizer que preciso de fazer um pouco de exerccio. Depois perguntara subitamente:

- Vai despedir o Laurence, Sophia. Porqu?

- Estamos a tomar outras providncias para o Eustace - respondera a Sophia tranquilamente. - E a Josephine vai para a Sua.

- Pois isso deixou o Laurence muito magoado. Acha que no confia nele.

A Sophia no respondeu e foi naquele momento que o carro de Taverner chegara.

157
Ali parada, tremendo com o ar hmido de Outono, Brenda murmurou:
- O que querem eles? Por que vieram?

Julguei saber a razo da vinda deles. Ocultara  Sophia as cartas que encontrara ao p da cisterna, mas sabia que tinham ido parar s mos do procurador do Ministrio
Pblico.

Taverner voltou a sair da casa. Atravessou o caminho e o relvado na nossa direco. Brenda estremeceu com ainda maior violncia.

- O que pretende ele? - repetiu, com nervosismo. - O que pretende ele?

Taverner chegara j ao p de ns. Falou sucintamente no seu tom profissional, usando as expresses oficiais.

- Tenho em meu poder um mandato para a sua priso:  acusada de ministrar eserina a Aristide Leonides no passado dia 19 de Setembro, Devo avis-la de que tudo o
que disser pode ser usado contra si em tribunal.

E depois Brenda desfez-se. Gritou. Agarrou-se a mim. Exclamou: - No, no, no, no  verdade! Charles, diga-lhes que no  verdade! No fui eu. No sei nada sobre
isso. No passa de uma armadilha. No deixe que eles me levem. No  verdade, garanto-lhe... No  verdade... No fiz nada...

Foi horrvel... incrivelmente horrvel. Procurei acalm-la, retirei os dedos dela do meu brao. Disse-lhe que lhe arranjaria um advogado, que deveria manter a calma,
que um advogado trataria de tudo...

Taverner segurou-a delicadamente pelo cotovelo.

- Venha, Mrs. Leonides - disse. - Quer um chapu? No. Ento venha j comigo.

Ela soltou-se, fitando-o com enormes olhos felinos.

- E o Laurence? - perguntou. - O que fizeram ao Laurence?

- Mr. Laurence Brown tambm se encontra detido - informou Taverner.

Ento vacilou. O seu corpo pareceu ceder e encolher. As lgrimas desciam-lhe pelo rosto. Foi conduzida por Taverner at ao carro, em silncio. Vi Laurence Brown
e o sargento Lamb sarem de casa. Entraram todos no carro. Este afastou-se.

Respirei fundo e virei-me para a Sophia. Estava muito plida e havia uma expresso de aflio no seu rosto.

-  horrvel, Charles - articulou. -  absolutamente horrvel.

158
- Bem sei.

- Tens de lhe arranjar um advogado de primeira... o melhor que houver.

Ela... ela deve ter toda a ajuda possvel.

- Nunca sabemos bem - disse-lhe - como so estas coisas. Nunca tinha visto ningum ser preso.
 - Eu sei. No imaginamos.

Ficmos ambos em silncio. Estava a pensar no terror desesperado no rosto de Brenda. Parecera-me familiar, e subitamente percebi porqu. Era a mesma expresso que
vira no rosto de Magda Leonides no primeiro dia em que entrara na Casa Torta, quando ela estivera a falar da pea sobre Edith Thompson.

"E depois, dissera ela, apenas terror, no lhe parece? Apenas terror - eis o que vira no rosto de Brenda. No era uma lutadora. Perguntei a mim prprio se alguma
vez tivera coragem de matar Mas  possvel que no. Provavelmente fora Laurence Brown, com a sua mania da perseguio, a sua personalidade instvel, que trocara
o contedo dos frasquinhos (um acto simples e fci) para libertar a mulher que amava.

- Acabou-se - comentou a Sophia. Suspirou fundo.

- Mas por que vieram prend-los agora? - perguntou. - Julguei que no existissem provas suficientes.

- Apareceram umas quantas provas. Cartas.
- Ests a falar de cartas de amor entre eles?
 - Sim.

- Que estupidez as pessoas guardarem essas coisas!

- Sim, de facto. Que estupidez. O tipo de estupidez que nunca leva a que se aprenda com a experincia dos outros. No se pode abrir um jornal sem se encontrar um
exemplo dessa estupidez... a paixo de guardar as palavras escritas, a garantia escrita do amor.

-  bastante desagradvel, Sophia - comentei. - Mas no vale a pena preocuparmo-nos. Afinal, no temos estado  espera de outra coisa, pois no? Foi o que disseste
naquela primeira noite, na Mrios. Afirmaste que no teria importncia desde que a pessoa certa tivesse assassinado o teu av. Brenda era a pessoa certa, no era?
Brenda ou Laurence?

- No me faas sentir ainda pior, Charles.

159
- Mas temos de ser sensatos. Agora podemos casar, Sophia. No podes continuar a afastar-me. A famlia Leonides est fora disto.

Ela olhou-me. Nunca antes me apercebera do tom azul-vivo dos seus olhos.

- Sim - disse. - Parece que agora estamos fora disto. Estamos fora, no estamos? Tens a certeza?

- Minha querida, nenhum de vocs tinha qualquer motivo. Subitamente, o rosto dela empalideceu.

- Excepto eu, Charles. Eu tinha um motivo.

- Sim, claro - fiquei siderado. - Mas, na verdade, no. Tu no sabias do testamento, no ?

- Por acaso, sabia, Charles - murmurou.

- O qu? - fitei-a. Senti repentinamente frio.
 - Sempre soube que o av ia deixar-me o dinheiro.

- Mas como?

- Ele disse-me. Cerca de quinze dias antes de ser morto. Disse-me assim de repente: "Deixei-te todo o meu dinheiro, Sophia. Ters de cuidar da famlia quando eu
me for".

Olhei-a.

- Nunca me disseste.

- No. Sabes, quando todos explicaram o que acontecera com o testamento e a sua assinatura, pensei que talvez ele se tivesse enganado... que estivesse apenas a imaginar
que me deixara tudo. Ou que talvez tivesse feito um testamento que me contemplaria, e depois se extraviara e nunca iria aparecer. Eu no queria que aparecesse...
tinha receio.

- Receio? Porqu?

- Acho que... por causa do crime.

Recordei o terror no rosto de Brenda... o pnico irracional puro. Lembrei-me do pnico absoluto que Magda invocara livremente quando pensara na hiptese de representar
o papel de assassina. No haveria pnico na mente da Sophia, mas ela era realista, e conseguira ver que o testamento de Leonides a tornava suspeita. Compreendia
melhor agora (ou julgava compreender) a recusa em se comprometer comigo e a insistncia para que eu descobrisse a verdade. Nada seno a verdade, dissera, lhe serviria.
Recordei a paixo, a sinceridade com que o proferira.

160
Havamos tomado o caminho de regresso a casa e subitamente, num determinado lugar, recordei algo mais que ela dissera.

Dissera que se achava capaz de assassinar algum, mas nesse caso, acrescentara, teria de ser por algo que valesse realmente a pena.

161

CAPTULO VINTE E Dois

Ao contornarmos uma curva do jardim de pedra, vimos Roger e Clemency caminhando apressadamente na nossa direco. A roupa prtica ficava melhor a Roger do que o
fato e gravata. Trazia uma expresso ansiosa e excitada. Clemency vinha de cenho carregado.

- Ainda bem que os encontro - disse Roger. - Finalmente! Julguei que nunca mais fossem prender aquela mulher horrorosa. No sei do que estavam  espera. Bem, agora
j foi detida... mais aquele seu namorado miservel... e espero que os enforquem.

A expresso de Clemency carregou-se ainda mais.

- No sejas to grosseiro, Roger - disse.

- Grosseiro? Tolice! Envenenar deliberadamente a sangue-frio um velho indefeso e confiante... e quando fico contente por os assassinos terem sido apanhados e irem
pagar pelo que fizeram, dizes que sou grosseiro! Pois digo-te que de bom grado estrangularia aquela mulher com as minhas prprias mos.

"Ela estava contigo, no estava - acrescentou -, quando a polcia veio prend-la? Como foi que reagiu?

- Foi horrvel - respondeu a Sophia com voz sumida. - Ela estava apavorada.

- Bem feito.

- No sejas vingativo - admoestou Clemency.

- Oh, eu sei, minha querida, mas tu no podes compreender. No foi o teu pai. Eu amava o meu pai. No compreendes? Amava-o!

- J devia compreender, nesta altura - contraps Clemency.

- No tens imaginao, Clemency - retorquiu-lhe Roger, em tom semijocoso. - Supe que eu  que tinha sido envenenado...

162
Reparei que baixou o olhar rapidamente e as mos se crisparam um pouco. Falou com rispidez: - No digas isso nem a brincar.

- No te preocupes, querida, no tarda estamos longe de tudo isto. Encaminhmo-nos para a casa. Roger e a Sophia seguiam  frente e Clemency e eu vnhamos na retaguarda.

- Suponho que agora... eles nos deixem partir? - disse ela.

- Est assim to ansiosa por se ir embora? - perguntei-lhe.

- Isto est a dar cabo de mim.

Olhei-a, surpreendido. O seu olhar cruzou-se com o meu, com um leve sorriso desesperado e um aceno da cabea.

- Ainda no percebeu, Charles, que tenho lutado o tempo todo? Lutado pela minha felicidade. Pela do Roger. Tenho temido tanto que a famlia o persuada a ficar em
Inglaterra. Que fiquemos enredados no meio deles, sufocados pelos laos familiares. Receava que a Sophia lhe propusesse uma renda e que ele ficasse em Inglaterra
porque isso implicaria maior conforto e comodidades para mim. O problema do Roger  que ele no d ouvidos. Metem-se-lhe as ideias na cabea... e nunca so as ideias
acertadas. Ele no sabe nada. E  suficientemente um Leonides para pensar que, para uma mulher, a felicidade est associada ao conforto e ao dinheiro. Mas lutarei
pela minha felicidade... pode crer. Tirarei o Roger daqui e dar-lhe-ei a vida que mais lhe convm e em que no se sinta um falhado. Quero-o para mim... [longe deles
todos... se possvel, j...

Falara em tom baixo e apressado, com um desespero que me surpreendeu. Nunca me apercebera do quanto estava enervada. Tambm no me [apercebera do desespero e da
possessividade nos seus sentimentos em relao a Roger.

Fez-me lembrar as estranhas palavras de Edith de Haviland. Conferira uma entoao especial  frase "mas tenha cuidado com esta minha idolatria". Perguntei a mim
prprio se estaria a pensar em Clemency.

Para mim, Roger amara o pai mais do que alguma vez amara algum, mais ainda do que a mulher, apesar de lhe ser dedicado. Apercebi-me, pela primeira vez, da urgncia
do desejo de Clemency em ter o marido para si. Vi que o amor por Roger era toda a razo da sua existncia. Ele era o seu filho, o marido e o amante.

Um carro aproximou-se da porta principal.

163
- Ol - disse eu. - Temos a Josephine de volta.

A Josephine e a Magda saram do carro. A Josephine trazia uma ligadura na cabea, mas de resto parecia extraordinariamente bem.

- Quero ver o meu peixinho dourado - anunciou logo, e correu direita a ns e ao lago.

- Querida - chamou Magda -,  melhor entrares primeiro e deitares-te um pouco, e tomar talvez uma sopa nutritiva.

- No te preocupes, me... estou perfeitamente bem, e detesto sopa nutritiva.

Magda pareceu hesitante. Sabia que a Josephine j estava em condies de sair do hospital h alguns dias, e que fora apenas por sugesto de Taverner que permanecera
l. No queria correr riscos com a segurana da Josephine at as suas suspeitas se dissiparem por completo.

- Penso que o ar livre lhe far bem - comentei com Magda. - Eu estarei atento a ela.

Alcancei a Josephine antes de ela chegar ao lago.

- Aconteceram as mais variadas coisas enquanto estiveste ausente informei-a.

A Josephine no respondeu. Espreitava com os olhos semicerrados para dentro do lago.

- No vejo o Ferdinand - disse ela.

- Qual  o Ferdinand?

- Aquele com as quatro caudas.

- Aquela variedade  bastante divertida. Gosto daquele dourado vivo.

-  bastante vulgar.

- No acho muita piada quele branco desbotado. A Josephine deitou-me um olhar de desprezo.

-  um shebunkin. So muito caros... muito mais do que o dourado.

- No ests interessada em saber o que aconteceu, Josephine?

- Creio que j o sei.

- Sabias que foi encontrado outro testamento e que o teu av deixou todo o dinheiro  Sophia?

A Josephine anuiu com ar um pouco enfadado.

- A me contou-me. De qualquer forma, j sabia.

- Queres dizer que o soubeste no hospital?

164
- No, quero dizer que sabia que o av deixara o dinheiro  Sophia.

Ouvi-o dizer-lho.

- Estiveste a escutar outra vez?

- Sim. Gosto de escutar.

- Isso  muito feio, e no te esqueas: quem escuta de si ouve. A Josephine deitou-me um olhar singular.

- Ouvi o que ele lhe disse de mim, se  isso que quer saber.

"A Nannie fica furiosa se me apanha a escutar atrs das portas - acrescentou. - Diz que no  o tipo de coisa que uma pequena dama faz.

- Ela tem toda a razo.

- Ora bolas! - exclamou a Josephine. - J ningum  uma dama, hoje em dia. Disseram-no no Brains Trust. Disseram que era ob-so-le-to. - Pronunciou cuidadosamente
a palavra.

Mudei de assunto.

- Chegaste um pouco tarde para o grande acontecimento - comuniquei-lhe. - O inspector-chefe Taverner prendeu Brenda e Laurence.

Esperava que a Josephine, no papel de jovem detective, fosse ficar encantada com esta informao, mas limitou-se a repetir no seu enfurecedor modo enfadado:

- Sim, eu sei.

- No podes saber. Acabou de acontecer.

- O carro passou por ns na estrada. O inspector Taverner e o detective de sapatos de camura iam l dentro com a Brenda e o Laurence, por isso calculei que tivessem
sido presos. Espero que tenham o castigo que merecem.  preciso, sabe.

Garanti-lhe que Taverner agira estritamente de acordo com as regras.

- Tive de lhe falar das cartas - desculpei-me. - Encontrei-as atrs da cisterna. Devias ter sido tu a contar-lhe, mas tinhas sido agredida.
 A Josephine levou a mo  cabea cuidadosamente. - Era suposto eu ter morrido - afirmou com complacncia. - Eu disse-lhe que estava na altura do segundo crime.
A cisterna foi um lugar pssimo para esconder aquelas cartas. Imaginei logo, quando vi o Laurence sair de l um dia. Quero dizer, ele no  um homem til que mexa
em vlvulas, canos ou fusveis, por isso calculei que tivesse ido esconder alguma [coisa.

165
- Mas julguei - interrompi-me quando a voz de Edith de Haviland chamou em tom autoritrio:

- Josephine, Josephine, vem c imediatamente. Josephine suspirou.

- Mais chatices - disse. - Mas  melhor eu ir. Tenho de obedecer, tratando-se da tia Edith.

Correu pelo relvado. Segui-a mais devagar.

Aps uma breve troca de palavras, a Josephine entrou em casa. Reuni-me a Edith de Haviland no terrao.

Naquela manh aparentava mesmo a idade que tinha. Surpreenderam-me as rugas de cansao e sofrimento no rosto dela. Parecia exausta e derrotada. Viu a preocupao
no meu rosto e tentou sorrir

- Aquela criana nem parece que teve um acidente - comentou. Temos de cuidar melhor dela no futuro. Ainda assim... suponho que agora no ser necessrio?

Suspirou e disse:

- Ainda bem que terminou. Que espectculo! Se se  preso por assassnio, pelo menos podia mostrar-se alguma dignidade. No tenho pacincia para pessoas como a Brenda,
que desfalecem e guincham. No tm coragem, essas pessoas. O Laurence Brown parecia um coelho assustado.

Cresceu em mim um obscuro instinto de piedade.

- Pobres diabos - comentei.

- Sim... pobres diabos. Ela ter o bom senso de cuidar de si mesma, suponho? Refiro-me aos advogados certos... todo esse tipo de coisa.

Era estranha, pensei, a antipatia que todos sentiam por Brenda, e a sua preocupao escrupulosa com que tivesse todas as hipteses de se defender. Edith de Haviland
prosseguiu:

- Quanto tempo demorar? Quanto tempo demorar tudo isto?
 Respondi-lhe que no sabia ao certo. Trs ou quatro meses, estimava...

se fosse condenada, haveria o recurso.

- Acha que eles vo ser condenados? - perguntou-me.

- No sei. No sei ao certo de que provas a polcia dispe. Existem cartas.

- Cartas de amor. Ento sempre eram cartas de amor?

- Eles estavam apaixonados um pelo outro.

166
O rosto dela ficou mais carrancudo.

- Isto no me agrada nada, Charles. No gosto da Brenda. No passado, detestei-a muito. Disse-lhe coisas desagradveis. Mas agora... sinto que quero que ela tenha
todas as oportunidades. O Aristide teria querido isso. Compete-me zelar... que a Brenda seja tratada com lealdade.
- E Laurence?

- Oh, o Laurence! - encolheu os ombros com impacincia. - Os homens que olhem por si mesmos. Mas o Aristide nunca nos perdoaria se...

Deixou a frase a meio. Depois afirmou:

- Deve estar na hora do almoo.  melhor entrarmos. Expliquei-lhe que ia para Londres.

- No seu carro?

- Sim.

- Hum... importava-se de me levar consigo? Presumo que agora j nos possamos ausentar.

- Claro que levo, mas creio que Magda e a Sophia vo sair aps o almoo. Ir mais confortvel com elas do que no meu dois lugares.

- No quero ir com elas. Leve-me consigo, e no abra a boca sobre o assunto.

Fiquei surpreendido, mas acedi ao seu pedido. No falmos muito no caminho at  cidade. Perguntei-lhe onde queria que a deixasse.

- Em Harley Street.

Senti uma ligeira apreenso, mas no disse nada. Ela continuou:

- No,  demasiado cedo. Deixe-me no Debenhams. Posso almoar por l e depois vou para Harley Street.

- Espero... - comecei e parei.

- Por isso no quis vir com a Magda. Ela dramatiza tudo. Muito alarido.

- Lamento imenso - disse-lhe.

- No lamente. Tive uma boa vida. Uma vida muito boa. - Esboou um sorriso subitamente. - E ainda no terminou.

167

CAPTULO VINTE E TRS

J h uns dias que no via o meu pai. Encontrei-o ocupado com outros assuntos que no respeitavam ao caso Leonides, e parti em busca de Taverner.

Este aproveitava um curto momento de lazer e estava desejoso de sair e ir tomar uma bebida comigo. Felicitei-o por ter deslindado o caso e ele aceitou a congratulao,
mas os seus modos estavam longe de ser jubilosos.

- Bem, acabou - disse ele. - Temos caso. Ningum pode negar que temos caso.

- Acha que conseguir uma condenao?

-  impossvel dizer. As provas so circunstanciais... sucede quase sempre assim num caso de assassnio... pode ser. Depende imenso da impresso que causarem ao
jri.

- At que ponto so as cartas comprometedoras?

-  primeira vista, Charles, so bastante comprometedoras. Existem referncias a uma vida em comum, quando o marido dela morrer. Frases como "j no falta muito,
agora". Ateno, o advogado de defesa ir tentar dar a volta... o marido era to velho que s seria de esperar que morresse. No  feita qualquer meno concreta
a envenenamento, no ali, o preto no branco, mas h alguns passos que poderiam deixar entrever isso. Depende do juiz. Se for o velho Carberry, no ter piedade deles.
Sempre foi muito inflexvel com o amor ilcito. Suponho que escolham o Eagles ou o Humphrey Carr para a defesa... o Humphrey  magnfico nestes casos, mas gosta
de uma boa folha de servio na guerra ou algo dessa natureza para o ajudar na argumentao. Um objector de conscincia vai limitar-lhe o campo de aco. A questo
ser se o jri vai gostar deles. Com os jris, nunca se sabe. Veja, Charles, aqueles dois no so figuras muito simpticas. Ela  uma mulher bem-parecida que casou
com um homem rico pelo dinheiro dele, e Bronn 

168
um objector de conscincia neurtico. No entanto, o crime  to familiar... i to de acordo com o padro, que realmente custa a acreditar que foram eles. Claro que
podem decidir que foi ele e ela nada sabia do assunto... ou, em alternativa, que foi ela e ele desconhecia... ou podem decidir que estavam ambos metidos nisto.

- E qual  a sua opinio pessoal?
Olhou-me com um rosto inexpressivo.

- Eu no tenho opinio. Apresentei os factos e eles foram para o promotor do Ministrio Pblico e foi decidido que havia matria para prosseguir.  tudo. Cumpri
o meu dever e estou fora. Por isso, agora j sabe, Charles.

Mas eu no sabia. Via que, por algum motivo, Taverner estava descontente.

S passados trs dias  que desabafei com o meu pai. Ele prprio nunca me mencionara o caso. Existia uma espcie de reserva entre ns... e eu julgava saber a razo
de tal. Mas tinha de derrubar aquela barreira.

- Temos de deslindar isto - disse-lhe. - Taverner no est satisfeito por terem sido aqueles dois os autores... e o senhor tambm no est satisfeito.

O meu pai abanou a cabea. Repetiu as palavras de Taverner: - J no est nas nossas mos. H um processo aberto. Disso no existe a menor dvida.

- Mas o senhor no acha... e o Taverner no acha... que eles so culpados?

- Isso cabe ao jri decidir.

- Por amor de Deus - protestei -, no me venha com termos tcnicos. O que pensam, ambos, pessoalmente?

- A minha opinio pessoal no  melhor do que a tua, Charles.

-  sim. O pai tem mais experincia.

- Nesse caso, serei honesto contigo. No sei... pronto!

- Eles poderiam ser culpados?

- Oh, sim.

- Mas no tem a certeza de que sejam? O meu pai encolheu os ombros.

- Como pode algum ter a certeza?

169
- No fuja  pergunta, pai. J teve a certeza de outras vezes, no teve? A certeza absoluta? Nem uma s dvida no esprito?

- Por vezes, sim. Nem sempre.

- Peo a Deus que esteja certo desta vez.

- Tambm eu.

Ficmos em silncio. Estava a pensar naquelas duas figuras, vindas furtivamente do jardim ao entardecer Ss, acossados e receosos. Tinham receado desde o princpio.
No constitua isso prova de uma conscincia pesada?

Mas fui eu prprio que dei a resposta: - No necessariamente. - Tanto Brenda como Laurence receavam a vida... no tinham confiana em si mesmos, na sua capacidade
de evitar o perigo e a derrota, e viam, com demasiada clareza, o padro do amor ilcito conducente ao crime que poderia envolv-los a qualquer momento.

O meu pai falou, e a sua voz era circunspecta e generosa:

- Vamos, Charles - disse -, enfrentemos a questo. Ainda insistes, no  verdade, em que o verdadeiro culpado  um membro da famlia Leonides?

- No propriamente. S estranho...

- Pensas, sim. Podes estar errado, mas  o que pensas.

- Sim - confirmei.

- Porqu?

- Porque - pensei no assunto, procurando ver com clareza, pr a minha inteligncia a funcionar... (sim, era isso) -, porque eles prprios o pensam.

- Eles prprios o pensam? Que interessante. Muito interessante. Queres dizer que eles desconfiam uns dos outros, ou que eles sabem, efectivamente, quem foi?

- No tenho a certeza - respondi. - Est tudo muito nebuloso e confuso. Penso que... de um modo geral... eles tentam esconder de si prprios o que sabem.

O meu pai anuiu.

- No Roger - contrapus. - Roger est plenamente convencido de que foi Brenda e deseja sinceramente v-la enforcada. ...  um alvio estar com Roger, porque ele
 simples e positivo e, l no fundo, no tem quaisquer reservas.

170
"Mas os outros pem-se com evasivas, esto constrangidos... insistem comigo para que Brenda tenha a melhor defesa... para que lhe sejam proporcionados todos os benefcios
possveis... porqu?

- Porque, no seu ntimo, eles no acreditam realmente que ela seja culpada... - respondeu o meu pai. - Sim,  plausvel.

Depois perguntou tranquilamente:

- Quem poderia ter sido? Falaste com eles todos? Quem  a melhor aposta?

- No sei - respondi. - E isso est a deixar-me louco. Nenhum deles se encaixa no seu "perfil do assassino", e no entanto sinto... sinto... que um deles  um assassino.

- A Sophia?

- No. Por Deus, no!

- Essa possibilidade j te passou pela cabea, Charles... sim, j, no o negues. E com maior fora ainda porque no queres admiti-la. E ento os outros? Philip?

- S pelo motivo mais fantstico.

- Os motivos podem ser fantsticos... ou podem ser absurdamente ligeiros. Qual o motivo dele?

- Sentia um tremendo cime de Roger... toda a vida o sentira. A preferncia do pai por Roger fez com que Philip se fechasse em si mesmo. Roger estava prestes a ir
 falncia, depois o velhote teve conhecimento disso. Prometeu reerguer Roger. Suponhamos que Philip soube. Se o velhote morresse naquela noite no poderia ajudar
Roger. E Roger afundar-se-ia. Oh! Eu sei que  absurdo...

- Oh, no, no .  anormal, mas acontece.  humano. E ento Magda?

-  bastante infantil. V... v as coisas fora das propores. Mas nunca pensaria duas vezes que estava envolvida no fosse a forma sbita como quis despachar a
Josephine para a Sua. No pude deixar de sentir que ela receava algo que a Josephine soubesse ou pudesse contar...

- E depois a Josephine foi agredida na cabea?

- Bem, no pode ter sido a me!

- Por que no?

- Mas pai, uma me no...

- Charles, Charles, nunca ls as notcias da polcia? Quantas vezes uma

171
me no alberga uma averso por um dos seus filhos. Apenas um... ela pode ser dedicada aos outros. Existe alguma associao, alguma razo, mas muitas vezes  difcil
chegar l. Mas quando existe,  uma averso irracional, e  muito forte.

- Ela chamava patinho feio  Josephine - admiti, contrafeito.

- E a mida importava-se?

- No creio.

- Quem se segue? Roger?

- Roger no matou o pai. Tenho a certeza absoluta disso.

- Ento exclui-se Roger. A mulher dele... como  o nome dela... Clemency?

- Sim - confirmei. - Se ela matou o velho Leonides foi por uma razo muito estranha.

Contei-lhe a minha conversa com Clemency. Referi que achava possvel que, no seu desejo de levar Roger para fora de Inglaterra, ela pudesse ter envenenado deliberadamente
o velho.

- Ela persuadiu Roger a ir-se embora sem contar ao pai. Depois o velhote descobriu. Ia reforar a Associated Catering. Todos os planos e esperanas de Clemency iriam
por gua abaixo. E preocupa-se desesperadamente com Roger... vai alm da idolatria.

- Ests a repetir o que Edith de Haviland disse!

- Sim. E Edith  outra pessoa que penso que... pode t-lo feito. Mas no sei porqu. S posso acreditar que, pelo que ela considera uma razo boa e suficiente, tivesse
eventualmente feito justia pelas suas prprias mos. Ela  esse tipo de pessoa.

- E estava tambm muito ansiosa por que Brenda tivesse uma defesa adequada?

- Sim. Acho que isso pode chamar-se conscincia. No penso por um s instante que, se ela o fez, pretendesse que eles fossem acusados do crime.

- Provavelmente no. Mas seria capaz de fazer mal  Josephine?

- No - respondi com lentido. - No acredito. A propsito, houve algo que a Josephine afirmou que no me sai da cabea, e no consigo lembrar-me do que . Fugiu-me.
Mas  algo que no se encaixa no stio certo. Se ao menos conseguisse recordar-me...

- Deixa l. H-de voltar. Tens alguma coisa ou mais algum em mente?

172
- O Eustace?

- Sim. Quanto mais penso nisso, mais se me afigura que o Eustace poderia reunir as condies. A sua averso e ressentimento pelo av. A sua atitude estranha e a
melancolia. Ele no  normal.

- Ele  o nico da famlia que vejo a provocar o acidente da Josephine com bastante frieza se ela soubesse algo a seu respeito... e  muito provvel que ela saiba.
Aquela criana sabe tudo. Ela aponta tudo num caderninho...

Calei-me.

- Meu Deus! - exclamei. - Que tolo fui!

- O que se passa?

- Agora sei o que estava errado. Presumimos, Taverner e eu, que o motivo da desarrumao do quarto da Josephine, da busca frentica, eram as cartas. Julguei que
se apossara delas e que as escondera na casa das cisternas. Mas quando ela estava a conversar comigo no outro dia, deixou bem claro que fora Laurence que as escondera
ali. Vira-o sair da casa das cisternas e fora bisbilhotar e encontrara as cartas. Claro que depois as lera. Olha quem! Mas deixou-as ficar onde estavam.

- E ento?

- No est a ver? No podia ser das cartas que andavam  procura no quarto da Josephine. Devia ser de outra coisa.

- E essa coisa...

- Era o caderninho preto onde ela anota as suas "descobertas". Era disso que andavam  procura! Tambm acho que quem quer que fosse no o encontrou. Acho que ajosephine
ainda o tem em seu poder. Mas nesse caso...

Soergui-me.

- Nesse caso - concluiu o meu pai -, ela ainda no est segura. Era isso que ias a dizer?

- Sim. Ela no estar livre de perigo enquanto no partir para a Sua. Esto a planear envi-la para l, sabes.

- E ela quer ir? Reflecti.

- Acho que no.

- Portanto, provavelmente ainda no partiu - disse o meu pai, secamente. - Mas acho que ests certo em relao ao perigo.  melhor ires at l.

173
- O Eustace? - gritei desesperado. - Clemency?

- No meu esprito, os factos apontam nitidamente numa direco... disse o meu pai com serenidade. - Espanta-me que no o vejas. Eu...

Glover abriu a porta.

- Peo desculpa, Mr. Charles, o telefone. Miss Leonides de Swinly Dean.  urgente.

Parecia uma repetio horrvel. Fora a Josephine novamente vtima? Lograra desta vez o assassino os seus intentos? Corri para o telefone.

- Sophia?  o Charles.

A voz da Sophia chegou com uma espcie de desespero contido. Charles, ainda no acabou. O assassino ainda c est.

- O que diabo queres dizer? O que se passa? ... a Josephine?

- No foi a Josephine. Foi a Nannie.

- Nannie?

- Sim, havia cacau... o cacau da Josephine, ela no o bebeu. Deixou-o em cima da mesa. A Nannie achou uma pena desperdi-lo. Ento bebeu-o.

- Pobre Nannie. Est muito mal? A voz da Sophia falhou.

- Oh, Charles, ela morreu.

174

CAPTULO VINTE E QUATRO

Estamos novamente a viver o pesadelo.

Foi o que pensei ao sair de Londres na companhia de Taverner. Era uma repetio da nossa primeira viagem.

De onde em onde, Taverner praguejava.

Quanto a mim, repetia de tempos a tempos, estpida e inutilmente: Afinal no foi Brenda nem Laurence. No foi Brenda nem Laurence.

Teria realmente pensado que tinham sido? Ficara to satisfeito por o pensar. To satisfeito por afastar outras hipteses muito mais sinistras...

Tinham-se apaixonado um pelo outro. Tinham escrito cartas romnticas estpidas um ao outro. Tinham acalentado esperanas de que o marido idoso de Brenda morresse
em breve, tranquilamente e feliz - mas interrogava-me realmente se haviam desejado intensamente a sua morte. Sentia que os desesperos e anseios de uma relao amorosa
infeliz lhes servia to bem ou melhor do que a trivialidade da vida de casados. No me parecia que Brenda fosse realmente uma mulher arrebatada. Era demasiado anmica,
demasiado aptica. Ansiava por romance. E pareceu-me que tambm Laurence seria o tipo de pessoa para desfrutar da frustrao e de sonhos vagos de futura felicidade
em vez da satisfao concreta da carne.

Haviam sido apanhados numa armadilha e, aterrados, faltara-lhes o engenho para darem com a sada. Laurence, com incrvel estupidez, nem sequer destrura as cartas
de Brenda. Era de presumir que Brenda tivesse destrudo as dele, uma vez que no haviam sido encontradas. E no fora Laurence quem colocara o travo de porta em
mrmore na porta da arrecadao. Fora outra pessoa cujo rosto continuava a esconder-se por detrs de uma mscara.

Chegmos  porta de casa. Taverner saiu e eu segui-o. Havia um homem  paisana no trio que no reconheci. Saudou Taverner e Taverner afastou-o.

175
A minha ateno foi trada por um monte de bagagem na entrada. Estava etiquetada e pronta a seguir. Enquanto olhava para ela, Clemency desceu as escadas e passou
pela porta aberta ao fundo. Trazia o mesmo vestido vermelho com um casaco de xadrez por cima e um chapu de feltro vermelho.

- Chegou a tempo de se despedir, Charles - disse ela.

- Vo-se embora?

- Vamos ficar em Londres esta noite. O nosso avio parte amanh de manhzinha.

Parecia tranquila e sorridente, mas pareceu-me que os seus olhos estavam atentos.

- Mas certamente no pode partir agora.

- Por que no? - Havia dureza na voz dela.

- Com esta morte...

- A morte da Nannie no tem nada a ver connosco.

- Talvez no. Mas ainda assim...

- Por que diz "talvez no"? No tem nada a ver connosco. O Roger e eu temos estado l em cima a acabar de fazer as malas. No descemos durante o tempo todo que o
cacau ficou em cima da mesa da entrada.

- Pode prov-lo?

- Posso responder pelo Roger. E o Roger pode responder por mim.

- S isso... So marido e mulher, no se esquea.
 A raiva dela extravasou.

- Voc  impossvel, Charles! O Roger e eu estamos de partida... vamos viver a nossa vida. Por que diabo haveramos de envenenar uma velha tonta e simptica que
nunca nos fez mal nenhum?

- Podiam no querer envenen-la a ela.

- E muito menos iramos envenenar uma criana. ''

- Isso depende muito da criana, no depende?

- Aonde quer chegar?

- A Josephine no  propriamente uma criana vulgar. Ela sabe imenso a respeito das pessoas. Ela...

Calei-me. A Josephine aparecera  porta que dava para a sala de estar. Estava a comer a inevitvel ma, e espreitando por cima da sua redondez vermelha, os olhos
brilhavam-lhe com uma espcie de prazer macabro.

176
- A Nannie foi envenenada - disse. - Talvez como o av.  tremendamente excitante, no ?

- E isso no te incomoda nada? - perguntei-lhe em tom severo. Gostavas dela, no gostavas?

- Nem por isso. Ela estava sempre a ralhar comigo por isto ou por aquilo. Era uma chata.

- E tu gostas de algum, Josephine? - inquiriu Clemency. A Josephine volveu os seus olhos macabros para Clemency.

- Gosto da tia Edith - disse ela. - Adoro a tia Edith. E poderia gostar do Eustace, s que ele  sempre um bruto comigo e no est interessado em descobrir quem
causou tudo isto.

-  melhor parares com as descobertas, Josephine - adverti-a. - No  muito seguro.

- No preciso de descobrir mais nada - respondeu a Josephine. - Eu sei.

Seguiu-se um momento de silncio. Os olhos da Josephine, srios e sem pestanejar, estavam fixos em Clemency. Chegou-me aos ouvidos o som do que parecia um longo
suspiro. Virei-me bruscamente. Edith de Haviland encontrava-se a meio da escada - mas no me pareceu que tivesse suspirado. O som partira de trs da porta por onde
a Josephine acabara de sair.

Dirigi-me rapidamente para l e escancarei-a. No se via ningum.

Todavia, fiquei seriamente incomodado. Algum estivera atrs daquela porta e escutara as palavras da Josephine. Voltei atrs e agarrei a Josephine pelo brao. Estava
a comer a sua ma e a olhar impassvel para Clemency. Pareceu-me detectar uma certa satisfao maldosa por detrs da impassividade.

- Anda, Josephine - disse-lhe. - Vamos ter uma conversinha.

Julguei que a Josephine fosse protestar, mas no toleraria qualquer disparate. Empurrei-a at  sua parte da casa. Havia uma saleta de estar que no era usada, e
onde em princpio poderamos estar sem que nos incomodassem. Levei-a para l, fechei a porta com firmeza, e obriguei-a a sentar-se numa cadeira. Peguei noutra cadeira
e puxei-a de modo a ficar de frente para ela. - Agora, Josephine - disse-lhe -, vamos ser muito francos. O que sabes ao certo?

- Montes de coisas.

177
- Disso no tenho dvidas. Essa tua cabecinha est provavelmente a abarrotar de informaes relevantes e irrelevantes. Mas sabes perfeitamente ao que me refiro,
no sabes?

- Claro que sei. No sou estpida.

No sabia se o descrdito era para mim se para a polcia, mas ignorei-o e prossegui.

- Sabes quem deitou veneno no teu cacau? AJosephineanuiu.

- Sabes quem envenenou o teu av? A Josephine anuiu novamente.

- E quem te bateu na cabea?

E a Josephine anuiu mais uma vez.

- Ento vais ter de desembuchar. Vais contar-me tudo a esse respeito... e  j.

- No vou, no.

- Tem de ser. Cada informao de que dispes ou que descobriste tem de ser dada  polcia.

- No contarei nada  polcia. So uns estpidos. Pensam que foi a Brenda... ou o Laurence. Eu no fui estpida a esse ponto. Sabia perfeitamente que no tinham
sido eles. Imaginei sempre quem pudesse ter sido, e depois fiz uma espcie de teste... e agora sei que estou certa.

Rematou com tom vitorioso.

Pedi a Deus que me desse pacincia e recomecei.

- Ouve, Josephine, reconheo que s extremamente inteligente - a Josephine mostrou-se satisfeita. - Mas no te servir de muito seres inteligente se no viveres
para saborear o facto. No vs, minha tolinha, que enquanto guardares os teus segredos desta forma absurda, corres perigo?

A Josephine anuiu. - Claro que corro.

- J escapaste por um triz duas vezes. Uma tentativa quase arrumou contigo. A outra custou a vida a algum. No vs que se continuares a andar por a a apregoar
em alto e bom som que sabes quem  o assassino, haver mais tentativas... e nesse caso ou morres tu ou morre outra pessoa?

- H alguns livros em que matam as pessoas umas atrs das outras informou-me a Josephine com prazer. - E no fim sabe-se quem  o assassino porque  praticamente
a nica pessoa que resta.

178
- No estamos num romance policial. Estamos em Three Gables, Swinly Dean, e s uma mida pateta que l mais do que lhe  benfico. Obrigar-te-ei a contares-me o
que sabes nem que tenha de te abanar at os teus dentes baterem uns nos outros.

- Podia sempre contar-lhe algo que no era verdade.

- Pois podias, mas no o fars. Vamos, ests  espera do qu?

- Voc no compreende - queixou-se a Josephine. - Talvez nunca venha a contar. Sabe, posso... gostar da pessoa.

Fez uma pausa como se para deixar que a ideia se instalasse.

- E se contar - prosseguiu ela -, f-lo-ei como deve ser. Reunirei toda a gente e depois contarei tudo... com as pistas, e depois direi, muito de repente: "E foi
voc...".

Estendeu dramaticamente um dedo no momento em que Edith de Haviland entrou na sala.

- Pe esse caroo no cesto dos papis, Josephine - ordenou Edith. Tens um leno? Os teus dedos esto pegajosos. Vais dar um passeio de carro comigo. - Os olhos dela
cruzaram-se significativamente com os meus ao dizer: - Estars mais segura fora daqui na prxima hora ou assim. - Como a Josephine parecesse contrafeita, Edith acrescentou:
- Vamos a Longbridge e comemos um gelado.

Os olhos da Josephine arregalaram-se.

- Dois - exigiu.

- Talvez - respondeu Edith. - Agora vai buscar o teu chapu e o casaco e o cachecol azul-escuro. Hoje est frio. Charles,  melhor acompanh-la enquanto ela vai
busc-los. No a deixe. Tenho de escrever uns bilhetes.

Sentou-se  escrivaninha, e eu acompanhei a Josephine at l fora. Mesmo sem o conselho de Edith, no teria largado a Josephine por nada deste mundo.

Estava convencido de que a mida corria perigo em cada momento.

Quando estava a acabar de arranjar a Josephine, a Sophia entrou no quarto. Pareceu bastante surpreendida ao ver-me.

- No me digas, Charles, que agora te ocupas de crianas? No sabia que estavas aqui.

- Vou at Longbridge com a tia Edith - anunciou a Josephine com ar importante. - Vamos comer gelados.

179
- Brr, num dia como este?

- Os gelados sabem sempre bem - comentou a Josephine. - Quando ests fria por dentro, sentes-te mais quente por fora.

A Sophia franziu o sobrolho. Parecia preocupada, e fiquei chocado com a sua palidez e as enormes olheiras.

Voltmos para a sala de estar de manh. Edith acabara de fechar dois envelopes. Levantou-se bruscamente.

- Ento vamos - disse ela. - Pedi ao Evans que trouxesse o Ford. Saiu para o trio. Seguimo-la.

O meu olhar recaiu de novo nas malas de viagem com as etiquetas azuis. Por algum motivo suscitavam-me uma vaga inquietao.

- Est um lindo dia - comentou Edith de Haviland, calando as luvas e olhando para o cu. O Ford Dez aguardava  porta de casa. - Frio... mas tonificante. Um dia
de Outono mesmo  inglesa. Como esto bonitas as rvores com os ramos despidos no fundo de cu... e apenas uma folha amarelecida ou duas ainda suspensas...

Ficou silenciosa por uns instantes, depois virou-se e beijou a Sophia.

- Adeus, minha querida - disse. - No te preocupes demasiado. H certas coisas que  preciso enfrentar e suportar.

Depois chamou a Josephine: - Vamos, Josephine, entra no carro. - A Josephine sentou-se ao lado dela.

Acenaram ambas enquanto o carro se afastava.

- Acho que ela tem razo, e  melhor afastar a Josephine daqui por uns tempos. Mas temos de fazer com que aquela mida conte o que sabe, Sophia.

- Provavelmente no sabe nada. Est apenas a armar-se. A Josephine gosta de se dar ares importantes, sabes.

-  mais do que isso. J sabem que veneno estava no cacau?

- Pensam que seja digitalina. A tia Edith toma digitalina para o corao. Tem um frasco cheio de pequenos comprimidos l em cima no quarto. Agora o frasco est vazio.

- Ela devia ter essas coisas fechadas  chave.

- E tinha. Suponho que no ser difcil algum descobrir onde ela escondia a chave.

- Algum? Quem? - Olhei novamente para a bagagem empilhada.

180
- Eles no podem partir. No devem deix-los partir! - exclamei subitamente, levantando a voz.
A Sophia pareceu surpreendida.
- O Roger e a Clemency? Charles, no ests a pensar...
- Bem, o que te parece?
 Sophia estendeu as mos num gesto impotente.

- No sei, Charles - murmurou. - S sei que estamos novamente... estamos novamente a viver o pesadelo...

- Eu sei. Foram precisamente essas as palavras que me ocorreram quando vinha para c com Taverner.

- Porque se trata exactamente de um pesadelo. Caminhamos por entre pessoas que conhecemos, olhamo-las no rosto... e subitamente o rosto muda... e deixa de ser algum
que conhecemos...  um estranho... um estranho cruel...

"Anda l para fora, Charles... - exclamou. - Anda l para fora.  mais seguro l fora... Tenho medo de permanecer nesta casa...

181

CAPTULO VINTE E CINCO

Permanecemos um longo tempo no jardim. Por uma espcie de acordo tcito, no discutimos o horror que nos acabrunhava. A Sophia preferiu falar com afecto de Nannie,
das coisas que tinham feito, dos jogos a que tinha jogado em criana com ela - e das histrias que a velhota costumava contar-Ihestrias sobre Roger e o pai e os
outros irmos e irms.

- Eram como filhos verdadeiros dela, sabes. Ela s voltou para nos ajudar durante a guerra, quando a Josephine era beb e o Eustace um rapazinho divertido.

Existia um certo blsamo para a Sophia naquelas recordaes, e eu encorajei-a a falar.

Perguntei a mim prprio o que andaria Taverner a fazer. A interrogar a criadagem, supus. Um carro com o fotgrafo da polcia e mais dois homens afastou-se, e estava
a chegar naquele momento uma ambulncia.

A Sophia estremeceu um pouco. A ambulncia foi-se embora e soubemos que o corpo de Nannie fora levado para ser preparado para a autpsia.

E continumos sentados ou caminhmos pelo jardim e conversmos... tornando-se as nossas palavras cada vez mais um manto para os nossos pensamentos reais.

Por fim, com uma tremura, a Sophia disse:

- Deve ser muito tarde... j quase escureceu. Temos de ir para dentro. A tia Edith e a Josephine no voltaram... Certamente j c deviam estar.

Despertou-se em mim uma vaga inquietao. O que sucedera? Estaria Edith a afastar deliberadamente a mida da Casa Torta?

Entrmos. A Sophia correu todos os cortinados. A lareira estava acesa e a enorme sala de estar parecia harmoniosa, com um ar irreal de luxo passado. Havia em cima
das mesas grandes taas de crisntemos cor de bronze.

182
A Sophia tocou a campainha e uma criada, que reconheci como tendo estado anteriormente l em cima, trouxe ch. Tinha os olhos vermelhos e fungava continuamente.
Reparei tambm que olhava, a modos que assustada, rapidamente por cima do ombro.

Magda reuniu-se-nos, mas o ch de Philip foi-lhe levado  biblioteca. Magda representava uma imagem petrificada de dor. Pouco ou nada falou. Disse uma vez: - Onde
esto a Edith e a Josephine? J deviam ter chegado.

Mas disse-o de uma forma algo preocupada.

Eu prprio tambm estava a ficar cada vez mais inquieto. Perguntei se Taverner ainda se encontrava ali em casa e Magda respondeu que assim julgava. Fui  procura
dele. Disse-lhe que estava preocupado com Miss de Haviland e a mida.

Ele dirigiu-se imediatamente para o telefone e deu determinadas instrues.

- Avis-lo-ei quando tiver notcias - referiu.

Agradeci-lhe e voltei para a sala de estar. A Sophia encontrava-se ali com o Eustace. Magda sara.

- Se ele souber alguma coisa avisar-nos- - informei a Sophia. Ela falou em voz baixa:

- Aconteceu alguma coisa, Charles, deve ter acontecido alguma coisa.

- Minha querida Sophia, ainda no  muito tarde.

- Ests preocupada com o qu? - perguntou o Eustace. - Provavelmente elas foram ao cinema.

Saiu indolentemente da sala. - Ela pode ter levado a Josephine para um hotel - disse eu  Sophia -, ou at Londres. Acho que percebeu realmente que a mida corria
perigo... talvez o tenha percebido melhor do que ns.

A Sophia respondeu com uma expresso sombria cujo significado no consegui descobrir.

- Ela despediu-se de mim com um beijo...

No atingi logo o sentido daquele comentrio desgarrado, ou o que era suposto indiciar. Perguntei-lhe se Magda estava preocupada.

- A me? No, ela est bem. No tem a noo do tempo. Anda a ler uma nova pea de Vavassour Jones intitulada The Woman Disposes.  uma pea cmica sobre assassnio
(um Barba Azul de saias), c para mim plagiada de

183
Arsenic and OldLace mas tem um bom papel feminino, uma mulher que tem a mania de ser viva.

No lhe disse mais nada. Sentmo-nos, fingindo ler

Eram seis e meia quando Taverner abriu a porta e entrou. O seu rosto preparou-nos para o que tinha a dizer.

A Sophia levantou-se.

- Sim? - inquiriu.

- Lamento. Trago-lhe ms notcias. Lancei um alerta geral para o carro. Um condutor referiu ter visto um Ford com uma matrcula parecida a sair da estrada principal
em Flackspur Heath... pela mata.

- No... o trilho para a pedreira de Flackspur?

- Sim, Miss Leonides. - Fez uma pausa e depois prosseguiu: - O carro foi encontrado na pedreira. Ambos os ocupantes esto mortos. Posso dizer-lhe que tiveram morte
imediata.

- A Josephine! - Era Magda, de p,  porta. A sua voz subiu num lamento. - A Josephine... A minha filhinha.

A Sophia abeirou-se dela e abraou-a.

- Esperem um pouco - disse eu.

Lembrara-me de uma coisa! Edith de Haviland a escrever duas cartas na escrivaninha, a vir para o trio com elas na mo.

Mas no as levava consigo quando entrara no carro.

Corri para o trio e fui direito  comprida cmoda de carvalho. Encontrei as cartas... escondidas atrs de um samovar de lato.

A de cima estava dirigida ao inspector-chefe Taverner.

Taverner seguira-me. Entreguei-lhe a carta e ele abriu-a precipitadamente. Colocando-me ao lado dele, li o seu breve contedo.

Espero que esta carta seja aberta aps a minha morte. No desejo entrar em pormenores, mas aceito a plena responsabilidade pelas mortes do meu cunhado, Aristide.
Leonides e Janet Rowe (Nannie). Declaro solenemente que Brenda Leonides e Laurence Brown esto inocentes do assassnio de Aristide Leonides. O Dr. Michael Chavasse,
7831arley Street, poder confirmar que a minha vida s viria a prolongar-se por alguns meses. Prefiro optar por esta sada e poupar dois

184
inocentes  provao de serem acusados de um crime que no cometeram. Fao estas afirmaes na plena posse das minhas faculdades mentais.

Edith Elfrida de Haviland.

Ao terminar de ler a carta, apercebi-me de que tambm a Sophia a lera... no sei se com a concordncia de Taverner ou no.

- Tia Edith... - murmurou a Sophia.

Recordei o p implacvel de Edith de Haviland a esmagar a corriola na terra. Recordei as minhas desconfianas iniciais, quase fantasiosas, dela. Mas porqu...

Sem que eu desse por isso, a Sophia tirou-me as palavras da boca.

- Mas porqu a Josephine? Por que  que ela levou a Josephine consigo?

- Por que  que ela o fez? - perguntei. - Que motivo tinha?

Mas apesar de o afirmar, eu sabia a verdade. Vi tudo com a maior clareza. Apercebi-me de que segurava a segunda carta dela na minha mo. Olhei para ela e vi o meu
nome no sobrescrito.

Era mais grosso e mais duro do que o outro. Antes mesmo de o abrir, adivinhei o seu contedo. Rasguei o envelope e o caderninho preto da Josephine caiu. Apanhei-o
do cho - abriu-se na minha mo e vi o registo na primeira pgina...

Chegando-me como de muito longe, ouvi a voz da Sophia, cristalina e autocontrolada.

- Enganmo-nos redondamente - disse ela. - No foi a Edith.

- No - respondi.

A Sophia aproximou-se mais de mim.

- Foi... a Josephine... no foi? - murmurou. - Foi isso mesmo, foi a Josephine.

Juntos, olhmos para a primeira entrada no caderninho preto, escrita por mo infantil e pouco firme: Hoje matei o av.

185

CAPTULO VINTE E SEIS

Viria a interrogar-me mais tarde por que fora to cego. A verdade estivera presente o tempo todo. A Josephine e s ajosephine correspondia a todos os requisitos
necessrios. A sua vaidade, a sua presuno persistente, o prazer em conversar, a sua reiterao do quanto era inteligente, e da estupidez da polcia.

Eu nunca considerara a hiptese de ser ela por se tratar de uma criana. Mas houve crianas que cometeram crimes, e este crime em particular estava bem ao alcance
de uma criana. O prprio av indicara o mtodo exacto

- fornecera praticamente o plano. Ela s tivera de evitar deixar impresses digitais e os conhecimentos mais superficiais de literatura policial ensinar-lhe-iam
isso. E tudo o mais fora uma mera amlgama, escolhida arbitrariamente do conjunto de obras de mistrio. O caderninho de apontamentos

- a investigao - as falsas suspeitas, a insistncia em no dizer nada seno quando tivesse a certeza...

E por fim, o ataque a si prpria. Uma representao quase incrvel, considerando que poderia facilmente ter-se matado. Mas, infantil como era, no considerara sequer
essa hiptese. Era a herona. A herona no morre. No entanto, houvera ali uma pista - os restos de terra no assento da velha cadeira na arrecadao. Ajosephine
era a nica pessoa que precisava de trepar a uma cadeira para equilibrar o bloco de mrmore no cimo da porta. Obviamente que por mais de uma vez o ensaiara (as mossas
no cho) e subira pacientemente de novo e recolocara-o, agarrando-o com o cachecol para evitar as impresses digitais. E depois ele cara - e ela escapara por um
triz da morte.

Fora o esquema perfeito - a impresso que ela pretendia causar! Corria perigo, "sabia alguma coisa", fora atacada!

Vi como atrara deliberadamente a minha ateno para a casa das cisternas. E encenara a artstica desarrumao do seu quarto antes de ir para a arrecadao.

186
Mas quando regressara do hospital, quando soubera da deteno de Brenda e Laurence, deve ter Ficado descontente. O caso estava encerrado, e ela, Josephine, sara
da ribalta.

Por isso roubara a digitalina do quarto de Edith e pusera-a na sua prpria chvena de cacau e deixara-a intacta na mesa do trio.

Sabia que Nannie o beberia?  possvel. Pelas suas palavras naquela manh, no aceitava as crticas que Nannie lhe fazia. Suspeitaria Nannie, porventura, merc de
uma vida inteira de experincia com crianas? Penso que Nannie sabia, sempre soubera, que a Josephine no era normal. Ao seu desenvolvimento mental precoce estava
associado um sentido moral retardado. Era tambm possvel que os vrios factores hereditrios - o que Sophia chamara a "crueldade da famlia" - se tivessem conjugado.

Ela possua uma crueldade autoritria da parte da famlia materna, e o egosmo cruel de Magda, vendo apenas o seu ponto de vista. Pressupostamente, sofrera, sensvel
como Philip, o estigma de no ser atraente - o patinho feio da famlia. Por ltimo, corriam na sua prpria medula os genes essenciais defeituosos do velho Leonides.
Era neta de Leonides, assemelhava-se-lhe na inteligncia e na astcia - mas, ao passo que o amor dele se projectara na famlia e nos amigos, o dela virara-se para
si mesma.

Calculei que o velho Leonides percebera o que nenhum dos restantes membros da famlia percebera, que a Josephine podia ser uma fonte de perigo para os outros e para
si prpria. Mantivera-a afastada da escola porque tinha medo do que ela pudesse fazer. Protegera-a e guardara-a em casa, e eu compreendia agora a insistncia dele
com a Sophia para que olhasse pela Josephine.

A sbita deciso de Magda de enviar a Josephine para o estrangeiro tambm ela se devera a um temor pela filha? No, talvez, a um receio consciente, mas a um vago
instinto materno.

E Edith de Haviland? Primeiro suspeitara, depois receara... e finalmente soubera?

Olhei para a carta na minha mo.

Caro Charles. Vou fazer-lhe uma confidncia - e  Sophia, se assim o entender.  imperioso que algum saiba a verdade. Encontrei este caderno na casota do co que
no era usada, ao p da porta das

187
traseiras. Ela guardava-o ali Confirma o que eu j suspeitava, A aco que vou empreender pode estar certa ou errada, no sei Mas, de qualquer forma, a minha vida
est perto do fim, e no quero que a criana sofra como creio que iria sofrer se chamada aprestar contas pelo que fez.

Com frequncia, um da ninhada "no  saudvel".

Se estiver errada, que Deus me perdoe - mas fi-lo por amor. Deus vos abenoe aos dois.

Edith de Haviland

Hesitei apenas por um momento, depois entreguei a carta  Sophia. Novamente em conjunto, abrimos o caderninho preto da Josephine.

Hoje matei o av.

Virmos as pginas. Era uma produo extraordinria. Interessante, imaginei, para um psiclogo. Evidenciava, com terrvel clareza, a fria do egosmo contrariado.
O motivo do crime era explicado, lamentavelmente infantil e inadequado.

O av no queria deixar-me andar no ballet, por isso decidi que ia mat-lo. Depois iramos viver para Londres e a me no se importaria que eu fizesse ballet

Apresento apenas alguns registos. So todos elucidativos. '

No quero ir para a Sua - no vou. Se a me me obrigar, mato-a tambm... s que no consigo mais veneno. Talvez possa prepar-lo com bagas de teixo. So venenosas,
 o que vem no livro.

Hoje, o Eustace irritou-me muito. Diz que no passo de uma mida sem prstimo e que as minhas investigaes so absurdas. No pensaria assim se soubesse que fui
eu que cometi o crime.

Gosto do Charles - mas ele  muito estpido. Ainda no decidi quem vou incriminar. Talvez a Brenda e o Laurence - a Brenda  desagradvel comigo, diz que no sou
boa da cabea, mas gosto do Laurence - ele falou-me de Charlot Korday - ela matou algum no banho. Mas no foi muito esperta.

188
O ltimo registo era elucidativo.

OdeioaNannie... Odeio-a... Odeio-a... Diz que sou apenas umafedelha. Diz que gosto de me exibir. Vai fazer com que a me me mande para o estrangeiro... Tambm vou
mat-la - acho que o remdio da tia Edith serve. Se houver outro crime, ento a polcia vir de novo e ser tudo muito excitante.

A Nannie morreu. Estou feliz. Ainda no decidi onde vou esconder o frasco com as coisinhas cor-de-rosa. Talvez no quarto da tia Clemency... ou ento do Eustace.
Quando morrer, j velha, deixarei este caderno dirigido ao chefe da Polcia e eles vero como fui realmente uma grande criminosa.

Fechei o caderno. As lgrimas da Sophia no paravam de cair.

- Oh, Charles... oh, Charles...  medonho. Ela  um monstrozinho... e no entanto...  incrivelmente pattico

Eu sentira o mesmo.

Gostara da Josephine... Sentia ainda um certo carinho por ela... No se gosta menos de algum porque est tuberculoso ou com alguma outra doena fatal. A Josephine
era, como dissera a Sophia, um monstrozinho, mas era um monstrozinho pattico. Nascera com um defeito - a criana torta da pequena Casa Torta.

- Se... ela vivesse... o que lhe aconteceria? - perguntou a Sophia.

- Acho que seria mandada para um reformatrio ou uma escola especial. Mais tarde seria libertada... ou possivelmente dada como louca, no sei.

A Sophia estremeceu.

- Foi melhor assim. Mas a tia Edith... no gosto de pensar que ela assumiu a culpa.

- Ela preferiu assim. No creio que venha a pblico. Calculo que quando Brenda e Laurence comparecerem em tribunal, no seja movida uma aco contra eles e que sejam
ilibados.

"E tu, Sophia - disse-lhe, desta vez num tom diferente, e tomando-lhe ambas as mos nas minhas -, vais casar comigo. Acabei de saber que fui destacado para a Prsia.
Vamos para l os dois, e tu esquecers a pequena

189
Casa Torta. A tua me pode encenar peas e o teu pai comprar mais livros e no tarda o Eustace ir para uma universidade. No te preocupes mais com eles. Pensa em
mim.

Sophia olhou-me nos olhos.

- No tens medo de casar comigo, Charles?

- Por que haveria de ter? Tudo o que de pior a famlia tinha foi parar  Josephine. Acredito que tu, Sophia, herdaste o que de mais corajoso e melhor existe na famlia
Leonides. O teu av tinha-te em alta estima e parece ter sido um homem que nunca se enganou. Levanta a cabea, minha querida. O futuro pertence-nos.

- Aceito, Charles. Amo-te e casarei contigo e far-te-ei feliz. - Olhou para o caderninho. - Pobre Josephine.

- Pobre Josephine - repeti.

- Afinal como  que ficamos, Charles? - perguntou o meu pai.
 Nunca minto ao Velho.

- No foi Edith de Haviland, sir - disse-lhe. - Foi a Josephine. O meu pai acenou lentamente com a cabea.

- Sim - respondeu. - J estava desconfiado h algum tempo. Pobre mida...

 190ce ter sido um homem que nunca se enganou. Levanta a cabea, minha querida. O futuro pertence-nos

